Capítulo 76

124 10 3
                                        

Boa leitura

Paulo

Acabo de deixar o José em casa. Ontem não fui à terapia, e já faz sete dias que não falo com ela. Nenhuma notícia, nenhum sinal. Ando meio sem rumo, os dias estão em preto e branco, sem graça, mas aceitei. Entendi o que ela me pediu naquela noite, no aniversário do Padilha: a gente só se machuca, e precisamos seguir em frente, cada um no seu caminho.

Estou decidido a não ir atrás dela.

Nossa história não foi longa, mas foi intensa. E, pra ser honesto, não sei se vou conseguir esquecer um dia. Tento não acompanhar mais suas redes sociais, apaguei o número dela, estou seguindo... do jeito que dá.

A Suyane continua me mandando mensagens, perguntando como estou. Eu respondo, converso, mas decidi dar um tempo de tudo, não me envolver com ninguém, deixar a vida seguir seu rumo.

Vou até a cozinha, preparo um sanduíche natural, faço um suco de laranja, como em silêncio olhando pela janela. Lavo a louça, vou para o quarto, tomo um banho demorado, visto uma roupa confortável e volto pra sala, tentando assistir um filme de ação. Mas não adianta. Minha mente não fica quieta, ela vem o tempo todo. Virou rotina.

No meio do filme, meu celular começa a tocar quando olho o número, eu travo.

É ela.

Eu conheço esse número de trás pra frente. O coração dispara, sinto minhas mãos suando. Pego o celular, olho fixo para a tela, respiro fundo e atendo, levando ao ouvido devagar, quase sem acreditar.

Do outro lado, silêncio. Só ouço a respiração dela, pesada, como se estivesse lutando contra algo. Então, percebo o som de um gole, provavelmente de um copo, talvez vinho, não sei.

— Amor? — ela diz, com a voz baixa.

Meu coração dispara, minha respiração fica descompassada. Fecho os olhos por um segundo, sentindo tudo voltar.

— Gloria... por que tá me ligando?

Do outro lado, o silêncio dela me engole, até ouvir sua voz de novo, mais baixa, mais suave, carregada de algo que reconheço de longe.

— Vem aqui... preciso de você, preciso muito de você agora... — a voz dela está rouca, quase sensual.

Engulo em seco.

— Você tá bebendo?

— Só um pouco... — responde, quase rindo.

Respiro fundo, me levanto do sofá, começo a andar pelo apartamento, sentindo meu peito apertar, a mente confusa.

— Gloria, eu pensei muito no que você me disse aquele dia. E... você tá certa. Isso não dá certo, a gente só vai se machucar mais...

— Mas eu quero que você venha. Você não vai vir? — ela insiste, a voz suave, carregada de desejo.

Eu fecho os olhos, passo a mão na barba, respiro fundo.

— Eu acho melhor não.

O silêncio toma conta, até ela sussurrar, lenta, me desmontando.

— Nem se eu te disser que estou na banheira, nua, com uma taça de vinho na mão, cheia de tesão, desejando você?

Paro no meio da sala. A imagem dela nua naquela banheira, o cabelo molhado, o vinho, me atravessa como um raio. Minha respiração falha, minha mente grita para eu pegar a chave e sair agora.

— Não faz isso, Gloria... você tá bêbada, e amanhã vai se arrepender. Se eu for, a gente vai acabar brigando de novo, é sempre assim...

Silêncio.

Desejo oculto Onde histórias criam vida. Descubra agora