Capítulo 70

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Boa leitura

Paulo

Vejo ela sair da minha casa, cada passo dela me dilacerando por dentro. Fico desorientado, andando de um lado para o outro, o coração esmagado pela realidade cruel: ela foi embora. Foi embora dizendo que eu estava livre, e nos olhos dela vi algo que corta mais fundo que qualquer faca — a certeza de que não vai mais voltar.

Num ímpeto, dou um soco na parede, a raiva explodindo em mim. Outro soco vem pela dor que sinto quando ela me contou que se entregou a outro. Um terceiro golpe, feroz, pela traição, pela ferida aberta que ela me deixou. Quando olho para a minha mão, vejo o sangue pingando, escorrendo silencioso.

Ignoro a dor, porque o que realmente me dói é a imagem dela saindo daqui, chorando, sozinha na rua, quase pelada, vulnerável.

Corro até o quarto, pego a primeira bermuda que encontro, agarro as chaves do carro e desço as escadas num passo acelerado. Chegando na portaria, saio correndo atrás dela, sem pensar em mais nada.

— Oi, boa noite. Cadê ela? — pergunto, ofegante, olhando para a moça da portaria.

— Boa noite, senhor. Ela saiu tem uns cinco minutos! — responde, com um tom tranquilo, como se aquilo fosse normal.

Agradeço rápido e corro para o estacionamento. Entro no carro, ligo o motor e saio cantando pneu, ignorando o silêncio da madrugada — preciso saber se ela chegou bem. As ruas estão desertas, o relógio marca quase 4 da manhã.

Em menos de vinte minutos estou no condomínio dela. Paro em frente à casa, desço do carro e me aproximo da porta, tudo está escuro, silêncio absoluto.

— Será que ela já chegou? — murmuro, olhando para a garagem, ansioso e apreensivo.

— O que está fazendo aqui? — uma voz atrás de mim me faz pular, e eu me viro assustado.

Ela está ali, segurando os sapatos na mão, os olhos inchados, o nariz vermelho de tanto chorar, mas com aquela marra de sempre — desafiadora. Me encara de cima a baixo, como se percebesse que estou só de bermuda.

— Eu só vim ver se você chegou bem — digo firme, tentando esconder a preocupação. — Você saiu daquele jeito, fiquei preocupado! Mas já que você está bem, vou indo embora.

Começo a passar por ela, mas ela me interrompe, os olhos fixos na minha mão.

— Paulo, o que é isso na sua mão?

A raiva no rosto dela desaparece, dando lugar à preocupação. Olho para minha mão e sinto a dor crescendo, pulsando forte. Levanto o braço, vejo o ferimento — está feio, sangrando demais. Tento abrir e fechar os dedos, mas a dor aguda me impede de firmar o movimento.

— Não foi nada, bati a mão na parede! — tento disfarçar, evitando o olhar dela.

— Nitidamente não foi só bater... você socou a parede. Por quê? — ela pega minha mão com cuidado, o olhar preocupado. — Tá todo machucado!

— Não precisa se preocupar. Chegando em casa eu faço um curativo — digo, já me virando para sair.

Mas ela segura meu braço firme, olhando direto nos meus olhos.

— Não! Você entra agora, eu vou cuidar dessa mão. Você não vai conseguir chegar em casa desse jeito, deve estar doendo demais.

Fico calado, sentindo o peso do olhar dela e a urgência na voz.

Ela me puxa para dentro, liga a luz da sala assim que entramos, e eu olho ao redor, sentindo um aperto no peito. A lembrança da nossa última briga ali me sufoca, e o pensamento de que foi naquele sofá que ela transou com aquele imbecil me corrói por dentro.

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