Capítulo 64

133 12 2
                                        

Boa leitura

Paulo

Eu ainda tô tentando entender se ela tá mesmo aqui, na minha frente. Sonhei com ela a noite toda e agora... tá aqui. Sem pensar, agarrei, beijei sua boca, ela chupou meus lábios e foi ali que percebi que não era sonho, era real, ela tá aqui. O cheiro dela, de verdade. Aí ela se levanta e vai pro meu quarto pegar um remédio e então... ouço aquela voz que conheço de longe.

— Paulo? Por que você não atende? Tô te ligando faz tempo! — Juliana aparece do nada

— Juliana? Como é que você entrou aqui? — pergunto meio sem entender nada, e ela vem até mim, toca meu rosto e faz aquela cara de "tô preocupada"

— O porteiro nem tava lá embaixo, subi direto... O que houve com você? Tá com cheiro de bar inteiro, você não é de beber desse jeito — ela olha pra garrafa e eu só penso que ela não podia ter vindo

— Juliana, olha... o que rolou ou deixou de rolar aqui não é da sua conta. Você pode ir embora, por favor? — já sem paciência, torcendo pra ela sumir logo porque sei que a Gloria ouviu tudo

— Foi ela, né? Aquela mulher! Sabia que ela ia te destruir... essa Gloria tem cara de santa mas é só fachada!!!

— Já falei mil vezes: não fala dela desse jeito. E já pode ir indo, tá?

Ela para, me olha daquele jeito que só ela sabe e que sempre me dava calafrio. Mas agora só me dá nojo.

— Vai fazer o quê, vai me bater por estar falando mal da sua gloriosa? Tá assim por quê? — ela olha ao redor, vê a bolsa da Gloria e já percebe tudo

— Juliana, na boa... sai daqui antes que eu perca de vez a paciência.

— Ela tá aqui? Não acredito! Onde? — ela ri, começa a andar pelo apê tentando encontrar

Levanto do sofá num pulo, seguro ela, tento afastar, impedir de continuar

— Já deu, Juliana! Vai embora logo!

— Você contou pra ela? — ela manda na lata, com um sorrisinho nojento no rosto

— Fica quieta, Juliana.

— Contou que você foi lá em casa esses dias? Quatro dias, pra ser exata... — a risadinha sarcástica dela só me irrita mais

— PARA COM ISSO!

— Contou que a gente ficou no meu sofá, que fiz massagem em você, beijei seu pescoço e você ficou todo mole?

— JULIANA, CHEGA, PORRA!

— Que eu fiquei pelada na sua frente, sentei no seu colo e você tava durinho, louco me agarrando...?

— Eu juro que mato você se continuar!

E aí, do nada, ela mente. Mente feio. Me dá um frio na barriga.

— E que a gente transou ali mesmo no sofá onde você dizia que me amava, e você me pegou como se fosse nosso último dia juntos...

— Para de inventar merda! A gente NÃO transou!

— É isso que você vai fingir agora? Que nada aconteceu? Covarde... Mas tá tudo bem. Ela pode ter mexido contigo agora, mas você sempre vai ser um pouquinho meu, Paulo. Sempre. — e vai embora com aquela cara lavada depois de despejar todas essas mentiras

Gloria

Não tô acreditando no que escutei. O que essa mulher falou... parece um soco. Vou escorregando pela parede, sento no chão sem força, o choro vem pesado. Quatro dias atrás. Sexta ele tava com ela. E sábado tava comigo. Meu Deus, isso tá doendo demais, demais...

— Gloria, meu amor, espera, deixa eu exp...

Ele entra no quarto correndo, me pega pelos braços tentando me levantar, mas eu empurro ele com toda força que tenho, chorando muito

— NÃO ENCOSTA EM MIM, SOME DE PERTO DE MIM, SEU DESGRAÇADO!!! — grito, batendo nele, nem penso direito

— Gloria, calma, por favor! Aquilo foi mentira, juro, ela tá inventando!

— MENTIROSO! VOCÊ FICOU COM ELA SIM! Enquanto eu tava aqui me humilhando, você tava lá, com ela. Um dia comigo, no outro com ela. QUE NOJO!

Eu paro de bater, a voz já quase falhando de tanto que choro, e ele tenta explicar

— Me escuta, por favor! Deixa eu falar, pelo menos isso!

— Eu não quero nem olhar mais na sua cara, Paulo. Acabou. Você morreu pra mim.

Vou saindo, enxergando tudo embaçado, lágrimas turvando tudo, mas consigo pegar minha bolsa... só que ele me puxa de volta. Viro e dou um tapa. Ia dar outro, mas ele segura minha mão, prende meus braços, me puxa pra perto, nossos corpos colados

— Para com isso, Gloria... Eu te amo, você entende? Eu amo você. Não é só cama, não é só desejo, é muito mais. Eu quero tudo com você, eu sinto a sua falta até quando você tá do meu lado, eu sonho contigo. Você é tudo, mulher. É minha paz e meu furacão. Não fiz nada com ela. Fui lá, sim, na sexta, tava com raiva de você, mas eu não consegui fazer nada. Ela tentou. Sentou no meu colo, tirou a roupa, mas eu lembrei de você. E não deu. Eu não quis. Eu te amo. Só você.

Ele falou. Falou tudo. O que eu sempre senti no olhar dele, ele colocou em palavras. Só que... a dor tá tão grande que eu não consigo ver com clareza.

— Me ama? Isso é amor pra você? Me ignorar, se enfiar com a ex? Vai se foder, Paulo. Eu não acredito que vocês não transaram.

Eu tô cega de raiva, de tristeza, me debatendo pra me soltar, sem parar de chorar. Ele me segura mais firme, e aí eu desabo, solto tudo, começo a soluçar. Encosto minha cabeça no peito dele, o cheiro dele me quebra mais ainda. E então, sem pensar, deixo sair...

— Seu filho da puta... você destruiu minha vida. Me fez te amar e me feriu mais do que qualquer outro. Mais que o Fábio, mais que o Orlando. Você fez exatamente o que eu mais temia. E eu aqui, me sentindo mal por ter ficado com o Thiago ontem. Eu sou mesmo uma idiota.

Assim que falo, ele me solta. Dá um passo pra trás. Me olha... completamente em choque. Os olhos dele enchem d'água, e a lágrima vem.

— Você fez o quê com o Thiago ontem?

E aí... é minha vez de sentir o arrependimento rasgar o peito.

[...]

Desejo oculto Onde histórias criam vida. Descubra agora