Boa leitura
Gloria
Acordo com os primeiros raios de sol invadindo a sala, a cabeça latejando por causa do vinho da noite passada. Ainda estou envolta pelo calor de um corpo que reconheço de imediato. O cheiro dele, a firmeza do peito musculoso contra minhas costas, os braços fortes apertando minha cintura... e a ereção evidente me fazendo prender a respiração.
Meu corpo desperta antes da minha mente, relembrando fragmentos da noite anterior. Quando percebo que estamos completamente nus no sofá da minha casa, o choque me faz despertar de vez.
Me mexo, inquieta, e ele se remexe atrás de mim, acordando devagar. Quando sua respiração muda, quebro o silêncio:
- Paulo... o que você tá fazendo aqui? — minha voz sai tensa, acelerada.
Ele me olha, ainda meio sonolento, mas confuso.
- Você não se lembra de nada, Gloria?
Minha mente trabalha rápido, mas a ressaca e o torpor do sono dificultam as conexões. O pânico começa a se instalar no meu peito.
- Eu... não sei o que aconteceu aqui, mas sei que foi um grande erro. Meu Deus... cadê minhas roupas?
Me levanto num impulso, cobrindo o corpo com o hobby jogado no chão. Saio pela casa, recolhendo as peças espalhadas pela cozinha, enquanto ele fica na sala, ainda tentando processar a situação.
Ele pega o celular que estava na mesinha de centro e vê as horas: 5h23 da manhã. A tela mostra quatro chamadas perdidas da esposa e algumas mensagens. Ele passa a mão no rosto, respira fundo e então se levanta, vestindo a cueca antes de me seguir até a cozinha.
Quando me vê novamente, parada ali, coberta apenas pelo hobby, o olhar dele se fixa em mim, um misto de desejo e conflito estampado em seu rosto. Por um instante, ficamos em silêncio. O peso do que aconteceu paira entre nós.
Ele suspira pesado, passando a mão na nuca, visivelmente desconfortável.
- Desculpa, Gloria. Não quero que pense que me aproveitei de você ou da situação. — A voz dele sai baixa, carregada de culpa. — Ontem vi os status do Eri, percebi que você estava alterada pelo álcool... Vi também que comentou numa foto minha. Então mandei mensagem porque queria te trazer umas lembrancinhas e saber como você estava. Mas... acabou acontecendo.
Ele abaixa a cabeça, sem coragem de me encarar.
Cruzo os braços, tentando me proteger da avalanche de emoções que me consome. Minha mente ainda está um caos, e meu coração bate acelerado, não pelo desejo de antes, mas pelo medo do que acabamos de fazer.
- Nós somos casados, Paulo... — minha voz sai mais firme do que eu esperava. — Isso é muito errado! Eu amo meu marido, meu casamento, meus filhos... Não trocaria isso por nada!
Ele finalmente levanta o olhar para mim, e a dor nos olhos dele é quase palpável mas eu não posso hesitar.
- Eu não deveria ter deixado isso acontecer. — Continuo, segurando minha compostura. — A culpa também foi minha, mas se você puder esquecer tudo isso e ir para casa agora... eu agradeceria muito.
O silêncio pesa no ar. Ele aperta os lábios, como se quisesse dizer algo, mas se contém. Então, apenas assente com a cabeça e começa a recolher suas roupas, se vestindo rapidamente.
Eu permaneço imóvel, olhando para o chão, enquanto ouço o barulho dos passos dele se afastando.
Autora
Gloria vira as costas, e Paulo sente o coração despedaçar. Além de não se lembrar da noite que tiveram, ela está arrependida. A dor que isso causa nele é avassaladora. Ele não pode aceitar que aquilo termine assim, não depois do que sentiram um pelo outro.
Num impulso desesperado, ele se aproxima e a abraça por trás, sentindo o corpo quente dela contra o seu.
- Gloria, por favor... — A voz dele sai quase como um pedido de socorro. — Vamos conversar. Não é possível que você não se lembre de nada... A gente pode dar um jeito nisso.
Ela fecha os olhos por um breve momento, lutando contra a onda de emoções que a invade. O calor do corpo dele, o cheiro, a sensação de segurança... Mas não. Isso precisa acabar.
Gloria desfaz o abraço e se afasta, ignorando o vazio imediato que sente.
- Você é casado, Paulo. Tem uma família linda, uma esposa que te ama. Não tem como dar jeito nisso. Nós nunca daríamos certo. — Sua voz sai firme, mas por dentro, ela sente algo se partir. — E como eu disse, também sou casada. Eu amo o Orlando. Não trocaria o meu casamento por uma aventura sem futuro.
A expressão dele muda no mesmo instante. Ele não acredita no que está ouvindo. O peito aperta, uma dor estranha, sufocante. Algo que ele não sentia há anos.
- Se é assim que você quer... Tudo bem. — Ele respira fundo, forçando a compostura. — Mas saiba que eu não vou esquecer. Foi a melhor noite da minha vida. E foi com você.
O impacto daquelas palavras é cruel. Gloria sente os olhos arderem, mas não pode fraquejar. Olha para cima, mantendo o queixo erguido, mas uma lágrima escapa sem que ela perceba. Rápida, vai até a geladeira, fingindo procurar algo, usando sua melhor atuação para esconder o que sente.
Paulo começa a se vestir, vestindo a camisa com pressa, quando um som os paralisa.
A porta da frente se abre.
O choque é instantâneo. Os dois se encaram por uma fração de segundo antes de Gloria puxá-lo pelo braço.
- Vem! — Ela sussurra, desesperada. — Não podem te ver aqui a essa hora!
Ela mantém a postura fria, se obrigando a ser racional. Não pode permitir que as emoções dominem o momento. Passam rapidamente pela porta dos fundos, entrando na garagem. Mas antes que ele possa ir, Paulo a segura pelo braço, puxando-a para perto de si.
Gloria arregala os olhos, colocando as mãos no peito dele, tentando afastá-lo. Mas ele é mais rápido.
Agarra sua cintura com firmeza, enlaçando-a em seus braços fortes. O olhar dele arde em desejo e desespero. Sem pensar, afunda a mão em seus cabelos e a beija.
Mas não é um beijo qualquer.
É um beijo de posse, de necessidade, de despedida.
Gloria sente o corpo ceder. Os braços antes rígidos agora deslizam pelos músculos dele, apertando, puxando, querendo mais. Não deveria. Mas o desejo é maior.
Ele pede passagem com a língua, e ela cede na mesma hora, deixando-se levar pelo gosto, pela lembrança de tudo o que fizeram.
Por segundos, eles se entregam à última fagulha daquela loucura.
Mas então, com um esforço sobre-humano, Gloria o empurra.
- Vai embora, agora.
Paulo respira fundo, ainda sentindo o gosto dela na boca. Antes de partir, olha nos olhos dela, cravando suas últimas palavras como uma sentença.
- Eu estou completamente apaixonado por você.
E então ele se vai, deixando Gloria ali, sem reação, tentando convencer a si mesma de que aquilo nunca mais aconteceria.
Mas no fundo, ela já sabe que é mentira.
[...]
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Desejo oculto
Fiksi PenggemarNos bastidores da novela Terra e Paixão, dois veteranos da teledramaturgia se encontram não apenas em cena, mas também na vida real. Paulo Rocha e Gloria Pires, ao darem vida a seus personagens, acabam despertando sentimentos que ultrapassam o rotei...
