Nos bastidores da novela Terra e Paixão, dois veteranos da teledramaturgia se encontram não apenas em cena, mas também na vida real. Paulo Rocha e Gloria Pires, ao darem vida a seus personagens, acabam despertando sentimentos que ultrapassam o rotei...
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Boa leitura
Gloria
Passaram-se três dias e Ana me liga.
— Oi, Gloria, como você está?
— Oi, Ana, estou bem, ainda de repouso, mas melhorando.
— Que bom, liguei porque queria saber se você vai pra terapia no sábado.
— Acho que não, querida, ainda não posso firmar muito o pé, queria muito poder ir.
— Podemos dar um jeito nisso, e se a reunião fosse na sua casa esse sábado, o que me diz?
— Aaah, eu ia amar! Vocês fariam isso? — pergunto, animada.
— Claro, fazemos direto reuniões na casa das pessoas que participam, então posso avisar a todos?
— Pode sim, claro, espero por vocês.
Fico muito feliz com a notícia, aviso a mana e o chamo pra vir também. Ana e Bento vão viajar na sexta pra Goiânia junto com Orlando, então eu vou ficar sozinha em casa durante o fim de semana. Continuo trocando mensagens com ele e, por incrível que pareça, a convivência com Orlando está tranquila, afinal, estou tratando ele exatamente como ele me trata.
Paulo
Começo mais um dia e, logo cedo, Ana me manda mensagem avisando que a reunião de sábado vai ser na casa da Gloria na hora, gelo.
— Como assim na casa da Gloria? — arregalo os olhos, incrédulo.
Juliana aparece bem na hora.
— Oi, tá tudo bem? — ela pergunta, um pouco desconfiada.
— Vamos — ela me olha por um instante, mas vira as costas sem insistir.
Na cozinha, tomamos café em silêncio e logo saio pra resolver alguns problemas.
Os dias passam rápido e, quando percebo, já é sábado, dia da terapia na casa dela. Não aviso nada pra Juliana sobre o local da palestra, e sinceramente? Melhor assim.
[...]
Chego à porta do condomínio onde ela mora, passo meu nome e logo sou liberado. Já sei onde fica a casa, e quando chego, vejo alguns carros parados na frente. Estaciono o meu, desço e toco a campainha. A empregada atende rapidamente.
— Boa noite, o pessoal está na área de lazer — ela avisa.
O cheiro de comida está forte, vindo da cozinha ao lado da sala. Claro que ela mandou preparar o jantar para todos. Passo pela sala onde tudo aconteceu e, por um momento, me bate uma tristeza ao lembrar como ela fingiu ter esquecido. Respiro fundo e sigo até a área de lazer, onde todos já estão conversando e rindo.
— Oi, Paulo, entra, fica à vontade — ela diz, sorrindo e acenando.
— Boa noite, gente, tudo bem com vocês? — cumprimento, um pouco sem jeito.
Vou entrando e logo a vejo, sorrindo pra mim com aquelas covinhas evidentes, um vestido claro e solto, uma rasteirinha nos pés.
"Pensei que estaria com uma bota ou algo do tipo..." 💭
Cumprimento um por um até chegar nela.
— Oi, Gloria, como você está? — pergunto, estendendo a mão para cumprimentá-la.
Ela apoia na minha mão para se levantar e me abraça. O perfume que ela sabe que eu amo invade meus sentidos, e o vestido solto me dá uma bela visão dos seus seios.
— Estou bem, e você? — sussurra no meu ouvido, enquanto ainda estamos abraçados.
— Também estou... pensei que estaria usando alguma proteção no pé.
— Ah, eu estou, mas tirei para a reunião, meu médico liberou ficar um pouco sem.
— Ah, sim, entendi.
— Vamos começar, pessoal? Só faltava o Paulo — Ana avisa, chamando a atenção de todos.
Nos acomodamos nos sofás da área de lazer, que são bem confortáveis e acomodam todo mundo muito bem. Na mesa de centro, há água, gelo e alguns sucos. Meu olhar bate na jarra de suco de laranja e, na mesma hora, me vem à mente aquele dia. Acho que ela percebe, porque quando olho pra jarra, ela me encara com um sorrisinho sacana.
O tema da reunião é "Medo"— encarar seus medos e superar obstáculos. Quando começa o debate, não me seguro.
— Acho que quando o medo prejudica outras pessoas, ele tem que ser superado. Não é fácil, eu sei, mas o medo de admitir o próprio erro ou um sentimento pode causar humilhação e mágoa em alguém que só quer o nosso bem — falo, olhando diretamente para ela, com um olhar esnobe.
Ela imediatamente me encara, e consigo ler nos lábios dela um silencioso "Sério?"
Outras pessoas continuam o debate, mas, em seguida, Gloria levanta a mão para falar.
— Acho que algumas pessoas têm medo de admitir certas coisas por insegurança, por traumas que só elas sabem que têm, ou pelo medo de perder algo que levaram anos para construir — rebate, me olhando nos olhos, claramente irritada.
— Não acho! Pessoas que não admitem o próprio sentimento e ainda magoam os outros são fracas, muitas vezes sem opção própria e dependentes dos outros — rebato, sem recuar.
Resolvo apelar. Sei que ela tem um ego enorme e que é uma mulher de opinião, mas não posso deixar essa passar.
— Talvez seja porque você acha que as coisas podem ser jogadas fora assim, por algo de momento e muitas vezes sem importância — ela solta, agora com mais raiva.
As palavras dela me atingem em cheio. O clima pesa, e então Ana decide intervir, percebendo que há algo muito mal resolvido entre nós dois.
— Paulo, às vezes o medo nos domina não porque somos fracos ou porque queremos machucar alguém, mas porque dentro de nós cresce um sentimento que não temos muito controle ou conhecimento. Algo novo realmente causa medo, e isso não significa fraqueza. E Gloria, muitas vezes o medo vem justamente porque esse amor é grande demais, não porque é algo sem importância ou de momento, mas porque a pessoa sabe que não será só um momento. E, gente, está tudo bem... Cada um tem seus medos, e nem todos são superados tão rápido. Quando se trata de sentimentos, tudo fica ainda mais difícil — Ana diz, olhando para nós dois.
Enquanto ela fala, não tiro os olhos de Gloria, e ela também não desvia os dela de mim. Cresce uma dúvida dentro de mim, e me questiono: o que realmente sinto por essa mulher?