Boa leitura
Paulo
Sábado
Acordo e pego o celular pra ver as horas, são 06h06. Fico ali deitado mais um pouco, enrolando nos pensamentos. Depois de alguns minutos decido levantar, tomo um banho frio porque o dia já começa quente demais. Saio do chuveiro, escovo os dentes, escolho uma sunga e uma bermuda, calço um tênis e vou correr na orla. No caminho, parado no sinaleiro, abro o Instagram e dou de cara com uma foto dela
– Sua praga, que saudade de você... – murmuro, admirando o sorriso que tanto me persegue
É a primeira vez que ela posta uma foto desde a briga. Não entrou em contato e, sinceramente, acho melhor assim. Mas ver aquela foto, ainda mais com a equipe do filme... aquele moleque tá lá também. Fico com ainda mais raiva. O sinal abre e continuo dirigindo, com a cabeça cheia, lembrando do cheiro dela, do gosto, das últimas palavras. Bebi a semana inteira tentando encontrar um jeito de esquecê-la, mas quanto mais eu bebo, mais ela aparece dentro de mim
Chego na praia, saio do carro, corro por mais de uma hora, descarregando toda a angústia no treino. Depois, todo suado, volto pro carro, tiro o tênis, coloco o chinelo e vou pro mar. As ondas estão fortes, o mar está nervoso, e eu também. Fico ali, o corpo mergulhado na água, tentando esfriar o que ferve dentro de mim
Na hora do almoço, Ana Cruz me liga querendo saber se vou na reunião. Digo que sim, não vou parar minha vida por causa dela, e sinceramente, torço pra que ela nem apareça. Volto pro apartamento, tomo outro banho, preparo uma comida leve, filé de peixe com salada e suco de laranja, e passo o resto da tarde organizando agenda, falando com produtoras e tentando não pensar
O tempo voa, e quando vejo já está na hora. Entro no banheiro, aparo a barba, tomo banho, coloco uma bermuda bege e uma camiseta preta, sapato marrom, passo meu perfume, pego carteira, chave do carro e vou. O trânsito, como sempre, uma merda. Levo uns 30 minutos pra chegar. Quando chego, olho ao redor, cumprimento as pessoas, e não a vejo. Respiro aliviado
Procuro a Ana e vejo ela conversando com uma mulher alta, morena, de cabelo liso. Quando chego mais perto percebo que é a Suyane, minha parceira de cena em Terra e Paixão
– Oi, boa noite meninas... – digo, sorrindo
– Oi, Paulo! Boa noite, querido – Ana me abraça e eu retribuo
Suyane continua me olhando, sorrindo com aquele charme todo. Ana é chamada por alguém e se afasta
– Suyane, que bom te ver aqui, como você tá? – pergunto, indo até ela e a abraçando
– Oi, garoto, muito bom te ver também. Tô ótima, e você?
Ela é linda, interessante, inteligente... Na época da novela ela deixou claro que gostava de mim, que se tivesse chance, investiria
– Tô bem também, graças a Deus
A conversa flui e ela não tira as mãos dos meus braços, sempre dando um jeitinho de me tocar. Talvez seja isso mesmo que eu precise, distrair minha cabeça, dar um gelo no coração. Dizem que um amor só se cura com outro... penso nisso enquanto ela flerta
De repente, vejo a Ana atrás dela, sinalizando discretamente com a cabeça. Quando me viro, meu coração dispara. Ela está ali, me observando, não sei há quanto tempo. Está linda... calça preta, regata da mesma cor, acessórios cinzas, bolsa preta, rasteirinhas brancas. Conversa com algumas pessoas e quando percebe que tô olhando, vem na nossa direção
– Boa noite, amados... Não vim antes porque o papo parecia bom demais, não quis atrapalhar – diz com aquele olhar irônico, direto nos meus olhos
Cumprimenta a Suyane com dois beijos no rosto, e vem até mim, me abraça juntando nossos corpos, me dá um cheiro discreto no pescoço. Meu corpo inteiro arrepia, minhas mãos vão parar na cintura dela, como se tivessem memória própria. Seu cheiro me atinge, minha respiração muda. Ela me solta e dá pra ver o incômodo escondido nos olhos dela, mas segue firme
As duas começam a conversar, animadas. Aproveito a deixa
– Vamos, Su? Você senta do meu lado hoje – falo sorrindo e estendendo a mão bem na frente da Gloria
– Com licença, Glorinha! Vamos, meu querido – responde com aquele jeito espontâneo
Vejo a Gloria soltando fumaça pelos olhos. Coloco a mão na cintura da Suyane e a guio até os assentos. Gloria senta duas fileiras atrás. A palestra começa e Suyane fica o tempo todo cochichando no meu ouvido, eu sorrindo. Sei que estamos sendo observados e confesso, tô fazendo de propósito. Gloria é ciumenta, mesmo querendo esconder
No fim do evento, Suyane me diz que está sem carro e que vai chamar um Uber. Digo que não precisa, que levo ela em casa. Ela aceita, e Gloria de longe nos observa. Nos despedimos, descemos para o estacionamento e, quando chego no meu carro, reconheço bem demais o carro parado à frente. Abro a porta pra Suyane entrar e dou a volta. No instante em que vou entrar, vejo Gloria se aproximando com Aline. Ela me encara com ira, e eu adoro. Alvo atingido
Aceno com a mão pra elas e entro no carro, partindo com Suyane, deixando a Gloria pra trás com o que quiser imaginar
[...]
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Desejo oculto
FanfictionNos bastidores da novela Terra e Paixão, dois veteranos da teledramaturgia se encontram não apenas em cena, mas também na vida real. Paulo Rocha e Gloria Pires, ao darem vida a seus personagens, acabam despertando sentimentos que ultrapassam o rotei...
