Boa leitura
Gloria
Não demoramos muito dentro da adega. Graças a Deus, quando saímos, todos estavam distraídos, bebendo, conversando e rindo. Padilha colocou um samba e o clima estava animado. Ninguém pareceu notar nosso sumiço... Pelo menos, assim espero.
Quando chego com as garrafas, Padilha me olha de cima a baixo e sorri. Me sento ao lado dele, tentando disfarçar.
— Os vinhos estavam no alto... Foi difícil pegar. — murmuro, ajeitando o vestido.
— Hummm, sei... Que bom que conseguiu "pegar" o vinho. — ele responde, ajeitando meu cabelo, que está todo bagunçado. Eu nem tinha percebido.
Meu coração acelera o Paulo vem do banheiro, passando a mão pelos cabelos, arrumando a roupa. Ele se senta de frente para mim, e seguimos conversando com todos.
Já passa da meia-noite quando os convidados começam a ir embora, o último a sair é o Paulo. Eu o acompanho até a porta, enquanto Padilha vai para a cozinha antes que ele se afaste, puxo-o para um beijo intenso.
Ele suspira contra meus lábios, as mãos firmes na minha cintura. Quando se afasta, me encara com um olhar sério.
— Precisamos conversar sobre tudo isso.
Sinto um nó no estômago. Sei que ele está certo.
— Eu sei... Mas preciso resolver as coisas com o Orlando primeiro. — minha voz sai hesitante.
— Eu também preciso falar com a Juliana. — ele suspira, parecendo apreensivo. — Bom, agora tenho que ir. Boa noite.
Ele abaixa a cabeça, hesitante, mas antes de sair, me puxa para mais um beijo. Um beijo que me deixa sem ar.
Fico ali, observando-o partir, sentindo meu peito apertar. Quando me viro, dou de cara com Padilha, me encarando de braços cruzados.
— Eeee, mana... Você precisa resolver isso. Tomar uma decisão. Orlando ou Paulo. — ele diz, direto.
— Eu sei... — minha voz embarga.
Não consigo segurar as lágrimas. Odeio chorar na frente dos outros, mas Padilha não é qualquer um.
— Ô, Gloria... As coisas vão se resolver. Mas coloca sua cabeça no lugar e toma uma decisão por você! Seu casamento está te fazendo bem? Se não estiver, termine. Mas não por causa do Paulo... Termine por você mesma.
Soluço, limpando o rosto com as mãos.
— Mana... São 35 anos de casados, temos uma vida juntos! — digo, sufocada pelas lágrimas.
Ele segura minha mão, me olhando com carinho.
— Mas você não o ama mais e está tudo bem. O amor é como uma flor... Se não for cuidado, morre e nós dois sabemos que a culpa desse fim não é sua.
Fecho os olhos, sentindo o peso da verdade.
— Eu sei... Preciso pensar.
— Então pensa. No seu tempo.
Me sinto frágil, vulnerável. Porque, pela primeira vez, admito para mim mesma que meu casamento realmente acabou. Não adianta lutar por algo que já está morto.
E o pior de tudo?
Estou me apaixonando por um homem casado... 14 anos mais novo que eu.
Se isso cair na mídia, é o meu fim.
Paulo
Saio da casa da Gloria com o coração partido e a consciência pesada, não tem mais jeito... Vou pedir o divórcio para a Juliana.
Não existe mais amor entre nós, e eu não vou continuar traindo ela como se isso fosse normal. O peso da culpa me faz chorar no caminho para casa.
Quando chego, encontro a casa em silêncio Juliana já está dormindo, ou até o quarto do José e o vejo em um sono profundo meu filho, meu maior orgulho.
Respiro fundo e sigo para o meu quarto entro no banheiro, ligo o chuveiro e deixo a água quente cair sobre meu corpo. E ali, debaixo daquela água, tenho certeza.
Eu amo a Gloria.
E isso não vai mudar.
Mesmo que ela não sinta o mesmo, eu vou me separar.
Saio do banho, visto apenas uma cueca e deito na cama o cansaço me vence em poucos minutos.
Acordo no dia seguinte com o som do celular vibrando, são 07h da manhã.
Hoje é domingo, o dia que eu separei para ficar com meu filho.
Me espreguiço, levanto e logo percebo que Juliana não está no quarto visto uma bermuda e desço as escadas em direção à cozinha.
Lá está ela, preparando o café da manhã.
Quando me vê, sorri e vem até mim, me dando um beijo, parece feliz, animada.
— Bom dia, meu amor! Tô fazendo nosso café. Como foi a palestra ontem? — pergunta enquanto arruma a mesa.
— Bom dia, Ju... Foi boa. — respondo seco, sem expressão.
Não quero entrar em detalhes, minha consciência ainda pesa eu realmente não quero magoá-la, mas sei que isso é inevitável.
Ela se aproxima e senta no meu colo, fazendo carícias em meu rosto.
— Amor, estive pensando no quanto fui ciumenta e possessiva com você. No quanto te sufoquei, tirando sua liberdade... — sua voz soa culpada. — Você é ator, e se está comigo, é porque me ama. Então decidi esquecer esse ciúme e seguir em frente. Pela nossa família. Pelo nosso casamento. Pelo nosso amor.
E me beija.
Meu coração aperta.
Eu deveria me sentir aliviado, mas só me sinto pior.
No impulso, solto:
— Ju, precisamos conversar.
O sorriso dela some na hora, seu corpo enrijece.
E em segundos, ela muda de assunto levanta do meu colo, ajeita os cabelos e finge que nada aconteceu.
— A gente pode deixar essa conversa para depois? Hoje não dá. Marquei um dia das meninas com minhas primas e já estou atrasada. — responde apressada, virando as costas. — Além disso, hoje é seu dia com o José. Ele tá morrendo de saudade do pai.
E sem me dar chance de responder, sobe as escadas.
Fico parado, observando-a desaparecer pelo corredor.
É nesse momento que percebo... Vai ser mais difícil do que imaginei.
Passo o domingo com José.
Ele já está um rapaz.
Fomos à praia, assistimos a um filme e comemos pizza. O dia com ele é sempre incrível ele me conta sobre a escola, os amigos, os planos para o futuro...
Mas, mesmo ali, com meu filho, minha mente não me dá trégua.
Porque ela está o tempo todo na minha cabeça.
Gloria.
[...]
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Desejo oculto
Fiksi PenggemarNos bastidores da novela Terra e Paixão, dois veteranos da teledramaturgia se encontram não apenas em cena, mas também na vida real. Paulo Rocha e Gloria Pires, ao darem vida a seus personagens, acabam despertando sentimentos que ultrapassam o rotei...
