Capítulo 77

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Boa leitura

Paulo

1 mês.

30 dias desde a última ligação.
30 dias sem vê-la, sem falar com ela, sem ouvir a voz que eu conheço de cor.

Ela postou poucas fotos no Instagram nesse tempo todo, e eu, que antes corria pra curtir qualquer coisa que ela postava, agora só olho de longe, quieto, fingindo que não sinto, fingindo que não me importo. Ela também não curte mais nada meu, não reage, não aparece, como se eu tivesse virado mais um na multidão.

Desde aquela última ligação, eu não procurei saber nada sobre ela. Ela não apareceu mais na terapia, e a Ana disse que tentou contato e não conseguiu. Parte de mim quer acreditar que ela está bem, que ela está seguindo em frente, que ela está conseguindo aquilo que me pediu. Outra parte, a mais egoísta, quer que ela sinta a minha falta do mesmo jeito que eu sinto a dela todos os dias.

Comecei a me envolver com a Suyane, mas nada sério. Transamos algumas vezes, ela dormiu aqui em casa umas duas ou três noites, mas eu não consigo me entregar. Não é ela. Não vai ser ela. E eu sei que não é justo, nem comigo, nem com ela, mas eu estou tentando seguir em frente, ou pelo menos fingindo que estou.

Ainda bebo todas as noites, mas em pouca quantidade. Estou tentando diminuir, tentando não afundar, tentando não me perder. Não sonho mais com ela como antes, pelo menos não do mesmo jeito. Estou tentando seguir em frente. Tentando, só isso.

Falei com o Padilha algumas vezes, mas não tocamos no nome dela. É como se existisse um pacto silencioso entre a gente de não falar sobre ela, porque dói, porque ainda pesa.

Estou trabalhando muito, me preparando para novos projetos, mantendo a mente ocupada para não enlouquecer. A Juliana me procurou, e eu fui claro: se ela se aproximasse de mim de novo, eu ia até a polícia. Estou cansado. Cansado dela, cansado de tudo, cansado dessa bagunça que virou minha vida. Ela entendeu e finalmente me deixou em paz.

Peguei pesado nos treinos nesse último mês. Fui a Portugal duas vezes, resolver coisas do trabalho, ver meu pai, respirar outros ares. Levei o José em uma delas, e foi bom ver ele feliz, foi bom me sentir útil pra alguém.

Eu consigo sair, me divertir, sorrir de vez em quando. As pessoas olham pra mim e acham que eu estou bem, que eu estou seguindo em frente, que está tudo certo. Mas dentro, ainda pesa. Ainda tem uma angústia que me acompanha todos os dias, aquela saudade que não tem pra onde correr, aquela dor que não vira palavra, só fica ali, me lembrando que ela existiu, que ela foi real, que ela ainda está aqui dentro de mim.

Mas eu sigo.
Um dia de cada vez.
Do jeito que dá.

Domingo

Cheguei em casa tem duas horas, passei o dia com meu menino, já tomei banho e agora estou assistindo a Vingadores pra passar o tempo. Já passa das 22h quando meu celular toca. Pego e, quando vejo o nome do Padilha na tela, atendo rápido, preocupado:

– Padilha?

– Paulo, desculpa te ligar essa hora, mas precisamos de você, cara! – ele fala tenso.

Eu me levanto num pulo, o coração disparando, já indo pro quarto vestir uma roupa, imaginando o pior.

– O que aconteceu? O que ela tem? – pergunto, a voz saindo falhada de tão assustado.

– Depois do meu aniversário, ela ficou mal, mas de uns 30 dias pra cá tudo piorou. No outro fim de semana depois da festa, ela começou a beber o dia todo, voltou a fumar, não come direito, e não tem quem tire ela do quarto. Cancelamos a festa de aniversário dela, os filhos estão todos aqui, mas ninguém consegue trazer ela de volta. Ela já se afogou duas vezes na banheira porque bebeu demais e não conseguiu levantar, e eu cheguei a tempo. Você é nossa última salvação ou ela vai acabar se matando, Paulo.

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