Capítulo 13

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Boa leitura

Gloria

Os dias foram passando e, naquela quarta-feira, resolvi entrar em contato com ele pelo direct. A conversa foi mais fácil e leve do que imaginei, e depois daquele dia passamos a conversar sempre. As reuniões foram acontecendo, e a gente foi se aproximando mais e mais, voltando com aquela amizade gostosa... Mas falta algo. Falta aquela chama que eu sinto que ele está tentando apagar ou, pelo menos, não deixar se espalhar.

Já faz quase dois meses que participo das reuniões, e realmente estou gostando. Tem me feito bem. Nosso fã-clube descobriu que eu e ele estamos fazendo terapia grupal juntos e foi à loucura. Não sei como, mas elas sempre percebem quando algo diferente acontece. Às vezes, acho que sabem mais de mim do que eu mesma.

Orlando voltou de viagem e, com ele, voltou também a rotina de sempre: não se importar muito. Estamos bem, mas vivemos como amigos. E eu estou há tempos sem sexo. Treinar e tomar produtos naturais para ter energia sem gastá-la transando está me deixando doida de tesão, e isso só piora quando encontro o Paulo. Meu marido não me procura mais, e eu também não quero ele, mas seguimos casados e, para todos, parecemos apaixonados como há 35 anos e o pior? Nenhum dos dois faz nada para mudar isso.

Chega mais um dia de terapia e estou aqui, de calça branca, blusinha colada marrom, rasteirinha e óculos. Ele está de calça jeans, camisa branca e tênis, bem casual. A reunião, como sempre, é ótima, mas dessa vez ficamos mais tempo conversando. Já são 20h30, e estamos eu, Paulo, Ana e mais quatro pessoas. Só ele de homem no meio da gente. Ele está sentado à minha frente, em uma mesa, enquanto eu me encosto em outra.

E é ali que eu vejo.

Ele volta a me olhar do jeito que olhava antes de tudo acontecer com ternura, com desejo e isso começa a me desestabilizar.

Uma das meninas comenta que está gravando e, não sei bem como, mas acho que pegou algum olhar nosso. Damos tchau para a câmera e continuamos conversando, até que, em um descuido, acabo torcendo o pé.

— Aiii! Meu pé! — grito, me segurando na mesa.

Todos me olham preocupados, mas Paulo é o primeiro a agir. Num piscar de olhos, já está segurando meu braço.

— O que foi? O que aconteceu? Se apoia em mim! — ele diz, a voz carregada de preocupação.

— Pisei de mal jeito e torci o pé... — respondo, sentindo a dor pulsar.

Vejo a preocupação nos olhos dele. Não é qualquer preocupação. É de homem para mulher daquele jeito que eu não via há muito tempo.

— Consegue pisar no chão?

Tento, mas não consigo.

— Não...

— Tudo bem. Segura em mim.

Antes que eu perceba, ele me pega no colo.

— Paulo, leva ela na enfermaria. Fica no andar de cima. Quer que eu vá com vocês? — Ana pergunta, enquanto algumas pessoas se aproximam.

— Não precisa, Ana. Faz companhia para o pessoal, eu levo ela sem problemas.

— Tudo bem.

Todos me desejam melhoras enquanto ele me carrega escada acima. No caminho, me aninho contra o peito dele. Sinto o cheiro, a proximidade... Meu nariz roça seu pescoço sem querer. Sua pele se arrepia.

E então, sem conseguir me conter, sussurro:

— Meu Deus... Que saudade de você.

Paulo

Antes de ir para a reunião, tive uma discussão boba com a Juliana. Estamos bem há algumas semanas, mas, de vez em quando, acabamos nos desentendendo. Nada demais. Pelo menos, nada que nos faça voltar ao caos de antes.

O que ela não sabe... é que eu mantenho contato com a Gloria. Pelo direct. Na terapia. Nas entrelinhas de tudo que a gente fala.

Estou tentando me segurar, fazer as coisas darem certo, não cair na tentação que é essa mulher. Mas não está adiantando. Desde que voltamos a nos falar, meu desejo por ela dobrou. Quase chamei seu nome enquanto transava com a Juliana dias atrás. Se tivesse escapado, eu não sei o que teria acontecido.

E aí eu chego na terapia e dou de cara com ela.

Calça branca.

Aquela maldita calça branca.

E ali eu sei que estou fodido.

A peça molda cada curva dela como se tivesse sido feita sob medida. E ela está radiante hoje. Sorriso lindo. Falante. Viva. Eu tento focar na conversa com os outros, mas não consigo. Estou encarando essa mulher como um maldito lobo, devorando com os olhos. E aí, para piorar, ela se encosta na mesa, e a posição faz sua bunda parecer ainda maior, pressionada de baixo para cima.

E eu estou hipnotizado.

Até que ela grita.

O som me traz de volta. Ela torce o pé e se machuca. Minha reação é imediata. Num instante, já estou segurando seu corpo e a levando até a enfermaria.

E então ela faz algo que eu não esperava.

Algo que me destrói por completo.

Ali, no meu colo, se aninha contra mim. Roça o nariz no meu pescoço. Sente meu cheiro, se aproxima devagar, como quem já sabe o estrago que está fazendo.

E sussurra:

— Meu Deus... Que saudade de você.

E ali eu vejo.

Eu já era.

[...]

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