08 - H i !

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Eu fui andando para a escola, na tentativa fajuta de a ver no meu trajeto.
Mas não vi nenhum cabelo de algodão doce pelo caminho.
Eu tinha que parar de pensar que o cabelo dela era algodão doce. Não era um um elogio conveniente. Não, não, não. Aquilo nem era nem um elogio.
Considerei ficar esperando ela no portão, mas aí, eu parei pra pensar que isso denunciaria o quão nervoso eu estava para a ver naquela manhã Agostina.
Então eu resolvi seguir para o pátio como todo mundo e ficar num lugar de fácil acesso à visão.
Já estavam dando quase sete horas e nada dela. Eu tinha que subir ás sete e dez.
Acabou que deu sete e dez e ela não chegou. E eu nem tinha aula com ela aquele dia.
Eu fiquei um pouquinho decepcionado e fui pra sala de literatura.
Haviam poucos lugares sobrando, então eu simplesmente fui para o fundo da sala e peguei meu material.
Tentei prestar atenção ao que o professor falava; de fato, eu tentei, mas a minha cabeça... Ela só não me obedecia.
Ela ficava voltando à Lisa.
E toda vez que alguém batia na porta, eu tinha a ridícula impressão de que seria ela, vindo se desculpar pelo atraso.
Por que ela se importaria de se desculpar? Não fazia muito sentido. Talvez na minha cabeça boba fizesse.
Então afundei na tarefa e decidi me concentrar de verdade.
- Ei, Victor. - ergui a cabeça para a garota que não era aquela de cabelos rosa.
- Oi?
- Vai ter uma festa na minha casa. No próximo sábado... - era Sophia e ela falava com uns trejeitos de garotinha delicada. - E todo mundo vai estar lá. Eu gostaria que você fosse também.
- Eu não gosto muito de festas. - em outras palavras, "eu não gosto muito de gente". - Então não vou te dar certeza.
- Tudo bem. - ela pareceu um tanto desapontada. - Mas aqui esta meu endereço, caso queira ir.
- Obrigado. - peguei o papel e guardei no bolso da camisa.
Ela sorriu e voltou para sua carteira.
Lisa não apareceu.

Eu estava virando a esquina para pegar o sentido de casa, quando ouvi algo.
- Ei, ei! - olhei pra trás. Algo rosa corria atrás de mim. - Caramba, você anda rápido. - ela disse me alcançando. - Oi. - ela esbanjou um grande sorriso.
Eu quis a cumprimentar direito, mas tudo que saiu foi:
- Seu cabelo realmente parece algodão doce.
E mais uma vez, ela corou.
- Eu queria me desculpar com você. Mas é que eu cheguei atrasada na escola e eu também não esbarrei com você pelo colégio...
Ela começou a falar zilhões de coisas. Sério, ela começou a falar muito e eu comecei a perder a linha de concentração, então eu só deixei ela falar e fingi estar realmente interessado. O que não era necessariamente uma mentira. Eu estava interessado. Nas partículas sobre ela. Em qualquer partícula sobre ela. Tipo, o jeito como a boca dela era e o formato que a mesma adquiria quando ela dizia cada palavra.
- ...então tudo bem? - eu comecei a assentir freneticamente, sem nem saber com o que estava concordando.
- Sem problemas.
- Ah que ótimo; achei que você ficaria zangado, mas é que eu não lido muito bem com horários. - ela pareceu desajeitada. - Então, você trouxe o mangá, não trouxe? Eu esperei por isso à noite inteira.
Eu também.
Tirei o mangá da bolsa e a entreguei, enquanto andavamos.
- Meu Deus, é muito bonito! - ela abraçou o livreto com o maior carinho do mundo. - Te devolvo na sexta.
- Mas hoje é quinta...
- Não importa. Eu devolvo na sexta. - eu apenas assenti.
- Posso perguntar uma coisa?
- Tecnicamente você já está perguntando. - ela cemicerrou os olhos e me senti incolor. - Eu estou brincando, pode sim.
- Por que resolveu pintar o cabelo de rosa? - eu apontei num gesto abstrato.
- Eu e minha mãe fizemos uma aposta. Se ela ganhasse, eu tentaria ir para uma festa e se eu ganhasse, eu poderia pintar meu cabelo quando fizesse 14 anos.
" Eu ganhei."
- Por que se sua mãe ganhasse você iria para uma festa?
- É que eu não gosto de ambientes com muita gente. - ela deu de ombros.
- Ah, eu também não gosto de pessoas. - ela sorriu. - E quantos anos você tem?
- Quatorze e você?
- Dezesseis. - ela assentiu. - Qual foi a aposta? - fiquei curioso.
- Apostamos sobre eu conseguir ou não comer cinco pedaços de pizza sem passar mal.
- Meu Deus, como você... Como você conseguiu? Eu só consigo três. - eu fiz com os dedos.
- É um truque meu.
- Você poderia me ensinar...
- Se você me chamar pra sair um dia... - ela girou os olhos, como se estivesse se fazendo de desentendida. - Bom, eu tenho que entrar. Tchau, Victor. - ela acenou e entrou.
Tchau Lisa.

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