Era mais um dia na escola. Que seria comum, se ela não tivesse ali. Mas nenhuma molécula do universo, poderia ser considerada comum, se ela estava presente num ambiente.
Ela estava contando algo sobre sonhos, e eu prestava mais atenção na importância que ela dava para isso, do que na aula de história.
Eu adorava perceber como as linhas faciais dela; eram bem marcadas e se destacavam quando ela esquecia do seu sotaque naturalista paulistano.
As vezes ela parecia um pouco doida; ela forçava um sotaque gaúcho e era bem engraçado, na verdade.
- Lisa, por que eu nunca te vejo no intervalo?
Ela avaliou a folha de papel em que escrevia com uma letra meio borrada.
Ela era linda, mas tinha uma letra de mão terrível.
- Não sou como as outras pessoas. - ela deu de ombros. - Quando digo que não gosto de pessoas, eu realmente falo sério. - ela não pareceu normal no assunto, então eu fiquei quieto.
Não queria a fazer a sentir mal.
- As vezes, eu fico muito nervosa por umas coisas que aconteceram quando eu era mais nova. - ela cutucava as unhas, de modo, desentendido. - Então, eu passo o intervalo sozinha na secretária, porque não me sinto confortável na multidão.
- Ah. - foi tudo o que cogitei dizer. - Sinto muito.
- Está tudo bem agora. - ela não encarava meus olhos. - Antigamente era bem pior.
Nesse momento o diretor entrou na sala com ar importante:
- Bom dia, Alunos.
- Bom dia. - Lisa foi umas das poucas que ergueram a voz para responder.
- Estou aqui para notificar um passeio que iremos fazer no dia dez desse mês. - ele pigarreou e abordou um papel azul em suas mãos. - É um acampamento educativo no horto florestal de Campos do Jordão.
"Se estiverem interessados, paguem uma taxa de cinquenta reais; e logo. Só temos trinta vagas
"Boa aula, crianças".
Ele tinha aquela mania, de nos chamar de criança; eu tentava entender. Seria isso porque ele não via competência de maturidade na gente?
- Você vai, não vai? - ela me tirou da minha análise.
- Não sei. Você quer ir?
- Já que você está me convidando, eu vou sim. - ela sorriu e se voltou ao caderno.Eu estava saindo da sala de inglês em direção ao pátio, quando algo me puxou.
Fechei os olhos apertadamente e os abri, mas tive uma visão agradável da garota que gostava de bolhas de sabão.
- Hey!
- Oi, Algodão Doce. - e como todas as outras vezes, ela sorriu e corou.
- Será que... Você gostaria de passar o intervalo comigo?
Abri a boca num gesto surpreso, mas não me permitir analisar nada, como eu sempre fazia.
- Sem dúvida. - ela agarrou minha mão e saiu correndo dentre a multidão.
Nós entramos numa das salas que ficavam na secretária e ela foi a primeira a se sentar numa das cadeiras que contornavam a grande sala de reuniões.
- Você pode se sentar se quiser. - e eu o fiz.
Me sentei do seu lado, enquanto a observava tirar de um potinho azul, um sanduíche.
- Cadê seu lanche?
- Ah, eu não tenho.
- Toma. - ela partiu seu sanduíche e me deu metade. - Pode ficar com o meu. - eu aceitei, enquanto ela esbanjava um sorriso despercebido.
O único som que preenchia o ambiente era o das nossas mordidas e mastigadas, quando ela subitamente o cortou:
- Já foi a um psicólogo?
- Já. - mordi o sanduíche tentando me esquivar, mas eu sabia que ela era curiosa demais para parar por ali. - Quando aconteceu um acidente de carro.
- Um acidente ? - os olhos dela ficaram grandes e pontuais.
- Não gosto muito de falar sobre. - ela assentiu e abaixou a cabeça rosa.
Seus cabelos lisos esconderam como ela realmente se sentia.
- Tudo bem. Eu também não me sinto a vontade para falar sobre o que o doutor Jeferson chama de "distúrbios de Lisa".
O lanche passou a ser um pouco desconfortável a partir dali. Nós não nos encaramos mais, e ela parecia se sentir queimada, quando eu a flagrava me olhado.
Me perguntei se havia sido áspero demais; era só que eu não conseguia interagir sobre aquele assunto. Era pesado demais para mim. Doía.
Mas eu fiquei feliz. Com lampejos de fogos de artifícios em algum réveillon chinês.
Ela tinha me chamado para lanchar com ela.
E ela mal gostava de pessoas.
Pensei no que aquilo significava e se eu deveria dizer mais alguma coisa, enquanto o ventilador batia no cabelo dela, levemente o levantando.
Ela me fazia bem, até quando eu sentia doer e talvez algo tivesse se precipitado no meu peito, ainda mais por isso.
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U m a P r i m a ve r a Q u a l q u e r
Romance"Eu só queria uma resposta. A resposta do que é o amor. Eu queria encontrar uma definição num livro, na internet, mas a única definiçao que eu podia encontrar, era em mim mesmo e aquilo me dava medo, porque... E se eu nunca encontrasse?" - Victor...