Eu sentia que eu precisava contar para alguém o que eu acabara de ver, por isso eu estava em total estado de silêncio no carro, com a garganta quase fechando e de olhos simultaneamente arregalados.
- Filho, você está bem? - mamãe notou, mas tudo o que eu consegui fazer foi assentir.
Sem dúvida a primeira pessoa a quem eu contaria aquilo, seria Lisa. Mas esse era o problema. Eu não queria a magoar.
Como eu diria que sua preocupação imediata se tornara algo real? E que eu acabara de testemunhar isso.
Pensei no que fazer.
Eu deveria...
Deveria...
Ah, eu não fazia a mínima noção do que fazer.- AHHHHHHHHHHHHHHHHH! - foi a primeira coisa que fiz depois que chegar em casa e me assegurar de que só havíamos eu e minha mãe lá.
- Oxê Victor, tá passando mal, é? - minha mãe se teleportou para a porta do meu quarto.
- Mãe! Mamãe, preciso falar com você! - eu entendi que ela era meu milagre e agradeci a Deus um milhão de vezes mentalmente.
- Victor, o que você fez? - ela perguntou com a respiração bem entrecortada, pronunciando palavra por palavra.
- Eu vi a namorada do tio da Lisa beijando outro cara na porta do banheiro masculino e agora não sei o que fazer. - quase morri de falta de ar, mas eu simplesmente precisava liberar aquilo de dentro de mim.
- Eita. - mamãe levou a mão ao nariz e eu sabia que quando ela fazia aquilo, era sinal, sem margem de erro nenhuma, que a situação estava crítica.
- O que eu faço, mãe?
- Você... Não faz nada. - ela me olhou, esperando que eu pegasse a mensagem.
Mas eu não peguei e fiquei a encarando por meio segundo, antes dela continuar o raciocínio.
- Você não tem nada a ver com isso. - ela disse. - Você ter presenciado foi uma infeliz coincidência.
- Mas eu não deveria contar para a Lisa ou para o tio dela?
- Não. Você não deve se meter nas coisas dos outros, Victor. - ela adquiriu o tom mundial de advertência das mães, enquanto simbolizava com seu indicador agudo.
- Tudo bem.- A sua mãe tá coberta de razão. - dizia Sebastian tomando seu suco de laranja num canudo preto. - Isso não é problema seu.
- Mas a Lisa não vai ficar magoada se descobrir?
- Magoada vai. Mas isso não é assunto seu. - ele deu de ombros, como usualmente fazia.
Eu fiquei pensando sobre os fatos.
Eu não era bom com mentiras. Algumas pessoas diriam que é omissão e é diferente, e de fato, se você não perguntasse, eu não precisava falar, mas eu só não sabia como a minha consciência ia ficar.
- Victor, tire isso da cabeça; você não está fazendo mal para ninguém.
Eu assenti.
- Oi. - era Sophia.
- Oi, Sophia.
- E aí?
- Eu tenho um convite para vocês. - ela disse de forma meio tímida, me entregando dois convites e mais um para o Sebastian.
- O que é isso? - ele olhou o papel verde com seu nome.
- É a festa de férias. É na terceira semana de dezembro.
- Eu não vou. Obrigado pelo convite. - Sebastian estendeu o convite para ela.
A garota o pegou, e percebi que seu sorriso foi para bem longe dali; ele só saiu andando.
- Ei Sophia, você está bem? - eu toquei seu ombro.
- Estou. - ela se abaixou para pegar o convite que havia caído e eu consegui perceber seu gesto quase imperceptível de limpar o olho.
- Ei, Sebastian é assim mesmo. - eu tentei consertar as coisas. - Eu nunca o vi em uma festa.
- A culpa é toda minha. Ele não gosta de mim, ele...
- Ei, está tudo bem. - ela começou a chorar e eu entrei em pânico.
Eu quis gritar até todo aquele terror sair dos meus pulmões. Eu sentia minha síndrome do pânico acordar.
- Por favor, para de chorar. - eu disse num tom delicado, segurando meu próprio braço. - Por favor, Sophia. - eu estava quase começando a chorar junto com ela.
Então eu avancei e a abracei.
Eu só queria que ela parasse, porque aquilo havia me causado tremendo desespero.
- Por que você está me abraçando? - ela ergueu a cabeça, já que eu era pouco mais alto que ela.
- Porque eu realmente quero que você pare de chorar.
De verdade, ver pessoas chorando me dava agonia. E também ativava minha síndrome do pânico e eu sentia minha garganta começar a fechar:
- Por favor.
- Você não deveria me abraçar; sua namorada....
Sophia olhou para o lado e eu fiquei com medo.
Ela estava lá. Bem do meu lado. Com uma calça jeans e uma camiseta branca manchada de tinta.
Ela olhava para a cena, enquanto segurava seus cadernos. Eu apostava meus cinco reais que ela os estava apertando, pelo jeito vermelho que suas bochechas começaram a ficar...
- Lisa? - eu a soltei e sai correndo atrás dela.
Ela correu para longe, como numa primeira vez.
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U m a P r i m a ve r a Q u a l q u e r
Romance"Eu só queria uma resposta. A resposta do que é o amor. Eu queria encontrar uma definição num livro, na internet, mas a única definiçao que eu podia encontrar, era em mim mesmo e aquilo me dava medo, porque... E se eu nunca encontrasse?" - Victor...