- Eu posso sentar? - ele perguntou, indicando o banco na minha frente.
- Claro. - eu terminava de comer meu lanche.
Sebastian se sentou e manteu os olhos baixos; como se não quisesse um contato explícito.
- Sebastian, - eu considerei se o perguntava aquilo ou não. - Por que você foi tão gentil comigo aquele dia? - mas eu fui impulsionado, eu só não sabia exatamente pelo quê.
- Olha Victor, eu acho que nós comecamos bem errado. - ele cruzou os dedos magros e calejados e me encarou. - Eu não falo com muita gente por aqui, mas... Eu gosto de você.
- Quê? - meu cerebro titubeava sobre a questão. - Como assim?
- Eu não tenho muitos amigos, e os que tenho, já saíram da escola. Eu tenho 18 e estou no segundo ano. - ele deu de ombros e esticou as pernas longas no banco. - Você é meio inocente, não sei o que há sobre você. Mas parece um cara legal.
- Ah, obrigado. - eu não sabia o que dizer. - Você também.
- Nem de longe sou um cara legal. - ele deu um quase sorriso. - Eu era como você.
- Como assim? - eu não entendi.
- Até meu pai morrer. - senti meu sangue dilatar lentamente, como se estivesse sendo drenado para fora do meu corpo. - E daí, sou assim hoje. Enfim... - ele se levantou e ia sair andando.
- Sebastian. - mas ele parou e prestou atenção. - O que houve com seu pai?
Eu não sabia donde vinha aquele interesse, mas era como se houvesse magnetismo e os assuntos se conturbassem.
Era como se houvesse uma conexão.
- Não é uma história agradável. Eu não gosto de falar. - ele enfiou as mãos nos bolsos.
- Eu também perdi meu pai. - foi a primeira vez naquele dia, que os olhos pretos dele finalmente se ergueram.
Sebastian olhou para o nada e daí se voltou para mim.
Ele se sentou de novo e foi só aí que percebi o palitinho de madeira que brincava em sua boca.
- Foi um acidente de carro.
Era uma mínima frase, mas ainda sim com um poder rebelador, que me fazia querer encolher e chorar.
- Meu pai foi assassinado. Na minha frente. - ele fez um numero com os dedos magros e apáticos. - Eu tinha treze anos.
- Eu sinto muito. - e eu realmente senti.
Eu sabia bem como eram as noites sem dormir, por algo que você não entendia bem como tinha acontecido.
Eu sabia bem como era chorar no chuveiro por alguns minutos, até sentir como se os seus olhos estivessem inflamando de tanto que ardiam.
Eu lembrava bem dos pesadelos.
Dos gritos abafados pelos travesseiros.
Lembrava dos soluços do meu choro impermeável e eu sabia que tudo aquilo voltaria se eu me permitisse divagar por aquilo por mais tempo do que eu deveria, então eu parei de prestar atenção naquilo e olhei para fora do pátio, onde as gotinhas de orvalho ameaçavam pingar e se auto destruir no chão.
- Vocês eram próximos? - de repente, ele me trouxe de volta a um presente que eu simplesmente não quis.
Eu relutei contra a vontade de voltar a minha caverna de sons isolados.
- U-hum. - eu apenas assenti.
- Eu e meu pai não eramos exatamente o que eu chamaria de próximos. - ele considerou, tirando o palito da boca e sorrindo. Um sorriso tragicamente doce; como se lembrasse de algo primordialmente turbulento, mas que pela simples lembrança o recordasse do arco íris que um dia poderia ter existido.
- Mas eu sinto muito a falta dele. - ele abaixou a cabeça e eu quase pude ouvir os ruídos da sua respiração. - Eu fui bem ruim como filho, tanto pra ele quanto para a minha mãe.
- Você vive com ela?
- Não. - seus cabelos encobriram seu rosto cada vez em êxtases mais pálidas. - Ela se matou dois meses depois. Eu vivo sozinho.
"E ela ainda disse que ele morrer, era minha culpa".
Eu não conhecera a mãe dele, muito menos sua história, mas para mim foi cruel demais que alguém pudesse culpar uma criança de tal forma.
- Eu queria ter sido um bom filho...
A sirene tocou, num som atordoante para os tímpanos e ele ergueu o rosto, enquanto as pessoas passavam por nós, como fantasmas.
Enquanto ele falava, era como se nada importasse.
- Queria ter pedido desculpa por tudo o que eu fiz...
Ele ergueu a cabeça para cima, enquanto as lágrimas fluíam.
- Escuta Sebastian, você ainda pode se desculpar...
- Como? - ele me olhou, como se realmente esperasse uma resposta minha; como se o que eu fosse dizer, realmente pudesse representar alguma esperança para ele.
Eu me senti mal. Um pouco pressionado e inseguro, dele depositar tanta confiança em mim, se nem eu mesmo o fazia.
- Eu acho... Eu acho que você pode falar com ele. Antes de dormir, sabe? - eu me senti inumeramente bobo por contar aquilo; mais do que quando chamei a Lisa de Algodão Doce pela primeira vez. - Eu costumo fazer isso com meu pai.
- Então... Eu posso... Posso pedir desculpas?
- Sim.
Eu fiquei um pouquinho feliz por ele não me achar bobo por aquilo, então nesse segmento, resolvi acrescentar:
- Na verdade, você pode falar sobre o que quiser com ele. Ele esta te ouvindo.
Ele assentiu.
- Bom, acho que a gente precisa ir. - ele apontou os portões do pátio e eu apenas assenti.Lisa não tinha ido para a escola aquele dia, pois estava acompanhando a mãe no médico, então eu estava com meus fones de ouvido, preparado para o meu curto percurso para a casa.
- Ei, Victor - soou como um zumbido na multidão de decibéis, mas puxei os fones e prestei atenção ao redor, até localizar um rosto.
- Oi.
- Oi. - era Sebastian. - Bom, eu acho que eu deveria agradecer. - ele afundou as mãos nos bolsos da jaqueta marrom, como se sentisse deslocado.
- Pelo que, exatamente?
- Eu nunca contei pra ninguém, sobre meu pai. - seu rosto nunca esteve tão sereno; mas tinha algo bom. Algo bonito. Como serenidade. Como... Como... Paz.
- Tudo bem. - eu assenti e ele saiu andando.
Eu também sai. Estávamos indo em caminhos opostos, até que eu percebi que aquele não era o jeito certo de terminar as coisas.
- Ei, Sebastian! - eu me virei e voltei correndo. - Espera. - consegui o alcançar.
O rosto dele era uma pergunta cadente.
- Sebastian, você disse... - eu suspirei e respirei fundo. - Que não tem muitos amigos, então eu... Eu pensei... - respirei fundo de novo. - Pensei que, nós poderíamos ser amigos.
Sebastian deu um sorriso. Um genuíno sorriso.
- Eu já te considerava um amigo, desde o dia em que você me desculpou. - ele se virou de novo para o seu caminho. - Foi quando eu percebi que seu coração era bom.
Eu abri a boca, mas a fechei. Como Lisa costumava fazer quando impressionada.
Eu tinha... Um bom coração ?
Então ele saiu andando:
- Até mais, Victor.
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U m a P r i m a ve r a Q u a l q u e r
Romantizm"Eu só queria uma resposta. A resposta do que é o amor. Eu queria encontrar uma definição num livro, na internet, mas a única definiçao que eu podia encontrar, era em mim mesmo e aquilo me dava medo, porque... E se eu nunca encontrasse?" - Victor...