Eu encarei seus olhos por um segundo perpétuo.
Num impulso rápido, eu beijei sua bochecha e aí ela gargalhou bem alto. Para que as nuvens chovessem em resposta.
- Você quer ir... Jantar na minha casa? Com a minha mãe? - a face dela tomou um susto comportado.
- Eu só vou trocar de roupa. Me espera. - ela saiu correndo para seu quarto e voltou em menos de três minutos.
Ela trocou o moletom por uma blusa simples e uma saia xadrez, com sapatilhas comuns.
- Estou pronta. - ela deu um grande sorriso, descompassado.
- Será que eu posso fazer uma coisa? - perguntei, num ímpeto de felicidade.
- Claro.
Eu avancei até ela, e puxei o palito rosa que segurava seu cabelo, que se libertou alegre e se espalhou intocado pelos seus ombros.
Sua raiz perfeitamente dividida, parecia nunca se desarrumar.
- Vamos? - ela perguntou e tudo o que eu pude fazer, foi a oferecer meu braço, o qual ela engachou o seu próprio, e nós descemos as escadas.- O Victor falou bastante de você, Lisa. - mamãe fez questão de comentar. Pela terceira vez. Só que de outro modo. - Fico feliz de saber que você é tão agradável quanto ele disse.
- Ah, obrigada senhorita Winters. - ela deu um dos seus sorrisos contidos. - O Victor me disse, que a senhora trabalha no shopping...
E assim começou um papo paralelo entre as duas e eu escolhi não me meter.
Invés disso, apenas observei as duas. O jeito como a boca de Lisa mexia; o jeito que a mamãe se empolgava para falar; e eu notei que ambas pareciam contentes.
Até o jeito que elas mastigavam parecia feliz.
E eu sorri. Porque eu também estava feliz. Porque ali estavam presentes as únicas duas pessoas que me faziam sorrir, só por respirarem.
Mamãe estava produzida como se estivesse num jantar de galã e eu quis rir um pouco por isso.
Ela estava com seu vestido creme, que as vezes brilhava; e sapatos altos, pretos (que eram sem a menor precisão; ela já era alta). Seu cabelo liso estava solto, na altura de seu pescoço e batido em sua clareza de castanho claro, para o lado; como sempre ficava. Ela usava uma suave maquiagem marrom, que circundava seus olhos castanhos e realçava sua pele morena e seus traços ainda joviais.
E no pescoço, um colar de sodalita, que eu sabia que ela adorava.
O papai a dera aquilo, quando eles começaram a namorar e ela só usava aquilo uma vez por ano.
Era algo extremamente nostálgico. Mas extremamente doloroso, eu sabia. Mas aquele dia, as cores que vi no seu rosto, não foram frias.
- Lisa, você tem que me perdoar, mas eu não tenho sorvete de cereja. - mamãe disse e na hora, senti os olhos de Lisa me procurarem.
Ai.
- Sorvete de cereja? - a vozinha dela entoou curiosa e divertida.
- Sim. - eu sabia que mamãe estava sorrindo, daquele jeito astucioso, mas que desconhecidos podiam achar que era apenas um sorrido mundano. - O Victor disse que você adora.
E se não era óbvio que eu não parava de pensar e falar nela, naquele momento, estava totalmente exposto.
Mas ela sorriu.
Era inacreditável o que ela fazia comigo quando sorria.
- Victor, já te contou sobre os desenhos?
- Que desenhos?
- Os que ele faz? - mamãe cutucou e quando Lisa virou o olhar para ela, eu simplesmente fiz sinal de negação desesperada.
Eu não contara para ela sobre meus desenhos, porque eu não os achava bons o suficiente para ela ver. Nem interessantes.
- Na verdade, ele não me contou. - ela cemicerrou os olhos e eu tive muito medo dela me bater com a folha de alface restante no seu prato.
- Então suba lá e veja. - mamãe se levantou da mesa. - Victor, mostre á ela.
- A senhora não quer ajuda com a louça, senhora Winters?
- Qual a precisão de tanta formalidade, Querida? - mamãe soltou uma risada espontânea. - Me chame só de Nina.
- Tudo bem. - ela pareceu pensativa. - Quer ajuda com a louça, Nina? - ela pareceu não se adaptar á própria fala.
- Não, tudo bem. Eu dou conta. - ela piscou para nós dois e se virou para à pia.
Nós nos dirigimos às escadas e quando chegamos no meu quarto, ela me deu um leve empurrão com os ombros.
- Por que não me contou?
- Não me pareceu importante. Desculpe. - minha voz estava encolhida como um animal em extinção.
- Por que não seria importante? - ela sentou na minha cama e deitou, encarando o teto, como uma vez fizera no seu próprio quarto.
Ela parecia bem á vontade.
- Eles não parecem bons.
- Será que você pode me mostrar algum? - ela se sentou de novo, fazendo o pedido de forma fofa.
Eu fui até minha escrivaninha e folheei meus rabiscos.
Eu queria que ela achasse interessante. Mas não havia algo legal.
Quando eu finalmente me voltei com uma folha de sulfite, contemplei ela sentada com as pernas em forma de borboleta, com as meias claras até seus joelhos.
- Por que tirou os sapatos?
- Porque eu sou uma pessoa melhor, descalça. - eu sorri e a entreguei o desenho.
Era uma raposinha de boquinha aberta, olhando para cima.
Ela encarou aquilo e sua boca foi se abrindo aos pouquinho, formando um "O" e eu quis saber desesperadamente se aquilo era bom ou ruim.
- O que você achou?
Ela ne olhou e se voltou para o desenho.
Então ela levantou num ato impulsivo, e girou com o desenho estendido nas mãos, enquanto gargalhava.
- É a raposinha mais fofa que já vi. - ela fechou os olhinhos num sorriso mútuo. - Obrigada, pelo presente.
- Presente?
- É. Obrigada por perguntar se eu queria ficar com ele. - ela abraçou o desenho, como se a raposinha fosse real. - Eu adorei.
- Tudo bem.
Os olhos dela tinham um brilho tão intenso quanto as estrelas lá fora.
E naquele momento breve, eu soube uma coisa: eu estava apaixonado por Lisa Sandle.
- Já são oito horas, eu preciso ir. - ela disse, colocando os sapatos de volta. - Eu não me importaria se...
- Eu posso te levar em casa? - ela sorriu, como se eu advinhasse.
- Você deve na verdade. - eu também sorri.
Eu sorri muito.
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U m a P r i m a ve r a Q u a l q u e r
Romance"Eu só queria uma resposta. A resposta do que é o amor. Eu queria encontrar uma definição num livro, na internet, mas a única definiçao que eu podia encontrar, era em mim mesmo e aquilo me dava medo, porque... E se eu nunca encontrasse?" - Victor...