Lisa estava me ajudando a preparar camarões ao molho branco para o jantar daquela noite.
- Você gosta de cozinhar, Algodão Doce? - eu perguntei enquanto limpava os camarões.
- Não muito. - ela deu de ombros. - Quando nos casarmos, você pode cozinhar?
Eu fiquei queito.
Casar?
Como assim casar?
Casar tipo como a mamãe e o papai tinham feito?
Eu não entendi porque ela estava falando em casamento se eu não tinha nem certeza do que o amor era.
Eu não queria pensar em casamento agora, eu só tinha dezesseis anos.
- U-hum. - emiti um som afirmativo, porque eu sabia da explosão que aquilo poderia causar.
Ela soltou um sorrisinho e atirou os braços nos meus ombros, para encontrar meus lábios num beijinho rápido.
- Os pombinhos já limparam os camarões?
- Sim, mamãe. - ela assentiu.
- Vamos para o molho então. - mamãe se apoderou de um terceiro avental e começou a andar pela cozinha, vasculhando cada perímetro para achar os seus ingredientes.- Como está seu pescoço? - ela me perguntou e eu puxei a gola da camisa para ela ver.
- Tá melhorando; Sebastian me ensinou umas coisas. - já faziam uns seis dias, desde o incidente.
- Que bom. - ela aninhou o rosto na curvatura do meu pescoço. - Tudo bem se eu dormir por aqui essa noite?
- Eu não sei...
- Por quê? Você não quer que eu durma aqui? - ela apoiou as mãos no meu peito e me olhou com seus olhinhos.
- Não, não é isso. É por causa dos seus pais. Eu não sei se eles vão gostar da idéia. - ela assentiu.
- É verdade, eu não tinha parado pra pensar nisso. - ela abaixou a cabeça. - Posso ficar até as oito, então?
- Você sempre pode. - eu acarinhei sua bochecha e pousei meus olhos sobre os dela.
Meu Deus do céu, não era possível que eu tenha me esquecido de como ela era linda, com seus traços e suas sardas.
Eu fiquei admirando ela, como se ela fosse uma estrelinha ou até mesmo a própria Lua.
- Você é tão bonita, Lisa. - mas naquela noite, aquela frase soou muito diferente das outras vezes, e eu não soube dizer se aquela intensidade toda acabaria bem.
Eu estava a olhando e tudo o que eu fazia era pedir silenciosamente para Deus para que ela não quebrasse o meu coração, porque eu gostava demais dela.
Mas eu sabia, inconscientemente e bem no fundo de mim, que Deus não tinha como interferir naquilo. Era uma jogada na sorte e eu estava apostando todas as minhas fichas.
- Eu gosto tanto de você. - eu continuei acariciando seu rosto, num ímpeto de carinho.
- Eu amo você, Victor. - os olhos dela vidraram nos meus e eu não tive nem tempo de entrar em desespero, pois os lábios dela vieram de encontro para os meus.
O mal súbito foi sumindo lentamente do meu campo de processamento, porque os lábios dela tomaram cada vez mais os meus e eu só... Me distrai.
Ela envolveu meu rosto tão bem com as mãos, que eu me senti envolvido por nuvens. E então Lisa desceu seus lábios para meu pescoço ainda manchado, mesmo que pouco.
E eu esqueci do aviso de Sebastian; esqueci das minhas pendências; esqueci que não queria fazer aquilo agora, e esqueci também sobre o amor, porque ela me fez sentir além do que a estratosfera permitia.
Eu fechei meus olhos, e segurei a mão dela junto ao meu ombro:
- Eu quero ouvir você dizer. - ela disse, me olhando intensa.
Eu tive a leve impressão de ver seu tom de íris clarear levianamente:
- Dizer o quê? - mas eu havia me esquecido que tinha algo para ser falado.
- Diz que me ama de volta, Victor. - ela pediu.
Eu não podia fazer aquilo. Eu não podia mentir sobre coisas importantes e no momento, aquela era a coisa mais importante a se dizer.
- Eu... - abri a minha boca, erroneamente. Desde o pensamento de transferir as palavras ao ar, eu sabia que não conseguiria terminar a frase.
Eu não podia.
Eu não sabia o que era amor, e sentia que não estava nem perto de entender.
Eu só me sentia preso num emaranhado de linhas que significavam emoções, mas nunca me davam uma direção sobre o que era aquele sentimento, que para mim parecia reservar muito.
- Você não vai dizer? - eu só fiquei a encarando, enquanto eu sabia que ela ficaria chateada comigo.
Talvez com razão. Ou não, porque Sebastian me dissera para só fazer aquilo quando tudo estivesse bem para mim, e nada estava bem.
Eu sentia que um "eu te amo" era algo extremamente particular; algo íntimo. E eu só queria o dizer quando estivesse certo daquele tipo de amor.
Eu só havia sentido um tipo de amor nos meus dezesseis anos e eu o dedicava todo à mamãe. E... Ao papai, junto com uma saudade traiçoeira.
- Lisa, eu...
- Tudo bem, você não me ama. - ela não gritou, nem fez cara de emburrada.
Na verdade, eu mal pude ver seu rosto; ela só levantou da cama e foi calçar seus sapatos brancos.
- Lisa, por favor.
- O QUÊ? - agora ela se virou para mim; como um raio rosa e eu me encolhi na cama.
- Eu só... Só não consigo... Dizer...
- Qual é o seu problema, Victor? - ela falou de forma tão categórica, que eu fiquei assustado com a frieza impressa em suas palavras. - Você não pode dizer um "eu te amo" para uma garota!
Minha visão começou a embaçar e minha linha d'água começou a arder, denunciando o que aconteceria assim que ela passasse pela porta:
- Para. - eu pedi num mísero sussurro.
- ENTÃO ME DIZ EU TE AMO!
- EU NÃO POSSO! PORQUE ISSO SIGNIFICA MUITO PARA MIM!NÃO É COMO SE FOSSE SÓ MAIS UMA FRASE. - eu gritei de volta; eu sentia o ataque de pânico rindo na minha garganta.
- Você é... - ela desistiu no meio da frase e suspirou.
Sem dizer mais nada, Lisa saiu do quarto.
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U m a P r i m a ve r a Q u a l q u e r
Romance"Eu só queria uma resposta. A resposta do que é o amor. Eu queria encontrar uma definição num livro, na internet, mas a única definiçao que eu podia encontrar, era em mim mesmo e aquilo me dava medo, porque... E se eu nunca encontrasse?" - Victor...