10 - R a i n

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O relógio no alto da lousa, estaria totalmente centralizado, mas eu podia dizer que ele estava meio centímetro torto.
Eu batucava com o lápis na carteira e já era a quinta vez que a professora de Geografia me mandara parar com aquilo. Ela tinha tique.
Quando eu esperava de mais por algo, eu acabava ficando mais observador ainda.
O tempo parecia não querer ser alcançado, então os átomos começavam a ficar lentos e doloridos. Mais perceptíveis, por menores que fossem.
Eu já checara o guarda chuva verde na minha bolsa um milhão de vezes, pra saber se por magia ou qualquer outra coisa, ele não havia desaparecido de lá.
E ele não desaparecera.
- E aí, cara?
- Oi, Everton.
- Vai na festa da Sophia?
- Não sei, você vai? - era um papo bem desinteressante, mas eu não estava ligando, desde que aquilo me desligasse da minha paranóia com o tempo.
- Óbvio que vou. Vai ter muita gente lá. Muitas meninas, se é que você me entende...
Pra que muitas meninas se eu só estava interessado em uma? A mais bonita de todas?
Caramba. Eu realmente estava interessado nela? Pensar nisso me fez ficar ainda mais inquieto.
- Ta afim de ir no shopping depois da aula?
- Não.
- Caramba cara; você é muito chato. - Everton se levantou e saiu andando.
O sinal bateu. Joguei tudo dentro da bolsa e catei o guarda chuva.
Sai andando na frente de todo mundo e fiquei perto das escadas, enquanto os estalos de passos se proclamavam na liberação dos escravos.
- Victor. - não era Lisa. - Eu estava te procurando.
- Olá, Sophia.
- Victor, eu estou indo tomar um milk shake e eu gostaria de saber... - minha visão estava no automático e ela desfocou do rosto de Sophia para cumprimentar o rosto de contornos rosa.
Ela caminhava na minha direção.
- Desculpa Lisa, mas eu tenho um compromisso. - eu só sabia que era um convite, pois ela começara com "eu gostaria".
Vi a decepção no rosto da menina e eu podia ter me sentido até mal; se Lisa não estivesse me esperando.
- Ah. Tudo bem. - ela deu um sorriso cortês e começou a descer o lance de escadas.
- Ela é sua amiga?
- Só temos algumas aulas juntas.
- Entendi. - ela assentiu. - Vamos então?


Mas eu não esperava que a chuva estivesse tão ruim. O mundo inteiro parecia desaguar em Guarulhos aquele dia.
Mas era até bonito, ver o tumulto de guarda-chuvas pelas calçadas, como se vagueassem.
E haviam tantos pretos enumerados, como se fossem uma forma de padrão; mas aí havia nós dois com um guarda chuva verde, enquanto algumas gotinhas de chuva voavam para os fios de seus cabelos.
- Obrigada por me acompanhar. - ela meio que gritava, segurando forte o cabo do meu guarda-chuva. - Eu não conseguiria vir pra casa.
- Não tem problema nenhum. - eu disse, a ajudando com a chave no portão. - Até depois, Lisa...
Eu ia sair andando, mas a voz dela soou doce em toda aquela armadilha:
- Ei, a chuva está muito forte; você não quer esperar um pouco? Não quer esperar a chuva passar? - os olhos dela brilhavam por debaixo da toca e ela nunca pareceu tanto assim uma criança.
- Não sei se é uma boa idéia. - considerei olhando para o céu, que trovejava, como se quisesse dar sua contribuição simultânea. - Não vai incomodar?
- Não, tudo bem. - ela abriu mais o sorriso. - Minha mãe está em casa. - ela passou pelo portão. - Entra.
- Tudo bem.

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