Cap. 4 - Em busca do suspeito

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Wen Ning chegou a Yiling cansado e com fome. Avistou uma barraca de pãezinhos cozidos a vapor e se dirigiu a ela enquanto resgatava de sua bolsinha a penúltima moeda.

A mulher simpática de feições comuns entregou, ao primeiro cliente da fila, três pãezinhos chineses apetitosos e fumegantes. Em seguida ela recolheu o dinheiro da próxima cliente, recheou a massa maleável e branquinha com os ingredientes que a mesma havia solicitado e moldou os seus pãezinhos com rapidez e habilidade.

A vendedora depositou o alimento em uma grande vaporeira de bambu atrelada a uma gigante panela de água quente, depois cumprimentou Wen Ning de maneira amável e perguntou o que ele queria. Wen Ning escolheu o recheio de carne de porco e legumes, entregou-lhe a moeda e aproveitou para perguntar à mulher sobre o cultivador misterioso.

— Bai Renshu, você disse? – ela respondeu. — De nome, assim, eu não sei de quem se trata, mas essa é a rua principal da cidade e eu abro minha barraca todas as manhãs e só a fecho pouco antes do sol se pôr, então talvez eu já o tenha visto passar por aqui. Que tipo de pessoa ele é?

Wen Ning refletiu sobre as principais características que a funcionária da estalagem havia mencionado e então respondeu:

— O apelido dele é Shu, tem os olhos verdes, um ar de quem sabe demais e dizem que é muito atraente e mulherengo.

A vendedora recolheu da vaporeira o pedido da cliente anterior e o pãozinho solitário de Wen Ning. Percebendo que a barriga de Wen Ning roncava com aquele cheiro, ela lhe entregou o seu pãozinho primeiro e depois passou a embalar, com esmero, os oito pães que aquela senhora levaria para o desjejum de sua família.

— Ah!– disse a vendedora, depois de se recordar. — Um moço bem alto e bonito com olhos de estrangeiro, não é? Frequentemente eu o via passando pela rua, sim, mas faz muito tempo que não o vejo. Mas eu só o conheço de vista, sabe? Nunca trocamos mais do que alguns cumprimentos cordiais, então eu....

Antes que a vendedora conseguisse concluir, a cliente dos oito pãezinhos os interrompeu. Apesar de já ser uma mulher madura, Wen Ning reparou que ela ainda era uma senhora bastante charmosa.

— Eu conheço bem o safado do Shu! Nós éramos amantes. Eu era uma mulher mais jovem e mais ingênua naquela época, então acabei caindo na sua lábia. Só que enquanto eu acreditava que estávamos profundamente apaixonados e que fugiríamos juntos para longe de meu marido, aquele maldito sem vergonha o seduziu também!

Wen Ning, que já havia dado a primeira mordida em seu pãozinho, engasgou-se e tossiu.

 "Ele seduziu o MARIDO?!" – repetiu mentalmente, indeciso entre achar aquilo trágico ou cômico.

Aquela senhora formosa entendeu a sua reação de surpresa de maneira errônea e se defendeu de forma exaltada:

 — O Shu mentiu sobre a sua idade! Ele aparentava ser um homem feito de corpo e mente desde mais tenra idade, nós jamais imaginaríamos que ele ainda fosse apenas um garoto! E eu era uma mulher ingênua, como eu já disse! Já o Shu... o maldito do Shu já deve ter nascido com aquela malícia toda!!!

"Quanto mais ela explica, pior fica..." – ele pensou.

Observando a exaltação daquela mulher diante de sua barraca, a vendedora interviu:

 — Não se preocupe, querida, esse moço apenas escolheu um recheio seco demais e acabou se engasgando – ela mentiu.

A vendedora gentilmente ofereceu uma caneca de água para Wen Ning, que a entornou e voltou a devolver o recipiente com um agradecimento. Ela correspondeu o agradecimento com um sorriso, entregou um pacote contendo os oito pãezinhos para a formosa senhora e depois os deixou a sós para atender os novos clientes que haviam chegado.

Wen Ning preferiu não fazer comentários e continuou com suas indagações:

— Eu preciso muito encontrá-lo. Sabe me dizer onde ele mora?

 A bonita senhora estreitou seus olhos e direcionou a Wen Ning o mesmo olhar de desconfiança que a funcionaria da estalagem havia lhe lançado. E dessa vez ele infelizmente compreendeu o porquê...

— Na-na-na-não é isso! – ele respondeu aflito — Ele tem ligação com um mistério que eu estou investigando, não estou interessado nele! Você pode me dizer mais coisas sobre ele? Qualquer informação serve! Ele é um cultivador, não é? Sabe me dizer se ele pertence a alguma seita?

Aquela senhora não pareceu acreditar nele, mas mesmo assim respondeu:

— Ele é um cultivador desgarrado. Não dos nobres, mas um desses delinquentes que usam a espada pra ferir em vez de proteger. Ele é bastante habilidoso, mas dizem que só aprendeu a cultivar porque se prostituiu para as pessoas certas. Ele diz que nunca se tornou discípulo de algum clã porque nunca teve interesse, mas a verdade é que ele arranja tanta confusão por onde passa, que é óbvio que seita nenhuma iria aceitá-lo!

A mulher cerrou os punhos, visivelmente furiosa. Mesmo depois de tantos anos, ela ainda não havia superado a traição. Seus olhos cintilavam de raiva.

 Wen Ning refletiu sobre o quão estranho era ela ainda estar tão zangada, visto que ela própria também fora uma traidora. Ouvi-la falar com tanto ódio tendo também a sua parcela de culpa, fez com que Wen Ning se lembrasse um pouco de si mesmo e pensasse no fato de que muitas pessoas só enxergam a parte que lhes é conveniente ver.

A senhora continuou:

  — No fundo ele não passa de um maldito mercenário, um egoísta, um libertino movido a dinheiro e a luxúria. Não importa se sejam mulheres ou homens, se ele precisar de qualquer objeto, recurso ou favor de uma pessoa, ele simplesmente a usa e depois a abandona. E se você perguntar para qualquer um que já o tenha conhecido e que tenha a sorte de já não estar mais apaixonado por ele, verá que serão unânimes em responder: todos o odeiam!

Wen Ning se sentiu estranhamente desconfortável ao ouvir aquela última frase. Afinal, ele conhecia bem o sentimento de viver sendo julgado e odiado.

 "Rezo para que este homem seja mesmo tão ruim quanto aparenta" – ele pensou.

 — Você o viu recentemente? Sabe me dizer se ele passou pela cidade?

— Se eu vi aquele maldito? Não e nem quero!

A atraente senhora ajeitou seus pães numa cestinha, já pronta pra ir embora. Depois, deu uma última olhada em Wen Ning e saiu andando enquanto falava:

   — Mas se você quiser que ele o encontre, basta se livrar desses trapos, vestir alguma roupa mais atrativa, cobrir essas marcas feias de nascença com bastante pó de arroz e depois exibir esse rostinho bonito por aí.

Wen Ning imediatamente ajeitou o capuz ocultando melhor o seu rosto. Fora muito descuidado dessa vez, mas por sorte, nenhuma das mulheres com quem ele falou pareceram tê-lo reconhecido.

 "Será que ele viria mesmo atrás de mim?"
– ele se pegou imaginando, mas assim que notou o quão absurda aquela situação parecia, ele sacudiu sua cabeça para afastar aqueles pensamentos insanos.

Wen Ning se despediu da gentil vendedora com um aceno de cabeça e se sentou aos pés de uma escadaria para terminar de comer a sua pequena refeição. Enquanto mastigava, ele refletia:

"O conselho daquela senhora não me será muito útil, já que não tenho o dinheiro necessário para me arrumar, mas acho que ela acabou me dando uma pista valiosa...
A taverneira, que não tinha uma boa aparência, me garantiu que não teve nenhum envolvimento
com Bai Renshu. Já a senhora dos pães, que possuía um rosto bastante comum, também não o conhecia bem. Por outro lado, a aquela cliente ainda é bonita o suficiente e devia ter sido ainda mais bela na juventude. E isso, somado ao conselho que ela me deu, deve significar que a chance de que ele apenas se interesse por pessoas excepcionalmente bonitas, seja grande. Então, se eu percorrer a cidade procurando por este padrão, é bastante provável que eu obtenha maior sucesso em minhas buscas."

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