Cap. 95 - À beira do abismo e da loucura - parte II

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A ventania incessante balançava amiúde uma janela entreaberta.

No exterior do conhecido quarto, poderosos relâmpagos clareavam o céu noturno enquanto uma chuva pesada caia. No interior, todavia, como que por mágica nenhum vento, frio ou calor se sentia.

Despertado pelo insistente barulho, o sonolento General ajeitou-se sentado em sua própria cama. Com a estranha impressão de que pairava entre nuvens, ele esfregou os seus olhos e perguntou-se em voz alta:

— Então foi tudo um sonho?

— Antes fosse, queridinho – respondeu em amargo sarcasmo uma voz feminina e aguda.

Quando enfim retirou as mãos de seus olhos e notou a figura mascarada parada diante da porta, o General assustou-se e gritou fortemente.

Emitindo um ruído em sua garganta como se sufocasse uma risada, a mulher deixou o quarto momentaneamente. Pouco depois, como se de repente se lembrasse de que ainda estava zangada, ela retornou pisando duro e questionou em tom de censura:

— Você pode me responder o que foi que deu em você pra mergulhar no mar revolto em plena tormenta?

Estarrecido demais para se pronunciar qualquer palavra, Wen Ning a encarou em sua expressão boquiaberta.

"Meu coração" – ele pensava atordoado – "Por quê? Por quê?! Eu tinha quase certeza que era Renshu, então por que meu coração não dispara?"

A figura mascarada aproximou-se devagar, e embora fosse extraordinariamente alta – mais até do que o próprio General –, seus passos eram tão leves e graciosos como os de qualquer dama. Ela usava uma sobreposição de peças na cor bege, bastante amplas e volumosas, ainda visivelmente úmidas e um tanto manchadas na parte superior; compondo o seu traje, a larga faixa que adornava seu abdome acentuava os seus seios fartos e demarcava a sua cintura fina; seus cabelos molhados estavam precariamente presos por um par de hashis e eram castanho-claros, contrariando as expectativas de Wen Ning; em seu rosto, uma máscara de aço polido reluzia sob iluminação bruxuleante das velas que ela mesma havia anteriormente acendido.

— Que-que-quem é a senhorita? - o General perguntou em lugar de responder, embora, pela aparência, já tivesse ideia de que estava diante da famigerada protagonista das lendas.

Senhora – ela o corrigiu. — Não se atente a minha voz juvenil, eu tenho vários séculos de idade, já não sou tão jovenzinha.

Wen Ning entreabriu os lábios e lançou-lhe um olhar inseguro, tal como um aluno tímido que, ainda confuso, estivesse com vergonha de solicitar ao seu mestre explicações mais detalhadas.

Como se pudesse ler o seu pensamento, a mulher emitiu um suspiro resignado e completou:

— Eu tenho muitos nomes, mas você pode me nominar apenas como sua salvadora.

Tendo o assunto abordado, Wen Ning sentiu-se menos intimidado e então perguntou:

— A-a-a senhora é aquela a quem chamam de E-e-entidade Reluzente?

A mulher deixou escapar outro suspiro e respondeu:

— É, isso também... mas não aprecio este título, acho um tanto inapropriado. Prefiro que me trate por deusa, heroína ou que continue a me chamar simplesmente de senhora.

Sem a menor cerimônia, a deusa afastou os cobertores de um lado da cama e sentou-se numa pose elegante com as pernas cruzadas. Os seios dela eram tão exagerados que, ao vê-la naquela posição, Wen Ning infantilmente perguntou-se se ela era capaz de enxergar os próprios joelhos.

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora