Capítulo 54

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Wen Ning acreditou que seria zombado, provocado, beijado ou até mesmo atacado, mas jamais imaginou que o cultivador se tornaria indiferente e taciturno perante a sua vexatória tentativa de flerte.

Sério e deprimido, Bai Renshu afastou-se alguns passos, agachou-se no lugar e passou a rabiscar o solo terroso com uma pequena pedra.

— O que foi, Renshu? Tem alguma coisa te incomodando? - perguntou o Wen, com uma voz preocupada.

Bai Renshu manteve seu olhar fixo no chão e continuou a fazer seus aleatórios rabiscos, sem nada dizer.

— Por favor, Renshu... - insistiu o Wen.

Sem alterar seu comportamento, o cultivador enfim respondeu:
— Não é grave, mas existe uma coisa... Só que eu não queria te dizer, porque eu não quero brigar. Eu odeio brigar com você.

— Renshu, meu querido, da última vez, um pequeno mal entendido se tornou uma coisa muito grande e perigosa. Você não acha melhor a gente conversar do que você ficar remoendo uma coisa que pode ser apenas uma bobagem?
— Talvez...
— Então me diga, por favor... Eu não brigarei, eu te prometo.

Após uma pausa silenciosa, Bai Renshu lançou a pedrinha para longe, sentou-se abraçado às próprias pernas e explicou num tom chateado:
— Ning, eu percebi você tateando as minhas veias pouco depois de ter me dito que não se sentia mais inseguro e isso me deixou desconfiado... E logo em seguida, quando eu senti o seu corpo inteiro se relaxar, duas coisas tornaram-se claras: a primeira é que você não se tranquilizaria se algo realmente não tivesse mudado no meu pescoço – o que foi uma ótima notícia, só que... também ficou bem claro pra mim, que você havia deliberadamente me induzido a fazer aquilo.

Envergonhado, Wen Ning abaixou sua cabeça e disse numa voz baixa e arrependida:
— Me perdoe. Eu sei que não foi uma maneira muito digna, mas eu estava apavorado... Aquilo que você disse sobre o seu próximo surto ser o último, me assustou demais. Tive medo de não conseguir te convencer a tempo e de eu te perder pra sempre, já que eu já havia expressado tudo o que eu sinto e eu não sabia mais o que dizer pra te fazer relaxar. Eu queria desesperadamente melhorar o seu humor, então eu achei melhor agir daquela forma...

— Ning, eu compreendo o seu medo. Não é essa a questão...

Wen Ning ergueu sua cabeça e o encarou surpreso e confuso.

— Não? Então qual é?

— Você poderia de ter escolhido me beijar sem a necessidade me enganar, por isso estou remoendo os motivos que te levaram a agir dessa forma. Eu sei do seu temor e não creio que você teria sido motivado por maldade, por isso mesmo eu me questiono tanto sobre o porquê de você ter feito isso. Será que você queria, mas faltou coragem? Ou talvez... tenha sido o oposto e você tenha achado isso algo tão repugnante que deixou nas minhas mãos fazer essa escolha?

Inseguro e envergonhado, Wen Ning sentou-se bem próximo de Bai Renshu e deu-lhe um tímido, rápido e desajeitado beijo nos lábios.
— Isso te responde as duas perguntas? - ele perguntou timidamente, após beijá-lo.

— Res... pon... de... - respondeu o atordoado Bai.

Wen Ning massageou e deu tapinhas em ambos os lados de seu próprio rosto para tentar dissipar o calor de suas bochechas em chamas, inspirou e expirou para aliviar sua tensão e depois fez uma crítica de uma maneira bem calma:
— Renshu, me surpreende a sua aptidão para ser tão pessimista. É verdade que eu sou tímido e medroso, mas como eu poderia me preocupar com esse detalhe enquanto havia uma coisa muito mais relevante e grave acontecendo? Nenhum tolo sentimento de autopreservação da dignidade poderia ser mais forte ou importante do que o que eu sinto por você... Meu desespero era tão grande que, mesmo que eu tivesse que fazer a coisa mais humilhante do mundo, eu nem pensaria, apenas faria. E sobre achar repugnante, isso é tão absurdo que eu sinceramente nem sei o que dizer. Quem, em sã consciência, acharia repugnante a pessoa que... gosta?

— Alguém que estivesse se enamorado por alguém e depois descoberto que ele estava se tornando um monstro?

— Argh, Bai Renshu! E por acaso eu sou o quê? Um ser humano normal?

— Me desculpa, am... A-Ning! Me desculpa, eu não quis dizer isso! É claro que eu não te vejo como um monstro, mas depois de eu ter te mostrado como o meu corpo está "apodrecendo", talvez você me veja como um...

Wen Ning colocou as mãos na cintura, estreitou os lábios e encarou o outro com uma expressão enfado, como se tivesse ouvido a pior das babaquices. Bai Renshu compreendeu que estava dizendo besteiras, pensou melhor e depois se corrigiu:
— Está bem, eu estou sendo um idiota... isso não faz o menor sentido, já que você acabou de me provar que não sente repulsa por mim. É só que... eu ainda não compreendo a sua motivação...

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