Cap. 87 - Cartas para Bai Renshu - parte II

80 16 23
                                        

"Yiling, ano 2.


 Querido Renshu, ainda pergunto-me diariamente como é que você tem estado. Recuso-me a dar ouvidos aos que me dizem que os mortos são capazes de nos transmitir emoções que não nos pertencem, mas não nego que às vezes eu sinta estranhas sensações e que em momentos inoportunos o meu coração violentamente dispara, tal como o seu também o fazia. Apesar disso, sigo acreditando que você esteja vivo e com saúde e que estes sejam apenas efeitos colaterais da saudade, pois caso contrário, creio que eu não teria a sanidade necessária para conseguir seguir em frente.

 No que me concerne, não posso dizer que eu esteja bem, mas ando fazendo o possível para não me tornar uma pessoa melancólica. Graças à influência benéfica que você exerceu direta e indiretamente sobre a minha vida, eu fui capaz de conhecer novas pessoas, de me tornar um pouco mais confiante, de sanar antigas desavenças e até mesmo de fazer algumas amizades.

  Você ficaria surpreso com a frequência com que este nosso "coração" tem recebido certas visitas. Tomara que você não se zangue ao ler isto, mas segui os conselhos de A-Yuan e permiti que algumas pessoas entrassem nesta casa para torná-la um lugar um pouco menos solitário e sombrio.

 Querido Renshu, sabe o que é mais curioso? Exceto por A-Yuan e pelo mestre Wei (e Hanguang-jun, por consequência), a primeira pessoa a frequentar a nossa casa, foi também a mais improvável, visto que trata-se do Jovem Líder Jin, a quem eu acreditava que me odiaria para sempre.

 A-Ling – como eu o chamo atualmente – não é muito de dar o braço a torcer, mas está evidente que agora ele me estima. Além de vir me visitar regularmente com A-Yuan, nos dias em que o Jovem Líder não tem responsabilidades a cumprir em sua seita e que por alguma razão não pode se encontrar com meu sobrinho, ele também aparece aqui para me fazer companhia.

 É um pouco engraçada a nossa relação... sempre que A-Ling vem me visitar sozinho, nos cumprimentamos muito mais formalmente do que de costume. Depois ele entra, acomoda-se silenciosamente em sua poltrona favorita e fica me encarando de braços cruzados com uma expressão impaciente, como se o fato de ter que ser o primeiro a puxar algum assunto, fosse a pior e a mais indigna das desonras.

 No início eu me sentia um pouco intimidado, sem saber como reagir, mas aos poucos, eu percebi que isso era apenas orgulho, pois basta que eu faça algum comentário aleatório sobre o seu assunto favorito (A-Yuan) e ele já começa a tagarelar sobre sua vida amorosa como se fôssemos grandes confidentes.

  Com o passar do tempo, eu também tomei coragem e convidei aquela senhorinha da casa de chá para me fazer uma visita. De uns tempos pra cá, ao menos uma vez na semana Yan Lu e eu nos reunimos para experimentarmos a nova seleção exótica de flores, folhas, raízes e frutas que ela recebe de seu amigo (confesso que algumas combinações não são tão boas, mas sempre nos divertimos tentando prever que gosto essa nova remessa teria) e passamos tardes agradáveis saboreando o chá e comendo quitutes enquanto ela me conta uma de suas histórias.

 Dentre as histórias que Yan Lu me contou de quando você era pequeno, creio que a mais divertida foi aquela sobre o dia em que você inventou uma peça teatral sem pé nem cabeça, improvisou um palanque com caixotes no meio da cidade, clamou pela atenção dos transeuntes anunciando que você era "O grande pequeno-homem das mil faces" e começou a interpretar sozinho diversos personagens.

 Sabe, Renshu, isso me pareceu um tanto excêntrico até mesmo para o seu "eu criança", mas é justamente por isso que eu gostaria de ter visto! Hahaha

 Recentemente eu descobri que Yan Lu é prima em primeiro grau de Yan Quon. Que coisa, não? Este é mesmo um mundo pequeno!

 Apesar de já ter notado a semelhança no sobrenome, eu fiquei bastante impressionado em saber que alguém tão amável pudesse ser um parente relativamente próximo daquele ser abominável, mas pelo que eu soube, Yan Quon era ruim desde pequenino e foi morar sozinho ainda muito jovem, já que não se dava bem com ninguém da própria família.

 Yan Lu também me contou que por causa dessas desavenças com Yan Quon, ela evitou de se aproximar de você, mas que o maior arrependimento da vida dela, foi não ter enfrentado o próprio primo para te adotar quando Bai Meiling se foi.

  Renshu, eu consigo compreender totalmente os sentimentos dessa minha amiga, mas sinceramente, se você leu todo aquele dossiê, você também deve estar ciente de que se ela de fato o tivesse enfrentado, hoje ela não estaria viva para me contar essas histórias. Por isso, Renshu, se um dia você voltar, eu te peço por favor para que leve isso em consideração e procure-a para conversar. Yan Lu lhe tem muito carinho, saiba disso, e se você se permitir, acredito que vocês dois poderiam desenvolver uma bonita relação, como a de uma avó e de seu neto.

 Depois de A-Ling e Yan Lu, eu também fiz outras duas amizades; primeiro com um mestre artesão e depois, com o filho dele.

 Quanto ao mestre artesão, inicialmente nos aproximamos porque eu lhe implorei que fizesse de mim o seu aprendiz. A-Yuan havia me conseguido vários livros que ensinavam o ofício da marcenaria, mas apesar de eu ter me empenhado muito, os móveis que eu fiz sozinho não ficaram tão bons quanto eu gostaria (lembra-se? Eu queria fazer peças lindas e raras que denotassem todo o meu amor por você), por isso eu engoli a minha vergonha e fui atrás de um professor habilidoso que me ensinasse a fabricar a magnífica mobília que o nosso templo e coração merecia.

 Este mestre artesão é um ancião (acabo de dar um sorriso imaginando você tirar sarro de mim dizendo que eu tenho alma de velho porque tenho um talento especial para fazer amizade com velhinhos) ainda bastante lúcido e robusto. Ele é um pouco turrão, a princípio, mas tem um coração enorme! Com o tempo, ele afeiçoou-se a mim tal como eu me afeiçoei a ele e acabamos nos tornando bons amigos.

 Este senhor tem dois filhos e os dois trabalham com ele. O mais velho, mal olha na minha cara; ele provavelmente me acha um babaca, já que eu moro na casa DE UM CERTO SAFADO, SEM VERGONHA, INDECENTE E TARADO que roubou a esposa dele no passado, por isso ele deve imaginar que eu também sou assim. Já o mais novo, é um homem bastante gentil e educado que tem a nossa idade; ele também é introvertido e tem o temperamento um pouco parecido com o meu, por isso foi fácil me conectar a ele. Esse filho mais novo perdeu a sua namorada (e melhor amiga) para os jiangshis e desde então tem estado muito entristecido, por isso estamos mutuamente nos ajudando a superar as nossas perdas.

 Bai Renshu, eu sinto muito ter que encerrar esta carta um tanto subitamente, mas acabei ficando indisposto ao imaginar as coisas que você deve estar aprontando por aí. Sei que não temos mais um relacionamento, mas não consigo evitar de ficar irritado.

     
Te amo, hoje e sempre (embora eu não devesse, seu libertino!).


Eternamente seu,
Wen Ning"

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora