Capítulo 33

168 35 30
                                        


Wen Ning se sentia perdido e sem saída. Qualquer que fosse sua decisão, as consequências seriam terríveis.
Por um lado, se fosse atrás de Bai Renshu, ele teria que conviver com a culpa de não ter impedido as lágrimas de várias famílias. Por outro, se salvasse essas pessoas, ele teria que conviver com a angustiante dúvida se poderia ter salvo a vida da única pessoa capaz de abrir mão de tudo o que era e de tudo o que tinha, para poder protegê-lo.
Por tudo o que Bai Renshu havia feito e demonstrado, Wen Ning não tinha dúvidas de que ele o salvaria se estivesse em seu lugar.
Estando ciente disso, como ele próprio poderia agir de forma diferente? Como mensurar o certo e o errado? Como abrir mão de ter Bai Renshu ao seu lado, se este era o único sonho que ele possuía?
Há muito tempo Wen Ning não vivia, apenas existia. E justo agora que sua existência havia adquirido alguma cor e algum sentido, como deixar que estas fagulhas de esperança lhe escapassem das mãos? Ele sabia que deveria se preocupar com a maioria, sabia que era errado ser tão egoísta, sabia que essa doença poderia se espalhar, mas mesmo assim, não havia como negar: por mais que sua razão lhe dissesse para fazer o contrário, em seu coração, Bai Renshu sempre foi a sua prioridade.
Entretanto, não havia a garantia de que Bai Renshu ainda estivesse vivo e que seus esforços para alcançá-lo não seriam em vão. E era essa consciência o que mais atormentava o General...

Vendo a resposta escrita nos olhos de seu sênior, mas a tortuosa dúvida que desassossegava o seu semblante, Lan Sizhui enfim compreendeu que não tinha o direito de tentar impedi-lo. Se até mesmo o honroso e incorruptível Hanguang-jun foi capaz de atacar o próprio clã por amor, como esperar que Wen Ning não cedesse ao ímpeto de atender o desejo mais profundo de seu coração?
Lan Sizhui pousou uma das mãos no ombro de seu sênior com a intenção de lhe passar confiança e o fitou com um sorriso bondoso e um olhar compreensivo.
— O senhor tem alguma ideia do que ele poderia ter feito com aquelas cabeças decepadas? Ou talvez para quem ele possa tê-las levado? - perguntou o Lan, com a benevolente intenção de ajudar o tio a encontrar alguma linha de raciocínio.

Wen Ning ficou bastante surpreso por não ter conseguido pensar nisso antes e respondeu com certo entusiasmo:
— Yan Quon! Ele é muito amigo de Renshu e também é o médico que estava pesquisando essa doença! Ao que tudo indica, Bai Renshu esteve com ele recentemente, mas o motivo certamente não foi aquele que eu havia cogitado. Inicialmente, eu achei que o Renshu tinha ido procurar o médico pra abreviar sua vida de uma forma menos dolorosa, mas se mesmo doente ele esforçou-se até o esgotamento e se ele também pretendia morrer queimado, sentir dor, definitivamente não é algo que o preocupa. Então o motivo era outro!

— Fornecer material de pesquisa para que a cura fosse descoberta e garantir, desse modo, que a pessoa que ele ama ficaria em segurança? - especulou o Lan.

As bochechas de Wen Ning tornaram-se ruborizadas ao ouvir, em alto e bom som, os dizeres "a pessoa que ele ama".
— Po-possivelmente – respondeu o Wen.

Lan Sizhui continuou a ajudar seu sênior a organizar seus pensamentos turbulentos:
— O senhor tem alguma ideia de onde poderia começar a procurar esse médico? 

— Talvez a estalagem, porque Bai Renshu alugava um quarto para ele lá. Não sei se ele continua hospedado, mas agora que eu tenho bastante dinheiro, provavelmente poderei obter informações valiosas!

Lan Sizhui sorriu para seu tio e lhe disse:
— Agora há pouco, quando ainda estava muito abalado pelas recentes notícias, o senhor estava se perguntando para onde ir, certo? Pois agora o senhor já encontrou essa resposta! Depois, se perguntou por onde começar a procurar - e agora, o senhor já tem essa resposta também! Em seguida, o senhor perguntou o que deveria fazer, só que essa resposta...
Lan Sizhui fez uma pequena pausa, encostou a ponta de seu dedo indicador na altura do coração de seu tio e depois continuou:
— O senhor sempre a teve, bem aqui.

Wen Ning ficou um tanto aturdido, sem saber direito o que responder.
Lan Sizhui riu de leve, empurrando-o gentilmente na direção do cavalo.

— Vamos, Sênior Wen, meu novo tio o espera!

Wen Ning não relutou em andar, mas seu semblante ainda parecia temeroso e hesitante.
Lan Sizhui desatou o cavalo, entregou as rédeas na mão do tio e lhe ofereceu um sorriso confiante. Deixando as convenções de lado, ele lhe disse:
— Pode ir, tio Ning! Eu prometo que me esforçarei em dobro para compensar a ausência do senhor. E se mesmo assim isso não for o suficiente, eu ainda chamarei a Fada e a "Jovem Dama" para nos ajudar. Vá! Vá encontrar o seu amor e traga-o são e salvo! Vá sem medo e sem remorso, porque o senhor já sofreu demais em sua vida e agora merece toda a felicidade do mundo!

Wen Ning adquiriu um semblante mais tranquilo e respondeu com um tênue sorriso:
— Está bem, eu irei...

Antes de subir no cavalo, Wen Ning abraçou o seu sobrinho e lhe disse:
— Muito obrigado por tudo, A-Yuan.

Lan Sizhui retribuiu o abraço e lhe respondeu:
— Obrigado o senhor, por ser meu tio e meu sênior, por todas as visitas que já me fez e por todas as orientações valiosas que já me deu.

Ao desvencilhar-se do abraço, o comedido Lan Sizhui se permitiu uma pequena brincadeira:
— Agora vá. Vá porque o senhor não tem tempo a perder e porque eu estou muito curioso a respeito dessa pessoa que conseguiu fazer com que meu tímido tio dissesse coisas audaciosas!

Fingindo não ter notado o comentário, o enrubescido Wen Ning subiu no cavalo. Os dois se despediram, Wen Ning balançou as rédeas e o cavalo iniciou sua marcha.

— Até breve, sênior! Boa sorte! – gritou Sizhui, acenando e sorrindo de modo muito otimista enquanto seu tio se distanciava.
Wen Ning deu um sorriso e acenou de volta.

Quando Wen Ning sumiu de seu campo de visão, Lan Sizhui desmontou o seu sorriso otimista, assumiu uma expressão bastante tensa e preocupada e deu um longo e pesaroso suspiro, enquanto pensava: 
"Ah, tio Ning... Eu rogo para que eu esteja errado, mas tenho maus pressentimentos sobre essa sua jornada..."



O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora