Capítulo 52

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Ao encará-lo após o tapa, Wen Ning notou que as veias grossas de Bai Renshu estavam se dilatando. Com as mãos inutilmente em seu pescoço, como se pudesse contê-las, Wen Ning disse desesperado:
— Renshu! Renshu, meu amor, me perdoa! Eu sinto muito, eu achei que você só estivesse fingindo!
Wen Ning voltou a debruçar-se sobre ele e sentiu uma mão afagar-lhe a cabeça. Pouco depois, uma voz desolada o respondeu:
— Sou eu quem te peço perdão. Eu estava mesmo fingindo...

Wen Ning ergueu-se com uma expressão confusa e o observou: o cultivador encarava o teto com um semblante repleto de desgosto e melancolia.
Bai Renshu também ergueu-se e abaixou sua cabeça, visivelmente triste e arrependido.
No mesmo tom desolado, ele continuou a dizer:
— Eu não soube como reagir e te fiz sofrer dessa maneira. Eu sou um ser humano horrível, Ning... por favor, se afaste de mim. Eu estou falando sério. Por favor, vá embora daqui.

Wen Ning respondeu aflito:
— NÃO! Não pense assim, meu amor. Não tem problema! Todo mundo faz besteira quando se sente desnorteado... Isso acontece!

Alisando os cabelos de Bai Renshu carinhosamente para trás, Wen Ning viu que as veias de seu pescoço haviam se tornado ainda mais largas e já haviam avançado pouco mais de um centímetro em direção ao seu maxilar.
O General estava terrivelmente angustiado, mas tentava não deixar transparecer. Ele abraçou Bai Renshu com leveza, tomando o máximo de cuidado para que seu corpo tão transparecesse estar tenso demais e beijou seguidas vezes aquele rosto bonito, tentando dar-lhe o máximo de carinho que podia.
Bai Renshu gentilmente o afastou e pediu:
— Não me chama disso, por favor. Não pense que eu não me sinta lisonjeado por você me considerar dessa maneira, mas como você pôde ver, eu não sou merecedor de um sentimento tão sublime.

Internamente agoniado com o rumo que essa conversa estava tomando e com as consequências que ela rapidamente traria, Wen Ning tentou uma manobra arriscada a fim de ganhar tempo. Orando para que tudo desse certo, ele lhe disse:
— Está bem, farei como você deseja, mas infelizmente eu não posso alterar os meus sentimentos e eu devo dizer que...
Wen Ning engoliu em seco e continuou, morrendo de medo:
— Que na verdade, eu fiquei mesmo muito magoado com a maneira que você agiu comigo e agora meu coração está muito triste.
Pálido como um fantasma, Bai Renshu segurou e apertou fortemente as mãos de Wen Ning com um semblante muito abalado. Wen Ning rezou com todas as suas forças para que ele mordesse a sua isca antes que uma desgraça acontecesse e mentiu:
— Eu não me importo com o susto, porque eu tenho certeza que você só pensa em mim como amigo e só fez isso porque se sentiu pressionado; portanto, eu te entendo e te perdoo. E pra falar a verdade, eu também prefiro não me envolver romanticamente com você, já que você não se prende a ninguém e isso complicaria a nossa amizade. O problema é que é a primeira vez que eu me apaixono e eu nunca beijei alguém na minha vida. Como eu já te disse, eu penso que só se deve fazer essas coisas com a pessoa que a gente gosta, então eu nunca tive essa oportunidade. E como você já beijou muita gente, eu achei que, se eu falasse como eu me sinto, você teria a gentileza de me mostrar como era beijar a boca de uma pessoa. Eu tenho essa insegurança, entende? Me sinto inferior por ser um homem adulto que nunca beijou na boca. Eu achava que, já que somos grandes amigos, você teria a sensibilidade de perceber isso e resolveria o meu problema, mas em vez de me ajudar, você me rejeitou e isso me deixou muito triste. Esse único beijo, sem nenhuma necessidade de firmarmos um relacionamento, seria o suficiente pra me fazer uma pessoa mais segura e me deixaria muito feliz, entende? Só que você não se importou comigo o suficiente pra isso... Portanto, acho que agora eu entendo o que você queria dizer com aquele sentimento de um coração chorando rios de san-

Impedindo-o de continuar, Bai Renshu mordeu a isca e subitamente segurou a cabeça de Wen Ning entre as mãos e o beijou.
Wen Ning arriscou que seria mais rápido e fácil tornar Bai Renshu mais feliz com um beijo do que convencer aquele cabeça dura com palavras. Afinal, se o cultivador pudesse beijar a pessoa que ele amava sem se assustar e sentir-se culpado ou pressionado, pela lógica, isso deveria ser mais efetivo, mas o que o General não imaginava, era que a vontade que o cultivador reprimia fosse tão desesperadora e brutal.

Forte, intenso, sofrido, angustiante e ofegante, aquele certamente não era um beijo que poderia ser resumido como algo romântico, ardente ou sutil.
Embora fosse um beijo intencionalmente respeitoso, no qual o cultivador até mesmo absteve-se de usar a sua língua, a palavra que melhor definiria aquele ato era dor.
Dor, porque os lábios e o corpo de Wen Ning ficaram um pouco doloridos com a intensidade com que Bai Renshu os pressionava; e também dor, porque o sofrimento e o desespero com que o cultivador executava suas ações, comoveria até a mais insensível das almas.
Bai Renshu o beijava com tortuosa necessidade, equiparável até a de um prisioneiro cadavérico e faminto a quem fora oferecido, depois de um longo tempo, as primeiras migalhas de comida.
O corpo inteiro do cultivador tremia, quase convulsionava. Lágrimas, que escorreram de seus olhos fechados, umedeceram as bochechas e a boca de ambos e tornaram aquele aflitivo roçar de lábios estranhamente salgado.
Bai Renshu o agarrava, o puxava e o apertava de diferentes maneiras e em diferentes lugares. Rosto, braços, mãos, ombros, nuca, pescoço, barriga, costas, roupas, cabelos... qualquer lugar que lhe parecesse suficientemente respeitável, não escapava de suas mãos angustiadas.

Apesar do desconforto, Wen Ning não sentiu vontade de afastar-se; a angústia de seu amado o machucava muito mais do que qualquer desconforto físico que ele pudesse sentir.
O ósculo doce e mágico com que Wen Ning conjecturava em seus devaneios a respeito de seu primeiro beijo, mostrou-se bastante diferente da realidade, todavia, o General amava qualquer que fosse o contato daqueles lábios, portanto não se importou com a brutalidade e apenas deixou-se conduzir.

Quando o beijo findou, Bai Renshu segurava Wen Ning ao mesmo tempo pelo ombro e pela nuca. Com uma expressão indecifrável, o ofegante cultivador encostou sua testa na do General e olhou penetrantemente em seus olhos, como se tentasse transmitir a mensagem de que o amava profundamente, mas sem ousar proferir isso em palavras.
Compreendendo o recado, Wen Ning sorriu, fechou os seus olhos e esfregou o seu rosto no dele de maneira bem lenta, delicada e carinhosa. Depois, ele beijou amorosamente os dois cantos dos lábios de Bai Renshu, lhe deu mais um último selinho e o abraçou com muita ternura.

Ainda ofegante, Bai Renshu retribuiu o abraço, mas manteve-se sem fazer nenhum comentário.
Ainda abraçando-o, Wen Ning acariciou as costas dele e falou baixinho em seu ouvido:
— Eu não me sinto mais triste e nem inseguro. Obrigado, é o suficiente pra mim.

Wen Ning escutou o suspiro aliviado de Bai Renshu e sentiu os músculos dele se relaxarem. Ele passou a acariciar a nuca do cultivador e deslizou seus polegares sutilmente para as laterais do pescoço dele, sentindo suas salientes veias através do tato. Percebendo que agora aquelas veias pareciam menos inchadas do que a última vez que as sentiu, Wen Ning pôde, enfim, relaxar um pouco também.
Quando pensou que tudo estava resolvido, Wen Ning sentiu o corpo do cultivador tensionar-se novamente. Pouco depois, Bai Renshu balbuciou as palavras "não para mim".
Wen Ning afastou-se e o observou com uma expressão indagativa.
Bai Renshu o olhou nos olhos com uma expressão desamparada e moveu os sutilmente seus lábios como se quisesse dizer algo, mas se sentisse incapaz de conseguir verbalizar.

Wen Ning o observou com um semblante dócil e disse em uma voz suave:
— Está tudo bem... Você não precisa me dizer nada que não te deixe à vontade, meu am...
Wen Ning levou a mão à boca para calar-se, pediu desculpas de maneira desconcertada e depois corrigiu:
— Você não precisa me dizer nada que não te deixe à vontade, Ren-
Dessa vez, foi Renshu quem tapou a boca dele. Com uma expressão estranha, evitando contato visual, o cultivador lhe disse:
— Você pode falar.
Quando o cultivador tirou a mão da boca de Wen Ning, este último abriu um sorriso radiante e perguntou animado:
— Posso mesmo?
Bai Renshu ficou ligeiramente corado, meneou a cabeça sutilmente em um gesto positivo e respondeu olhando de viés para o chão:
— Pode, mas não muito. Só às vezes... Tente evitar, mas também não precisa se corrigir.
Wen Ning deu um beijo no rosto dele e respondeu alegremente:
— Tudo bem, isso já é o bastante pra mim!

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