NOTA: Os capítulos intitulados "O lamento de Bai Renshu" são flashbacks de coisas que aconteceram entre os capítulos 62 e 63, onde eu propositalmente pulei da última conversa que eles tiveram para o ponto em que o Ning acorda todo desnorteado.
Esses flashbacks preencherão as lacunas a respeito do que havia acontecido e se encerrarão na mesma linha do tempo em que o capítulo 64 começa.
[ P.S.
Só tenho uma coisa declaração a fazer sobre o atual capítulo:
Eeee eôôô vida de gaaado! ♫♪
Hueahueahuea ]
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De mãos dadas, pernas entrelaçadas e rostos quase colados, Bai Renshu permanecia deitado de frente para o seu amado enquanto admirava e decorava cada minúcia daquele rosto com grande fascínio e devoção.
Ao término da extensa conversa que tiveram, Wen Ning havia ficado bastante preocupado com o semblante cansado que o cultivador exibia e portanto o obrigara a tentar dormir pelo tempo que lhes restava até a hora da partida.
"Ora, ora, ora, mas que belo capacho estou me saindo! Tentei laçar um General Fantasma e acabei laçado por um General Patroa..." - o cultivador havia pensado, e mesmo sabendo que dificilmente conseguiria adormecer depois de tudo o que haviam feito e conversado, Bai Renshu resignou-se em se deitar no hanfu que o outro havia estendido e obedecer-lhe a ordem sem oferecer a menor resistência.
Ironicamente, aquele que não tinha a intenção de dormir, relaxou tanto com as carícias que recebeu, que acabou caindo em sono profundo. Enquanto que o outro, que pretendia obedecê-lo e se esforçara em dormir, sentia-se ao mesmo tempo tão temeroso e eufórico diante do vislumbre de um futuro com seu General Fortinho, que sequer conseguiu cochilar.
Apesar de ocioso e ansioso, Bai Renshu não se sentia entediado ou incomodado; afinal, ouvir o tranquilo compasso daquela respiração lenta e profunda e observar em incansável veneração a expressão meiga e pacífica que seu amado fazia ao dormir, era algo que ele adorava fazer. Adorou da primeira vez, quando o encontrou naquele casebre e sentiu-se encantado; adorou da segunda, quando Wen Ning o abraçou dormindo e ele apavorou-se ao perceber que se o abraçasse de volta, nunca mais desejaria soltá-lo; adorou até mesmo da terceira, quando acreditou que fosse a última vez que o observaria e tentou memorizar aquele doce semblante antes de partir; adorou também da quarta, quando reencontrou o seu grande amor e não sabia se chorava ou o se esganava; e adorava especialmente nesta quinta vez, visto que agora, ele poderia abraçá-lo, acariciá-lo e beijá-lo com a ciência de que sua aproximação era expressamente consentida e desejada.
A despeito de seus problemas e dores, Bai Renshu se sentia como num sonho do qual ele não queria acordar. Parecia-lhe tão improvável tudo o que havia acontecido e mudado desde a noite anterior até este quase pôr do sol, que o cultivador até custava em acreditar que aquilo pudesse ser verdade.
Mudando a posição de seu dolorido corpo para aliviar o seu desconforto, mas ainda mantendo uma das mãos segurando as da pessoa que ele tanto amava, Bai Renshu aproveitou aquele momento de silenciosa desocupação para mentalizar a sua falecida mãe e desabafar com ela as suas felicidades e aflições. Direcionando o seu olhar para o teto como se olhasse para o céu, ele lhe dirigiu o pensamento:
"Mãe, como é possível que todo esse amor que eu sinto seja correspondido? Eu nunca fiz nada de bom, não sou útil à humanidade... Eu puxei àquele lá, eu não puxei à senhora! Então por que logo eu fui ter a sorte de encontrar alguém tão maravilhoso, enquanto que a senhora, que é tão boa, não teve esta mesma ventura? Isso me parece tão injusto... Será que é por isso que eu estou fadado a morrer justo agora que eu conheci a felicidade? (...) Não, eu não posso pensar assim... Não vou pensar assim! Isso só faz piorar minha situação e eu preciso sobreviver para também poder fazer feliz essa pessoa importante".
E virando-se novamente de frente para Wen Ning, ele abriu um sorriso tolo ao mirá-lo e continuou:
"Mãe, veja só esse rostinho! Ele não é uma graça?! Ah, mãe, eu estou TÃO apaixonado! Tão apaixonado que eu seria capaz de me lançar aos pés dele e realizar todas as suas vontades. Eu daria a ele o mundo inteiro se eu pudesse, só que infelizmente eu não posso... Então como eu faço pra demonstrar a ele tudo o que eu sinto? É algo tão forte, arrebatador e gigante, que me parece que nem todas palavras e carícias do mundo são suficientes para expressar tudo o que eu quero! E sabe, mãe, ainda há pouco ele confirmou que quer se tornar o meu esposo e até me chamou de futuro marido. A senhora não poderia calcular o quão alegre eu fiquei! Eu me contive, pois o momento não era oportuno, mas eu quis pular, gritar, dançar e... Ora, ora! O que diabos eu estou dizendo? Que parvo sou eu! Eu estou aqui falando 'dele', mas nunca falei à senhora sobre amor ou sobre as pessoas com as quais eu já me relacionei. Será que a senhora está muito chocada com o que acabou de ouvir? Será que a senhora sabe que seu filho nasceu metade corta-manga e agora tornou-se um completo corta-manga por essa coisa fofa que está diante de mim? Será que a senhora entenderia que o meu primeiro e único amor não é uma mulher, como se era esperado, e ainda assim aprovaria essa união? Mãe, desculpe se eu a decepciono, mas eu o amo tanto que eu não me afastaria dele nem sob os conselhos da senhora... e eu sei que a senhora é uma pessoa boa e compreensiva então, por favor, aprove essa união e me ajude. Ajude esse seu filho degenerado que também a ama e que agora quer seguir o seu exemplo de integridade e bondade. Ajude-o a se tornar comportado, fiel e digno da pessoa que ensinou a ele o que era a felicidade. Ajude-me, mãe, a ser tão bom quanto ele é pra mim e a merecer o amor dessa pessoa incrível que ele é. E se a senhora puder, por favor, ajude-me também a arrumar um jeito de sair dessa enrascada e continuar vivendo, porque se eu não conseguir, de nada esses pedidos terão adiantado. Por favor mãe, Deus, deuses... qualquer entidade! Ajude-me a continuar vivo e a merecer essa pessoa linda que eu amo tanto. E se eu puder ter isso, EU JURO, eu nunca mais pedirei e nem precisarei de nenhuma outra riqueza na minha vida! Bom, err... digo... no máximo eu 'precisaria' de um ou dois bebezinhos de bônus, né? Mas é só porque eu o amo tanto que quero ter uma família com ele! E, bom... eu também nem sei se ele deseja ter a responsabilidade de adotar e criar uma pessoinha, então eu só precisaria desse bônus caso ele realmente consentisse e compartilhasse dessa mesma vontade".
Percebendo que o ambiente havia se tornado mais escuro, Bai Renshu apoiou-se sobre um dos cotovelos, esticou o pescoço para espiar a entrada da caverna e pensou:
"Hum... falta pouco. Acredito que o sol desaparecerá por completo dentro de um terço de hora. Será que meu venerado estará com fome ao acordar? Sinto tanta dor em tantas partes do corpo que já não consigo nem pensar em comer, mas penso que apenas um peixe e algumas frutas seja pouco para alguém forte como ele. Além disso, eu também preciso de gordura para preparar devidamente as nossas tochas e mantê-lo bem protegido."
Após beijar e soltar a mão que ele ainda segurava, Bai Renshu colocou-se de pé com certa dificuldade. Ignorando os protestos dolorosos que seu próprio corpo exprimia, ele esticou-se, aqueceu-se, exercitou-se e então os seus membros enrijecidos se tornaram um pouco menos lastimáveis.
Percorrendo a caverna em busca de algo que lhe pudesse ser útil, o cultivador pisou em algo frio e animou-se ao verificar o que era. Ao recolher, analisar e manejar a comprida barra de metal enferrujado, ele pensou:
"Achei que o meu General Fortinho tivesse retorcido de volta na jaula todas as que ele havia quebrado, mas pelo visto, esta uma lhe escapou. Ora, ora, mas que sorte a minha! Quebrou um jeito bem conveniente, pois formou até uma ponta perigosa. Estou sem minha espada, mas acho que com esta coisa aqui, eu consigo me virar!"
Satisfeito, Bai Renshu retornou para perto de Wen Ning, tocou-lhe o flanco de um modo bastante gentil e o chamou baixinho para não assustá-lo:
— Ei, amor... General Fortinho... Ning, meu fofo dorminhoco, acorde!
Wen Ning, que estava lateralmente deitado, virou-se para o lado oposto com um ininteligível resmungo que fez com que cultivador sorrisse bem-humorado diante de sua inconsciente rabugice.
Bai Renshu aproveitou a posição para deitar-se ao lado dele e abraçá-lo de conchinha. Após dar-lhe um carinhoso beijo na bochecha, ele sussurrou em seu ouvido:
— Está bem, meu venerado, era só pra te dar um aviso, mas você pode continuar a dormir. Eu vou sair, mas será bem rapidinho. Eu sei que eu não estou na minha melhor condição física, mas os jiangshis passaram a me ignorar como se eu fosse um deles desde que eu fui "desencadeado", e como ainda não temos tochas decentes e parece haver muitos monstros berrando lá fora, eu prefiro ir do que deixar você correr esse risco. Por favor, não se zangue, está bem? Eu não me demoro, voltarei correndo antes que você possa acordar. Eu te amo, vida minha! Durma um sono bem tranquilo e tenha doces sonhos.
Wen Ning sorriu e aconchegou-se a ele, mas sem acordar. Bai Renshu fez todo um contorcionismo para conseguir dar nele um amoroso selinho de despedida, se desvencilhou de seu amado com muito cuidado e depois se levantou e preparou-se para sair.
O adormecido Wen tornou a resmungar alguma queixa incompreensível assim que foi solto, mas logo sossegou e tornou a esboçar um singelo sorriso inconsciente diante da doçura com que estava sendo tratado. Antes de partir, Bai Renshu riscou com sua barra de metal um enorme coração ao redor de seu amado e enquanto o fazia, ele dizia com a mesma entonação suave de alguém que estivesse contando uma historinha de ninar para uma criança:
— Era uma vez, um coração bem pequeno. Tão pequenino que distorceu-se e ocultou-se. Certo dia, ele encontrou o seu igual, a quem uniu-se, entregou-se e regenerou-se. E então, esse coração cresceu... cresceu tanto que bem gigante ele tornou-se! Mas tanto amor havia em seu interior, que ali dentro, bem espremidinho, só cabia a pessoa por quem esse coração apaixonou-se. Meu Ning era o seu nome; e foi com ele, que o sortudo dono desse coração casou-se.
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O Legado da Carne
FanfictionDois anos após tornar-se independente de Wei Wuxian, seu antigo mestre, o ainda temido e odiado "General Fantasma" tornou-se um andarilho solitário que vagava o mundo eliminando monstros e sobrevivendo humildemente de pequenas recompensas. Enquanto...
