Capítulo 21

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Bai Renshu limpou e cuidou das mãos de Wen Ning com o esmero que não dedicaria nem mesmo a si próprio. Embora os ferimentos fossem superficiais e Wen Ning não fosse um homem pouco acostumado a se ferir, ainda assim ele os tratou de maneira lenta e meticulosa, como se estivesse lidando com algo muito raro e de valor inestimável.
— Está pronto – o Bai disse ao terminar. — Vou descartar essa água suja lá fora.

Wen Ning levantou-se, uniu seus braços em forma de arco e fez uma reverência em agradecimento.
— Obrigado, Renshu.

Bai Renshu fez um aceno com a cabeça e saiu com a bacia.

O cultivador demorou-se lá fora.
Wen Ning ficou preocupado e decidiu ir atrás, mas quando estava prestes a sair, esbarrou-se com ele na porta.
O General ofereceu-lhe um doce sorriso, mas Bai Renshu retornou bastante taciturno e limitou-se a olhá-lo com tristeza. Sua aparência estava mais pálida e desalinhada do que antes e ele também parecia ter adquirido um pouco de olheiras.

— Renshu, está tudo bem? - perguntou o Wen, preocupado.

"Tão bem que eu adoraria despencar de um penhasco" – pensou o Bai, com grande sarcasmo e amargura.

O cultivador havia encontrado no chão uma poça de vômito e duas ranhuras profundas e desesperadas que faziam jus aos ferimentos nas mãos de Wen Ning. Ele ligou esse fato ao barulho que havia ouvido no exato momento em que estivera prestes a penetrar a garota e ao comportamento raivoso e transtornado que Wen Ning demonstrou e que destoava completamente de sua personalidade gentil e recatada. Desse modo, Bai Renshu obteve a dura consciência do sofrimento que havia causado na criatura mais pura e bondosa que ele tanto estimava.

— Eu não me importo em como eu esteja – respondeu o Bai. – O que me importa é: como você está?

— Eu estou bem – disse o General, erguendo as mãos e mostrando as ataduras com um sorriso inocente. — Graças ao meu querido amigo!

Vê-lo agindo de forma tão ingênua e pueril, como se nenhum mal tivesse lhe ocorrido, foi como lâmina afiada atravessando o peito de Bai Renshu. Ele lembrou-se do beijo singelo que recebeu sem merecer e se sentiu-se o mais sujo e vil de todos os seres.
Renshu se deu conta de que sentia tão intenso carinho e admiração por Wen Ning que sequer conseguiria expressá-los em palavras. Assim sendo, saber que ele próprio fora o algoz desse sofrimento, fez com que o cultivador sentisse uma dor moral que ele considerou pior até do que a morte.

Por mais que Bai Renshu estivesse se esforçando para manter suas emoções camufladas, o observador Wen Ning, parecia tornar-se mais apto a ler suas microexpressões a cada hora que se passava.
O General reparou no rosto do amigo e deixou escapar um suspiro cheio de pesar enquanto o observava.
— Renshu, me desculpa insistir, mas fala pra mim... você está bem? - perguntou o Wen, com evidente preocupação.

A princípio Renshu permanecera em estranho silêncio, mas depois subitamente espreguiçou-se, deu um longo bocejo e conseguiu atuar como se estivesse normal.
— Sim, claro! Só estou um pouco cansado porque alguém me agarrou e não me deixou dormir a noite passada – disse o Bai, evidenciando a palavra "alguém" em tom de brincadeira.

Wen Ning imaginou que Bai Renshu tivesse ficado bastante assustado ao notar seu coração disparar pela primeira vez, portanto ponderou que aquilo deveria ser verdade. Embora quisesse muito passar mais tempo ele, Wen Ning tentou ser compreensivo e lhe disse:
— Então que tal se eu for embora agora pra você poder descansar?

Ao ouvir isso, Bai Renshu imediatamente se agarrou às roupas de Wen Ning com os olhos suplicantes e uma expressão assustada.
Wen Ning gentilmente soltou as mãos dele de suas roupas, deu um beijo carinhoso em cada uma e lhe ofereceu um sorriso bondoso, dizendo:
— Não se preocupe, eu voltarei amanhã!

Com um sorriso triste, Bai Renshu afagou suavemente a bochecha de Wen Ning como forma de retribuir a delicadeza. Depois, afastou-se alguns passos, recostou-se na parede, encarou o amigo com um semblante deprimido e então disse em uma voz apática:
— Ning, você já se esqueceu? Não haverá amanhã...

Wen Ning recostou-se na parede ao lado dele com seus ombros se tocando. O General baixou a cabeça, fitou o chão e falou em um tom de voz baixo e chateado:
— Não é como se eu tivesse me esquecido... é mais como se eu não quisesse acreditar...

— Compreendo – o Bai se limitou a responder.

Os dois permaneceram em desolado silêncio com suas cabeças baixas. Com ambos colados, lado a lado, daquela maneira, seus dedos mindinhos eventualmente se procuravam e Wen Ning e Bai Renshu careceram de imensurável força de vontade para não cederem a vontade de se darem as mãos.

Após perderem vários minutos nesse estado calado e lamentável, foi Wen Ning quem decidiu quebrar o silêncio. Todavia, ambos conversaram o tempo todo cabisbaixos, com seus dedos ocasionalmente se tocando e seus olhos fitando nada mais do que o chão.

— Renshu... - chamou Wen Ning.
— Sim?
— Você tem certeza de que quer ir embora?
— Não é porque eu quero, Ning, e sim porque eu preciso.
— Entendi, mas... esse lugar pra onde você vai é muito longe?
— Sim, muito muito longe.
— Entendi. Mas... hum... mesmo sendo longe, se eu sentir... hum... saudade... de você... eu vou poder te visitar, não vou?
— Temo que isso não será possível, Ning.
— Por quê?
— Exatamente porque é muito longe.
— Mas Renshu, se você vai conseguir chegar lá, é sinal de que não é impossível, certo?
— Não, não é impossível...
— Então por que eu não vou poder te visitar?
— Porque é um lugar muito vasto, Ning. Então mesmo que você tentasse, você não conseguiria me encontrar.
— Nunca?
— Talvez um dia... se eu tiver sorte. Mas espero que esse dia demore muito pra chegar.
— Ah... certo... perdão...
— O que foi, Ning? Eu te chateei? Qual foi a grande imbecilidade que eu cometi dessa vez?
— Não... é que... bom... se você quer que demore... é porque não vai sentir minha falta, né? Não que você tenha a obrigação de se lembrar de mim ou algo do tipo...

Bai Renshu deu um suspiro consternado.
— Aí é que você se engana, Ning... Agora que eu me acostumei com você, eu provavelmente irei sentir a sua falta durante cada segundo do meu tempo.

Tímido, Wen Ning entrelaçou seus dedos mindinho e anelar nos mesmos dedos de Bai Renshu e virou o seu rosto enrubescido para o lado oposto ao que o cultivador estava, dizendo:
— Hum... já que é assim... você se importaria se eu... se eu fosse ju-junto com vo-você?

Bai Renshu não respondeu, mas entrelaçou todos os seus dedos nos de Wen Ning e a apertou sua mão de maneira angustiada.
Surpreso, Wen Ning virou-se para o cultivador e o viu ainda com cabeça abaixada.
Sem soltar a sua mão, o General posicionou-se de frente para ele e afastou carinhosamente os seus cabelos do rosto, mas assim que eles foram retirados, Bai Renshu virou o seu rosto bruscamente para o outro lado.
O General não precisou forçar que o cultivador o encarasse diretamente para compreender o que estava acontecendo. Pelo rosto vermelho, o barulho abafado, a expressão distorcida e o aperto angustiado que continuava sentir em sua mão, Wen Ning não teve dúvidas: Bai Renshu estava se esforçando para não se permitir chorar.


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