Capítulo 55

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Quando Wen Ning retornou, Bai Renshu estava deitado de costas, tirando um cochilo abraçado ao hanfu de seu amado. Seu semblante estava sereno e a linha entre seus lábios se curvava em um tênue sorriso, como se o cultivador estivesse desfrutando de um sonho agradável.

Wen Ning depositou as duas madeiras compridas num canto, ajeitou os peixes sobre fogo e colocou sobre uma pedra dois improvisados copos de bambu longos e grosseiros – em um ele trouxera bastante água e no outro, pequenas amoras e ameixas que havia encontrado pelo caminho.
O General sentou-se ao lado daquele homem e admirou a sua beleza. O cultivador se encontrava bastante desmazelado em sua roupa branca manchada de terra e sangue, mas isso não o tornava menos atraente ou desejável. Wen Ning observou aqueles lábios perfeitos com intensa vontade de beijá-los, mas não se atreveu a fazê-lo. Seus sentimentos eram recíprocos, ele tinha a certeza, mas se Bai Renshu preferia tê-lo apenas como um amigo, Wen Ning iria respeitar essa decisão. Ou pelo menos tentaria...

Afastando suavemente os cabelos de Bai Renshu para o lado, o General concluiu que a brincadeira de outrora devia tê-lo animado, já que as veias em seu pescoço estavam um pouco menos aparentes. Contudo, o progresso era mínimo e todo o avanço poderia ser facilmente desfeito ao menor descuido, o que significava que, por mais que a melhora no humor do cultivador pudesse atrasar um pouco o inevitável, para que seu amado parasse de sofrer os horrores do último estágio do Legado da Carne e estivesse fora de perigo, seria necessário uma medida bem mais efetiva.
Wen Ning deu um suspiro resignado e resolveu chamá-lo, mas quando tocou as mãos dele, o sonilóquio* cultivador murmurou:

— Ning, vem cá... Desse aqui você gosta? Não, moça, é pra mim mesmo, mas é que meu venerado é quem manda...

[*NT: pessoa que fala dormindo]

Wen Ning riu do que ouvira e disse em voz alta:
— Tão submisso assim, Bai Renshu? Seu venerado deve ser um cara de sorte.

Embora não tivesse sido capaz de distinguir as palavras, o familiar som daquela voz fora o suficiente para despertá-lo. Bai Renshu abriu os seus olhos lentamente e deu um bonito sorriso assim que reconheceu quem havia retornado. Ainda deitado, o homem colocou o hanfu de lado, espreguiçou-se, lançou a Wen Ning um olhar amoroso e ergueu os seus braços de um jeito terno e um tanto infantil, pedindo-lhe silenciosamente um abraço.

Wen Ning inclinou-se para abraçá-lo e foi ansiosamente puxado, o que fez com que ele se desequilibrasse e caísse desajeitadamente deitado sobre o ferido cultivador.

Bai Renshu pressionou os seus lábios e trancou a sua mandíbula para não emitir som algum, mas o sutil grunhido de dor que repercutiu de sua garganta não passou despercebido pelo General.

Wen Ning tentou levantar-se, mas foi prontamente impedido. O coração de Bai Renshu, como de praxe, ecoava com grande intensidade e ele, mais uma vez, também se recusava a soltá-lo.

— Nããão, fiiiica... - pediu o cultivador, com uma voz manhosa.
— Você está ferido, Renshu. Pra que você quer que alguém exerça peso sobre seus machucados?
— Eu não sei, mas a sensação é boa...

Wen Ning riu e então questionou:
— Boa? Desde quando você se tornou um masoquista?

"Desde quando eu resolvi me apaixonar por alguém com quem eu não posso ficar" – disse o Bai, apenas em pensamento. Entretanto, ele se limitou a responder:
— Não é masoquismo. É que te abraçar sentindo o peso do seu corpo é, sei lá... diferente. É agradável de um modo que eu ainda não havia experimentado. Mas tudo bem, é apenas besteira minha... você já pode se levantar.

Lembrando-se da vasta experiência de Bai Renshu no que concernia a relacionamentos amorosos e sentindo-se desconfortavelmente enciumado com isso, Wen Ning ergueu-se e se queixou:
— Até parece que você não está acostumado em sentir esse tipo de sensação.
— Eu não estou...
— Ah, conta outra!
— De verdade, eu não estou...
— Ah, tá bom que eu acredito! Vai me dizer agora que as pessoas com quem você já fez aquelas coisas nunca estiveram em cima de você?
— Estiveram, Ning... mas eu estou acostumado a sexo, não a carinho.

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora