Capítulo 39

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Wen Ning esquivou-se de um grupo de bêbados que brigava ruidosamente no salão e subiu apressadamente as escadarias. Ele bateu furiosamente à porta, mas, assim como da primeira vez que estivera naquele ambiente, a velha peça de madeira havia sido esquecida aberta por seu usuário senil.
O quarto não estava ocupado, mas o General não lamentou este fato. Em vez disso, ele aproveitaria o tempo disponível para recuperar o objeto que lhe pertencia, daria um susto e uma grande lição naquele médico e somente depois o levaria para ser julgado em Gusu.
Passando a revirar os pertences de Yan Quon à procura de seu estimado objeto, Wen Ning, encontrou um enorme baú escondido embaixo da cama.
Suficientemente zangado para não preocupar-se com boas maneiras, o General arrombou a pesada fechadura e foi surpreendido por uma visão perturbadora: além do objeto que ele procurava, Wen Ning também encontrou o seu próprio lenço vermelho com o bordado de um nabo, um conhecido traje negro que, embora estivesse lavado, continha uma perfuração na altura do abdômen e ainda cheirava a sangue misturado ao odor de Renshu, a espada que o próprio General havia trazido àquele quarto e milhares de páginas encadernadas, cujo conteúdo o que o deixara totalmente horrorizado.
Ao analisar aqueles papéis, Wen Ning encontrou um completo dossiê sobre vida de Bai Renshu, desde seus sete anos de idade, quando sua mãe morreu e ele passou a viver uma vida miserável e sem amor, tornando-se um excelente ladrãozinho e adquirindo, através da fuga diária, a habilidade de se tornar tão ágil e furtivo como ele havia se tornado; até os seus últimos dias, quando ele fora submetido à terríveis experimentos, perdera a sua consciência humana e já não conseguia mais reconhecer nem o próprio Yan Quon.

O doentio material era completo tanto em desenhos e informações que detalhavam sobre cada centímetro do corpo de Renshu, quanto sobre cada minúcia de sua vida particular. Todas as suas interações pessoais, com quem dormiu, com quem falou, por quem se atraiu, o que ele fez, por quem simpatizou, tudo, cada pormenor insignificante de sua existência, fora meticulosamente descrito de maneira sufocante e obcecada.

Wen Ning não dispunha de tempo e nem estômago para ler aquela infinidade de arquivos. As informações que ele descobriu eram tão chocantes que o deixaram intensamente nauseado. O simples fato de ler algumas páginas lhe causara tamanho asco que, como reação àquele ato doentio, o General literalmente acabou vomitando.
Instantes mais tarde, o som de passos se aproximaram da porta. o General empurrou o material para baixo da cama, escondeu-se nas sombras e então permaneceu à espreita.

Yan Quon entrou no quarto com as mãos sujas de sangue e, com tranquilidade, passou a lavá-las numa bacia, porém, tão logo notou a poça de vômito, ele lançou ao redor um olhar assustado. Diante da oportunidade perfeita, Wen Ning saiu do seu esconderijo e disse de forma ameaçadora:

— Olá, doutor. Sentiu saudades de mim?

O médico engoliu seco e recuou alguns passos. De costas para uma estante, Yan Quon escondeu as suas mãos para trás do corpo e tateou a prateleira mais baixa à procura de um objeto em específico.

— O que você está fazendo aqui? O susto que lhe dei já não foi o suficiente? - disse o homem de forma áspera, tentando desviar a atenção de Wen Ning.

Wen Ning, porém, notou as más intenções do médico e chutou o seu flanco direito, lançando aquele corpo violentamente para o outro lado do quarto. Caminhando lentamente na direção do médico, o General lhe disse:

— Pelo que li nas suas coisinhas, doutor, não era apenas um susto que você pretendia me dar. Você pretendia me torturar e testar os efeitos do Legado da Carne em meu corpo, antes de finalmente me matar...

O velho, atirado no chão, encarava Wen Ning com os olhos arregalados perante aquele ato de inesperada brutalidade. Percebendo seu atônito silêncio, o General continuou:
— Você me odeia, correto? Me odeia porque quando o MEU Renshu me conheceu e foi tratado com afeição genuína, você não conseguiu mais manipulá-lo com o seu jogo sujo. Você me odeia porque, apesar dos seus constantes esforços para impedi-lo de ser feliz, ele conseguiu encontrar quem o amasse de verdade. E acima de tudo, você me odeia porque sabe que ele me amou também, enquanto que para você, ele sequer dispensou alguma estima de verdade.

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora