"Yiling, ano 4.
'Vida minha, pare já com estas bobagens, o que fiz eu faria outras mil vezes e não admito que me digas que troquei a minha saúde pela companhia de uma aberração! Morto-vivo era eu, até um dia antes de conhecê-lo: um homem vazio de sonhos, de metas e de propósitos, que ainda atrevia-se a caminhar entre os vivos mesmo mantendo-me erguido sob nenhuma motivação(...)'
Querido Renshu, será que você ainda se lembra destas palavras? Você mesmo as disse para mim, quando manifestei o meu arrependimento em vê-lo abatido pelos seus ferimentos autoinfligidos, numa das inúmeras conversas que tivemos enquanto aguardávamos o cair da noite naquela caverna. Mas o que diria você, se descobrisse que estou me tornando este homem sem sonhos que ainda se atreve a caminhar? Que bronca você me daria, se eu lhe dissesse que toda a minha motivação em acordar, trabalhar, me alimentar, cultivar amizades e construir estes móveis, estão se esvaindo à medida de que cresce a minha convicção de que morrerei sem sequer ter reencontrado, mesmo que por um instante, a outra metade de mim que um dia eu tive a felicidade de abraçar?
Há tempos eu venho me perguntando sobre o porquê desses estranhos sentimentos e sensações que me invadem a mente e o corpo como se não me pertencessem, mas agora que me dei conta de que existem padrões e tenho uma vaga ideia da tragédia que pode realmente ter ocorrido, eu já não sei mais o que pensar.
Não existe dia correto, horário ou lugar, mas estes sentimentos e sensações me afligem entre uma e duas vezes na semana (às vezes um pouco mais, mas é raro), como se somente nessas horas eles pudessem me tocar. Nos momentos em que estou sozinho, o meu coração dispara tão violentamente quanto se eu fosse sofrer um infarto, mas quando estou acompanhado dos meus amigos, sinto emoções que em muito se opõem ao meu estado de espírito; quando estou em uma situação de perigo, sou invadido por um sentimento de terror e de urgência que vai se tornando gradativamente mais forte e mais perceptível à medida que o tempo passa, mas sempre que essa angústia chega ao seu ápice, sou milagrosamente auxiliado por acontecimentos misteriosos ou através da ajuda de terceiros; além de tudo isso, sempre na noite que sucede o aniversário de morte da minha irmã – um dia muito penoso para mim, diga-se de passagem –, tenho a impressão de sentir o seu toque, de ouvir a sua voz e todas as vezes sou recompensado por sonhos agradáveis e tranquilos, onde assumo papéis de reis, príncipes, aventureiros e corações falantes e tenho a oportunidade de vivenciar com você doces fábulas românticas.
Os sentimentos mais horríveis me acometem quando estou com o filho do mestre artesão. Eles variam entre o medo, a cólera e o desespero e vêm quase sempre acompanhados do estranho desejo de me atirar de um penhasco (e o porquê de ser um penhasco, eu também não sei dizer).
Lembra-se de minha segunda carta, onde eu mencionei pela primeira vez estas estranhas sensações? Pois bem. Certo dia, alguns meses antes de eu escrevê-la, meu amigo e eu nos distraíamos jogando algumas partidas de Go até tarde da noite. Era um momento tranquilo e de descontração em que ríamos e nos divertíamos na casa dele (que fica aos fundos da oficina de meu mestre de ofício, onde havíamos trabalhado o dia inteiro), mas subitamente fui acometido por sentimentos tão avassaladores de terror e desespero, que me senti literalmente como se o mundo inteiro fosse capaz de desmoronar sobre mim a qualquer instante. Meu amigo percebeu que eu estava muito pálido e inquieto, por isso tocou o meu rosto para verificar se eu estava com febre, mas em lugar de sentir-me grato pela atenção dispensada, como eu normalmente me sentiria, fui invadido pelo intenso desejo de esganá-lo e de decepar aquelas mãos. Apesar disso, com minha própria força de vontade, eu fui capaz de voltar à razão e de dominar estes estranhíssimos impulsos. Eu disse a ele que se tratava apenas de cansaço e que era melhor encerrarmos o jogo para que eu pudesse repousar em minha casa, porém meu amigo preocupou-se que eu ficasse sozinho no meio do nada (afinal, convenhamos... nenhum daqueles vizinhos distantes perceberia que eu preciso de ajuda se eu não conseguisse gritar a plenos pulmões) e insistiu muito que eu dormisse na casa dele aquela noite. Achei desnecessário, mas fiquei sem jeito de rejeitar aquela gentil insistência e então acabei concordando, mas no momento em que eu disse 'sim', um súbito terremoto fez tremer a casa inteira, fazendo com que vários móveis e objetos fossem derrubados. Eu ainda estava um tanto desnorteado com aquelas sensações conflitantes, por isso não vi a estante repleta de utensílios pesados que estava prestes a cair sobre minha pessoa. Tentando impedir que eu me machucasse, meu amigo lançou-se sobre mim e protegeu-me com o próprio corpo, ferindo-se no meu lugar. O terremoto imediatamente cessou, assim como a estranha fúria que eu estava sentindo. Me desesperei em acudir o meu amigo que havia desmaiado, mas felizmente ele não havia se machucado seriamente e logo despertou. Após eu ter feito nele alguns curativos, achei por bem ir embora para a minha própria casa, porque apesar de eu já ter me tranquilizado, tive uma crise de choro tão interminável quanto inexplicável e passei a noite inteira me debulhando em lágrimas, desejando intensamente me atirar de um penhasco e me sentindo impotente até mesmo em tirar a minha própria vida.
Anos mais tarde houve aquele flagrante, quando eu caí nu sobre este mesmo amigo. Não tive tempo de sentir nenhuma sensação porque fui nocauteado muito rapidamente, mas agora pergunto-me se o que fez aquele vizinho ser alertado não foram os meus gritos e sim alguma força sobrenatural que acabou subjugando-o. Afinal, quanto finalmente tive a coragem de voltar a encarar este meu amigo, eu descobri que fui o único a ser levado para a casa, enquanto que ele teve suas roupas arrancadas e queimadas e foi largado nu no mesmo lugar em que estava.
Querido Renshu, diante de tantas evidências estranhas, me sinto aterrorizado com o que possa ter lhe acontecido. Será que você realmente morreu e agora está cumprindo a sua promessa de me seguir para sempre, ainda que eu não possa vê-lo?
Não quero, não suporto, não aceito a ideia de que você tenha partido antes de mim, mas estou começando a ficar seriamente temeroso com todas estas infelizes coincidências. Por conta disso, peço que me perdoe se estou novamente agindo contra a sua vontade, mas eu decidi voltar a procurá-lo.
Eu sinto muito, Renshu, mas eu preciso de respostas e não desistirei enquanto eu não puder obtê-las. Prometo que desta vez eu não serei tão radical quanto da outra (procurando-o dia e noite, sem comer ou dormir, até que minha saúde se esgote), mas se eu não souber exatamente o que houve, temo que quando eu me for, nem mesmo a minha alma conseguirá sossegar.
Meu querido e amado Bai Renshu, encerro esta carta rezando com todas as minhas forças para que não seja necessário escrever outra no próximo ano – não porque você, eu, ou ambos já tenhamos partido deste mundo, mas sim porque minha Divindade Reluzente, que eu tanto almejo reencontrar, finalmente pôde retornar para os braços do seu apaixonado General Fortinho.
E lembre-se: eu te amo/amarei muito, sempre, onde quer que você esteja, mas por favor, esteja vivo.
Eternamente seu,
Wen Ning"
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O Legado da Carne
FanfictionDois anos após tornar-se independente de Wei Wuxian, seu antigo mestre, o ainda temido e odiado "General Fantasma" tornou-se um andarilho solitário que vagava o mundo eliminando monstros e sobrevivendo humildemente de pequenas recompensas. Enquanto...
