Cap. 108 - Pesadelos

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Um grito. Um rompante. Um estrondo. 

Entre portas de correr descarrilhadas e tombadas, um homem alto e ofegante pousou seus olhos sobre o indivíduo na poltrona e empalideceu como se houvesse vislumbrado a face da morte.

Trêmulo e aterrorizado, ele avançou em direção ao desfalecido General e o carregou até a cama como se levasse nos braços um verídico fantasma.

Ajoelhando-se diante do móvel, Bai Renshu revistou as roupas de Wen Ning à procura do leque que este último portava. Após encontrar o objeto, respirou profundamente a fim de dispersar a sua agitação e então pediu à criança:

— A-Lin, vá buscar a bacia de cobre que a sua tia me deu; traga-a já com água. Pegue também a primeira toalha limpa que encontrar. Sem correr! E cuidado pra não derrubar.

— Tá – a menina respondeu, e dirigindo um último olhar preocupado ao adulto desmaiado, tratou de ir fazer o que lhe fora ordenado.

Sentado no chão sobre os próprios calcanhares, Bai Renshu abanava Wen Ning tão compenetrado, que sequer reparou quando uma cesta cheia de ervas fora depositada ao seu lado.

Tão logo dispensou uma carranca ao abstraído homem que não notara a sua aproximação, Gao Lian tomou-lhe o leque da mão, utilizou o objeto para apontar para a cesta e disse em seu tom de sarcasmo:

— Sabe... eu acho um charme este seu hábito de esbugalhar os olhos e de repente sair correndo feito um pato assustado. Gosto especialmente quando você derruba tudo o que encontra pelo caminho ou quando me vejo obrigada a concluir alguma tarefa que você largou pela metade!

Angustiado pelo objeto, e não pelas palavras, Bai Renshu humildemente estendeu suas mãos e dirigiu à mulher um olhar de súplica.

Emitindo um suspiro resignado, Gao Lian abriu o leque e depois disse:

— Esquece, você precisará das duas mãos. Deixa que eu mesmo abano...

— Obrigado – ele respondeu, e após selecionar algumas ervas da cesta, as observou de sobrancelhas franzidas como se não compreendesse a magia de estarem molhadas.

Revirando seus olhos para cima, a mulher que abanava o General comentou:

— Isto chama-se água, Bai Renshu. Eu as lavei pra você, caso não tenha reparado.

Visivelmente desnorteado, ele posteriormente observou as gigantescas estantes que circundavam seu local de trabalho e suspirou como se lhe parecesse impossível transpô-las para pegar os utensílios de que necessitava.

Revirando novamente seus olhos, Gao Lian foi buscar um filtro de pano, um almofariz e um pilão. Ao retornar, ela rudemente os empurrou na direção de Bai Renshu e tornou a abanar Wen Ning, enquanto criticava:

— Me impressiona a maneira como um homem tão sabichão se torna um completo palerma quando se trata desse aí.

Bai Renshu depositou uma porção das ervas no almofariz e passou a triturá-las. Como se a concentração no trabalho o fizesse recuperar suas faculdades mentais, ele suspirou e respondeu:

— Me desculpe. Estou lutando para não desabar, mas vê-lo assim me deixa sem chão. Eu até tento não agir como um tolo, mas não é como se eu pudesse evitar...

— Se realmente tentasse, ao menos não faria aquele estardalhaço todo – reclamou a mulher. — Me diga: custava abrir as portas como uma pessoa normal? Se eu soubesse que você as empurraria com tamanha violência, eu jamais teria me dado ao trabalho de te ajudar a substituir as portas antigas pelas novas que esse aí fabricou.

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora