Cap. 96 - À beira do abismo e da loucura - parte III

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Ao ordenar que Wen Ning abrisse os olhos, a divindade explicou que sua tentativa de usá-lo para se conectar a Bai Renshu no plano astral havia sido um sucesso, mas que lamentavelmente o homem em questão já havia falecido.

Após pacientemente responder a uma enxurrada de questões que comprovaram a veracidade do contato, a deusa garantiu ao General que o cultivador não se sentia triste ou solitário, já que apesar da saudade, ele agora dispunha de sua doce mãe para apoiá-lo.

Inconsolável, Wen Ning perguntou como essa tragédia havia acontecido, ao passo que a divindade respondeu:

— Padeceu de uma maldição chamada Legado da Carne. Isso lhe diz alguma coisa?

— Diz muito – ele respondeu aos soluços.

— Por favor, acalme-se. Seu amigo agora está melhor do que antes, é isso o que importa – disse a deusa na tentativa de consolá-lo.

Aos prantos, Wen Ning limpava o rosto no cobertor enquanto falava:

— No fundo eu já esperava por isso. A-Yuan e os outros tentaram me alertar diversas vezes de que aquelas sensações não poderiam pertencer a este mundo, mas eu... eu só não queria acreditar...

A divindade fez menção de abraçá-lo, mas recuou. Em vez disso, ela apertou nervosamente as próprias mãos e tornou a pedir:

— Por favor, não fique assim...

Ainda entre lágrimas, Wen Ning respondeu:

— Como eu não poderia ficar? Eu só queria ajudar, mas fui um idiota e acabei apenas prolongando mais ainda o sofrimento dele! Era EU quem merecia ter passado por tudo isso, não ele! Era eu quem deveria ter morrido...

— N... – cof, cof – Wen Ning, não diga isso nem brincando! Ele tinha seus pecados, pagou por eles e agora está tudo bem. Não fique se culpando, as coisas são exatamente como devem ser.

— Então porque ele continua pagando por isto? Ele disse que está feliz, mas eu sei que não está. EU SINTO! Todas as vezes que ele se aproxima, eu posso sentir a sua tristeza e angústia.

— Wen Ning, ele apenas continua um pouco aflito pelo fato de você continuar a procurá-lo. Eu sei que é um pouco difícil ouvir isso, mas a única forma de a alma dele conseguir descansar em paz, é você deixar o passado para trás e esquecê-lo por completo.

Ciente de que o prejudicaria até na morte porque jamais seria capaz de esquecê-lo, Wen Ning chorou ainda mais alto.

— Por favor, por favor, não chore! Eu não aguento ver alguém chorando desse jeito – disse a divindade, enfim não resistindo e puxando-o para um abraço.

Wen Ning chorou nos braços dela por cerca de dez segundos, até que subitamente percebeu um importante detalhe:

— Espera! Por que é que eu não estou sentindo a senhora me abraçar?

Após soltá-lo, a divindade deu de ombros.

— Porque eu sou uma deusa, oras! Não sou um ser humano comum, sou um ser etéreo.

— Não, não – rebateu o Wen. — Agora que estou percebendo! Eu não sinto frio, calor, pressão ou cansaço... meus membros também deveriam estar bastante doloridos após eu ter nadado até a exaustão, mas ironicamente eu não sinto sequer algum desconforto! Eu não sinto o toque do cobertor, minhas lágrimas umedecendo o meu rosto ou o vento forte que chacoalha aquela janela. Eu acordei com a sensação de que eu não tinha peso, como se eu pairasse nas nuvens e agora percebo que eu não sinto nem mesmo os meus pés descalços tocarem o chão! O que diabos a senhora fez comigo?! Parece... parece que o sentido responsável pelas minhas sensações foi bloqueado!

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora