Cap. 9 - Pistas inconclusivas

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Horas se passaram e Bai Renshu ainda não havia retornado. Vencido pelo estômago que não parava de se queixar, Wen Ning se rendeu à fome e retornou à cozinha para finalmente comer sua comida.

"É uma pena que ele não tenha provado. Mesmo fria, estava muito gostosa..." - ele mentalmente se lamentou.

Wen Ning lavou o prato, o hashi e o cálice que havia sujado e voltou a se sentar diante da porta. O vinho não havia lhe caído bem e ele se sentia um tanto entorpecido e sonolento depois de tê-lo tomado.

Wen Ning nem notara que dormira, mas quando acordou na manhã seguinte, ele estava deitado sobre um futon com sua cabeça apoiada em um confortável travesseiro e coberto por uma colcha macia e felpuda. Ele se levantou em sobressalto e sentiu a sua cabeça latejar.

"Eu não deveria ter tomado aquele vinho"
– ele pensou – "Eu nem me lembro de ter procurado por uma cama e me deitado aqui, só me lembro de ter sonhado que eu estava abraçado a alguém".

Wen Ning procurou Bai Renshu pela casa, mas não havia sinais de que ele havia retornado. O prato dele permaneceu intacto e no segundo quarto de dormir que havia na casa, a porta parecia emperrada pelo desuso e não havia o menor sinal de que aquela cama velha e empoeirada tivesse sido utilizada.

"
Esse deve ter sido o quarto da mãe dele" – Wen Ning pensou, se sentindo culpado intromissão e voltando a fechar a porta.

Procurando pelos demais cômodos da casa, Wen Ning reparou que as velas sobre os móveis ainda permaneciam estranhamente longas e acesas. Como o sol já havia saído e aquela iluminação já não era necessária, o General as soprou uma a uma enquanto pensava: "Eu devo ter seguido o conselho dele de manter as velas acesas até o amanhecer, mas não me lembro de tê-las substituído também".

O General levou a mão à cabeça e massageou suas doloridas têmporas
.

"Ao menos preciso me lembrar de me manter bem longe daquele
vinho!" - ele pensou amargurado.

Voltando para a cozinha, ele saiu pela porta dos fundos e averiguou o exterior da casa. Nas dependências da residência, ele encontrou um poço artesiano com um balde de madeira amarrado em uma engenhoca mecânica que o fazia subir e descer através de uma manivela. Ao analisar esse balde, Wen Ning percebeu que ele ainda estava úmido e que, portanto, alguém o estivera usando recentemente. Ao lado desse poço, sobre um velho, grande e robusto tronco de árvore, cheio de marcas de machado, alguém havia depositado uma bacia de cobre preenchida com água tingida de vermelho.

"
Eu passei por uma amoreira a caminho daqui. Tomara que essa água tenha sido usada para lavar algumas amoras..." - ele pensou, tentando negar o mal pressentimento que apertava-lhe a garganta.

Procurando por mais pistas pelos arredores, Wen Ning encontrou, descartado no meio do mato, a vários metros do local onde ele estava, uma peça de roupa escura encharcada por um líquido espesso e viscoso. Ao levantar aquela peça e sentir um forte odor adocicado e metálico, Wen Ning sequer precisou checar suas mãos manchadas de vermelho para ter certeza de que aquilo era sangue.

— Bai Renshu, você está aqui? Você está ferido? Se você estiver por perto, por favor, apareça! - ele clamou apavorado, mas ninguém respondeu.

Wen Ning estendeu a peça e percebeu que aquela era a túnica interna de um traje masculino. Embora estivesse bastante ensanguentada, a peça estranhamente não continha fissuras ou marcas de perfurações.

— A pessoa não foi ferida? Então de quem é todo esse sangue? – ele se questionou, falando consigo mesmo.

O General perdeu algumas horas vasculhando os arredores na esperança de encontrar o dono daquela peça de roupa, mas tudo o que encontrou foi uma pilha de gravetos que alguém andara recolhendo e que depois havia abandonado.

Com medo do que todo aquele sangue poderia significar, mas sabendo ser inútil continuar a procurar, ele se esforçou em afastar os pensamentos ruins que lhe invadiram a mente e decidiu voltar à área central da cidade.

Wen Ning avistou a mesma barraca de pãezinhos cozidos no vapor em que havia estado no dia anterior e se dirigiu até ela. Mesmo com seu capuz devidamente ajustado, a dona da tenda reconheceu Wen Ning de imediato e lhe ofereceu o seu sorriso.

— Bom dia, senhor! Conseguiu encontrar o homem que procurava? - disse a mulher de feições simples, em sua habitual simpatia.

Wen Ning assentiu e comprou o seu desjejum com sua última moeda. Estava tão angustiado que até se esquecera de lhe sorrir de volta.

Enquanto ela recheava a massa com o ingrediente escolhido, o General aproveitou para questionar se ela havia visto ou ouvido alguém mencionar sobre alguma coisa estranha que pudesse ter acontecido recentemente na cidade.

— Coisas estranhas? Hm... - ela pensou por um momento e depois prosseguiu: — Ouvi dizer que o médico do vilarejo está desaparecido.

— Há quanto tempo ele desapareceu? — perguntou o Wen.

A vendedora realizou um dar de ombros indicando não saber essa informação, mas disse em seguida:

— Se o senhor estiver disposto, por que não tenta verificar se ele já voltou para a casa? O local é um pouco distante, mas é bem fácil de encontrar. Basta alcançar o final desta rua e seguir o fluxo de pessoas doentes e estropiadas. Yan Quon é muito famoso por seus talentos, então eles continuam indo até lá, mesmo quando o médico não se encontra...

Wen Ning agradeceu pelas informações, recolheu seu pãozinho e seguiu mordiscando-o enquanto caminhava até o local que a vendedora havia indicado.

O General se espremeu entre o intenso fluxo de pessoas e encontrou uma multidão de doentes, mutilados e feridos acumulando-se diante de portões fechados.

Algumas dessas pessoas, as que apresentavam melhor estado, pareciam bastante furiosas. Elas batiam violentamente na porta, vociferavam palavras pouco educadas e exigiam ser atendidas.

Wen Ning se aproximou dos doentes e tentou obter algumas respostas.

— Com Licença, o que está acontecendo aqui? - ele timidamente perguntou.

Alguns dos doentes estavam doloridos ou debilitados demais para se incomodar com a pergunta de Wen Ning. Já outros, estavam prestando atenção na confusão que havia se instaurado na frente dos portões e sequer puderam ouvir aquela tímida pergunta. Todavia, uma mulher chorosa, de vestes simplórias e com um filho pequeno no colo, humildemente se aproximou de Wen Ning e disse:

— Muitos de nós viemos de muito longe, mas o médico não responde aos nossos clamores.... Não sabemos se ele não está aí dentro ou se não deseja mais nos atender.

— Você sabe me dizer se o médico contraiu alguma doença?

— Eu acredito que não. Pelo que eu ouvi dizer, ele estava muito bem há três dias, quando saiu para atender um chamado, mas desde então, ninguém mais o viu.

— Entendo... muito obrigado.

Wen Ning se afastou da mulher sentindo o seu coração se apertar.

"Três dias... "
 - ele refletiu - "Se eu contar com o dia de hoje, também faz três dias que eu tentei examinar o quarto em que o médico estava hospedado e Bai Renshu me impediu. E hoje de manhã também havia todo aquele sangue... "

Wen Ning observou aquela legião de doentes e lembrou-se da mulher lhe dizendo que muitos deles vieram de longe. Ele continuou refletindo:

"Um médico é a pessoa mais adequada para acabar com uma doença.
Esse, em especial, parece muito capacitado e famoso. E se... e se Bai Renshu for o grande responsável por trás dessa doença? E se ele estiver eliminando os responsáveis por tentar evitar que a doença se dissemine? Será por isso que ele ficou tão irritado quando eu insisti em investigar? Bai Renshu tem muita lábia e sabe mexer com as emoções alheias para conseguir o que deseja. Será que... será que esse tempo todo ele só esteve me confundindo para eu baixasse a minha guarda, porque sabia que não superaria a minha força em um combate direto? Será que ele também está tentando me matar?"

Wen Ning se sentiu tão triste e iludido, que esteve próximo de não conseguir evitar que uma lágrima lhe escapasse, mas felizmente conseguiu se conter. Ele não queria pensar aquelas coisas de Bai Renshu, mas aquelas dúvidas estavam lhe angustiando de tal maneira, que ele mal podia suportar.

O General cerrou seus punhos, lançou um olhar decidido em direção àqueles muros altos e procurou por alguma maneira de os escalar. Ele precisava entrar naquela casa e encontrar as respostas que precisava, pois do contrário não conseguiria sossegar.


O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora