Cap. 105 - Velhos hábitos

74 12 18
                                        


No momento em que recolocou Wen Ning no chão e se deu conta de que sequer usufruiu da rara oportunidade de ter seu amado nos braços, Bai Renshu sentiu-se um grande idiota. Preocupado em encontrar uma maneira plausível de evitar o desastroso confronto entre o Wen e sua família, o cultivador se manteve mentalmente distante durante todo o trajeto.

Bai Renshu, que mesmo depois de muito ponderar, não conseguiu chegar a resolução alguma; conformou-se em deixar que as coisas fluíssem naturalmente e dirigiu-se até a árvore favorita de seu pomar. Ao seu lado esquerdo, uma estufa mantinha sadias e protegidas as principais matérias-primas de seus chás e elixires; ao fundo, em contraste com o grandioso terreno cercado por muros altos, uma minúscula moradia destacava-se com suas luminárias acesas.

— Adquiri este lote só por causa desta ameixeira – discursava Bai Renshu, enquanto colhia duas ameixas tenras e suculentas. — Seus frutos me remetem ao passado e me trazem uma vaga sensação de alegria, ainda que apenas ilusória.

Após limpar o maior dos frutos com grande esmero, Bai Renshu o estendeu na direção de seu amado com o sorriso ansioso de alguém que pretendia sinceramente agradá-lo. Entretanto, temendo chorar diante da gustativa lembrança de um beijo que não mais se concretizaria, Wen Ning achou melhor recusar.

Após emitir um longo e pesaroso suspiro, o cabisbaixo cultivador deixou que a maior das frutas rolasse de sua mão para o chão e languidamente respondeu:

— Há outras frutas, se lhe aprouver... Basta meu venerado apontar, que irei apanhá-la...

— Obrigado, Renshu, mas eu prefiro evitar associar o sabor de alguma outra fruta a uma nova lembrança sua. Mesmo porque, isto seria desnecessário, pois eu não estou com fome alguma.

— Eu também não estou com fome – confidenciou Bai Renshu, encarando o menor fruto após um novo suspiro. — Especialmente depois de saber que minha lembrança mais doce lhe parece tão amarga.

— Então por que se dignar comê-la? Me desculpe a franqueza, mas depois de ter passado tanto tempo comigo, não é como se a sua tola "promessa de dedinho" fosse fazer alguma diferença.

— Não importa se parece tola e tampouco o tempo que se passou, o importante é honrá-la e cumpri-la. Pois ao menos para mim, Wen Ning, cada promessa proferida é como me envolver em uma dívida.

Depois desta pequena alfinetada a respeito do passado, Wen Ning engoliu em seco e resolveu se calar.

Concluída a pequena refeição, Bai Renshu atirou o caroço da fruta para longe e subitamente ajoelhou-se. Motivado pelo sabor que sentira, ele olhou nos olhos de Wen Ning, tomou as mãos dele nas suas e mais uma vez, decidiu tentar:

— Vida minha, independente de nossas escolhas e erros, eu ainda espero por uma resposta sua. Pela segunda vez, na verdade, mas não é como se você estivesse em condições de me responder na primeira...

Puxando de volta as próprias mãos, Wen Ning franziu suas sobrancelhas em estranhamento e questionou:

— Ué... Que resposta?

— Venerado, será que você já se esqueceu do que eu gritei?

— Err... sei que disse que me amava, mas não é como se eu tivesse prestado atenção em tudo com aquele monte de guardas se aproximando...

— Ah...

Bai Renshu emitiu um suspiro conformado e voltou a erguer-se.

"Talvez seja melhor assim" – ele ponderou – "provavelmente me abalaria a recusa, mesmo ciente de que ele não aceitaria se casar".

Curioso, Wen Ning perguntou:

— Mas do que se trata?

— Nada... deixa pra lá.

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora