Bai Renshu ficara branco como a neve e Wen Ning, vermelho como brasa. Um escancarara seus olhos de maneira tensa, como se fosse um grande criminoso flagrado na cena de seu crime, enquanto o outro olhava para o chão com seus olhos semicerrados como se tivesse se deparado com algo indecoroso demais para ser observado.
Embora suas reações fossem bastante antagônicas, suas emoções mantinham-se em total harmonia: ambos sentiam-se estranhamente reconfortados ao som das palavras "casamento" ou "casados" e experienciavam secreto prazer em pronunciá-las, como se através disso, pudessem sinalizar o sentimento de que pertenciam um ao outro. Entretanto, os dois tolamente temiam como o outro pudesse se sentir a respeito e, portanto, nenhum dos dois ousou dizê-las novamente.
Passado o choque inicial, Bai Renshu virou-se de costas, franziu o cenho e remoeu em pensamento: "Mas que traidorzinho mais mequetrefe! Eu lhe dei uma fortuna em moedas e é assim que aquele fofoqueirinho de uma figa me agradece?"
Engolindo em seco devido a grande tensão que sentia, o cultivador respirou fundo, reuniu sua coragem e então virou-se para encarar o General. Abrindo um sorriso falsamente despreocupado, Bai Renshu lhe disse:
— Tsc, tsc! As crianças têm uma imaginação muito fértil. Você não deveria prestar muita atenção no que elas dizem.
Wen Ning segurou suas mãos atrás das costas e andou duas vezes de uma extremidade à outra, como se estivesse pensativo.
Enquanto lentamente caminhava, o General também dizia:
— Hum...Então a parte sobre que eu me alimentar e carregar sempre uma tocha também era uma bobagem? Entendi...
Bai Renshu arregalou os olhos e falou exasperado:
— Não! Essa parte não!
Wen Ning parou de caminhar, voltou-se na direção de Bai Renshu e lhe disse com cínica inocência:
— Ah é? Mas isso é muito complicado de se entender... Qual seria a diferença entre uma parte e outra?
Bai Renshu era ótimo em oratória e estava muito habituado a ter sempre uma resposta pronta na ponta da língua, entretanto, o tímido homem à sua frente conhecia tão bem os seus pontos fracos que era capaz de exercer verdadeiro domínio sobre ele quando realmente queria.
Conseguindo deixá-lo ansioso e perturbado a ponto de ficar sem palavras, o General precisou conter o tênue sorriso satisfeito que se formara em seus lábios ao ver o articulado cultivador responder numa fala tola e afobada.
— A diferença é... é... é... É que essa parte é verdade e a outra parte não é verdade, oras! - disse o cultivador enquanto limpava o suor frio que escorria de suas têmporas.
Wen Ning pousou a mão sobre o queixo e lhe disse:
— Tem certeza? Porque foi uma situação bem estranha, sabe? Eu estava falando de maneira bastante íntima com uma pessoa que considero adorável e excepcionalmente bonita e aí, de repente, um garotinho me interrompeu e me contou todas essas coisas...
"No caso, a pessoa adorável e excepcionalmente bonita era você e foi de maneira íntima porque eu estava conversando internamente, mas você não precisa saber dessa parte..." - pensou Wen Ning, virando-se de costas e deixando escapar um sorrisinho travesso.
De repente, Wen Ning escutou um forte baque que o fez voltar-se rapidamente naquela direção.
— RENSHU?! - chamou o desesperado Wen, correndo para acudir o homem que estava estirado no chão.
O cultivador encarava o teto da caverna com seus olhos sem vida, pálido e abúlico como se sua alma tivesse abandonado o seu corpo.
— Renshu! Renshu! - chamava o Wen, quase chorando. — Renshu, por favor, me responde! Aconteceu alguma coisa? Dói em algum lugar?
De repente, o homem semidesacordado agarrou o pulso de Wen Ning e depositou a mão dele sobre o seu peito. Após simplesmente largar a mão do General lá, o cultivador deixou que seu próprio braço despencasse como se ele tivesse perdido completamente as suas energias.
Wen Ning sentiu certo arrepio ao tocar aquele peito desnudo, mas desta vez ele não corou. Afinal, naquele momento a sua preocupação era maior do que qualquer vergonha.
— O que tem aí? Está doendo? - perguntou o angustiado Wen, mas o homem permaneceu letárgico.
— Renshu, eu estou desesperadamente preocupado! Se você me ouve, por favor, tenha piedade de mim... me diga alguma coisa! - insistiu o General.
Diante da súplica daquele ser que tanto estimava, o homem finalmente reagiu e falou em sua voz fraca e abatida:
— Não bate mais...
Wen Ning levou a mão ao peito e respirou aliviado ao constatar que a consciência de seu amado ainda não se perdera.
— É claro que está batendo, Renshu! Veja, sinta aqui... - disse o General, pegando a mão do cultivador e colocando-a sobre o próprio peito dele.
Bai Renshu deixou sua mão inerte cair novamente para o lado e disse na mesma voz fraca e abatida:
— Não bate... o frio toque da morte já o ceifou...
— Céus, Renshu! O que há com você? - disse o perplexo General, sentindo até um calafrio diante de uma fala tão mórbida.
— Não há mais nada... apenas o vazio e a escuridão... - respondeu o homem abatido.
Wen Ning deu um suspiro um pouco impaciente e lhe disse:
— Ah é? E o que acontece se eu fizer isso?
Deitando-se ao lado do cultivador, o General lhe deu um beijo na altura do coração, recostou sua cabeça sobre o peito dele e romanticamente o abraçou. Ele esperava ouvir o coração de Bai Renshu entrar em colapso com tais atos, mas o único coração que sentiu acelerar foi o seu.
Vários minutos mais tarde, sem obter nenhuma reação da parte do outro, Wen Ning reergueu-se e ponderou com assombro:
"Ele não está brincando mesmo! O que será que ele tem?"
Quase como se pudesse ouvir os pensamentos de Wen Ning, a voz apática respondeu:
— Eu disse... não bate mais... estou morto... mortos não brincam...
Wen Ning deu nele um tapa bem fraquinho no braço e reclamou:
— Para de falar assim, Bai Renshu! Me dá até uma certa agonia ouvir você falando tanto de morte.
Bai Renshu fez uma expressão magoada, encolheu-se em posição fetal e respondeu:
— Se eu sou tão desagradável assim, largue meus restos mortais aqui e vá de uma vez para os braços adoráveis e excepcionalmente bonitos da pessoa que você tem tanta intimidade...
Wen Ning revirou os seus olhos para cima e pensou abismado: "Então ISSO é o motivo desse dramalhão todo?"
Wen Ning segurou Bai Renshu pelos ombros e pela parte posterior dos joelhos e ergueu aquele grande homem em seus braços. Bai Renshu permaneceu desfalecido, com seu olhar indiferente voltado para o teto e perguntou em sua voz lenta e apática:
— Você está indo enterrar o meu esqueleto carcomido?
Wen Ning respondeu enquanto o carregava de volta até a jaula:
— Não. Está frio e alguém aqui está tremendo. Estou indo colocar de volta as roupas no "defunto".
— Apenas me largue no chão e deixe que minha carne pútrida seja vestida por larvas...
Wen Ning o acomodou cuidadosamente sentado num canto da cela e recolheu as roupas dele do chão enquanto dizia:
— Meu Deus, Renshu! Quem imaginaria que um homem desse tamanho pudesse ser tão dramático!
O corpo inerte de Bai Renshu escorregou para o lado, caiu todo desengonçado com o traseiro de fora e permaneceu, como um morto, na posição em que estava.
Quando Wen Ning reergueu-se com as roupas em mãos e voltou a virar-se na direção de seu amigo, o General não aguentou e começou a rir ao vê-lo pateticamente largado naquela posição engraçada.
Ainda jogado naquela mesma pose como se fosse incapaz de mexer-se sozinho, o cultivador se queixou em sua voz apática:
— Você está rindo... se regozijando sobre o meu sofrimento e rindo... você me odeia muito, eu sabia... vai sapatear sobre o meu caixão e urinar sobre meu túmulo e depois dançar com o meu cadáver... eu sempre soube...
Wen Ning sentou-se no chão, puxou Bai Renshu para perto e agora lutava para enfiar de volta a túnica naquele corpo inerte enquanto achava cada vez mais graça daquele drama incoerente.
— Eu vou dançar com o seu cadáver só depois que eu te enterrar no seu túmulo? Não seria melhor fazer isso antes? - ele perguntou entre risos.
— Tanto faz... você me odeia, então é o que fará...
— Mas eu não odeio você, eu amo você.
Bai Renshu ergueu-se de súbito, encarou o General com seus olhos arregalados e questionou em total perplexidade:
— VOCÊ O QUÊ?!
— Ah! Agora o cadáver se levantou, é? Não se preocupe, eu só disse isso pra ver se o defunto ressuscitava.
"E também porque é verdade"- pensou Wen Ning, levemente corando.
Irritado, Bai Renshu tomou rudemente as roupas da mão de Wen Ning e passou a vestir-se sozinho, emburrado feito uma criança.
Ao terminar, ele desamarrou o hanfu de Wen Ning da cintura, sentou-se no chão e o atirou na cara de seu dono.
Wen Ning retirou o traje do rosto, ajeitou-se sentado com as pernas esticadas e disse em tom de zombaria:
— O que foi, "marido"? Por que está tão zangado? Quer que eu lhe dê um beijinho pra passar?
Em um rápido movimento, Bai Renshu avançou sobre Wen Ning e o empurrou pelo peito, forçando-o a deitar-se de costas no chão. Ele montou sobre o abdômen do outro, segurou os dois pulsos do General contra o solo e o encarou com seus olhos flamejantes, repletos de fúria e desejo.
— E se eu quiser? - perguntou o Bai, de forma hostil e ameaçadora. — E se eu lhe mostrasse que eu poderia facilmente te desacordar, te incapacitar, te paralisar ou te desnortear e lhe tomasse aqui e agora?
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O Legado da Carne
Fiksi PenggemarDois anos após tornar-se independente de Wei Wuxian, seu antigo mestre, o ainda temido e odiado "General Fantasma" tornou-se um andarilho solitário que vagava o mundo eliminando monstros e sobrevivendo humildemente de pequenas recompensas. Enquanto...
