"Após a morte de Meirong, tentei me tornar alguém melhor – ou, ao menos, alguém menos desprezível. Busquei abrigo em diferentes seitas, não apenas na esperança de me redimir, mas porque, no fundo, ainda alimentava um desejo infantil: pertencer a algum lugar. Queria ser útil, ser reconhecido; ter um propósito que não se esgotasse ao fim de cada prazer efêmero. No entanto, por causa do estrangeiro que abandonara minha mãe com um filho no ventre, minha aparência destoante provocava reações imediatas.
Onde quer que eu fosse, minha origem mestiça despertava hostilidade, desconfiança, repulsa e ódio, assim como desejo e inveja. Anciãos não hesitavam em me insultar, como se a mera convivência com uma raça impura fosse uma afronta aos bons costumes. Adultos lançavam-me olhares objetificantes, incapazes de dissimular a atração pelo raro e o fascínio pelo proibido. Adolescentes e crianças zombavam, lançavam pedras, pregavam peças e responsabilizavam-me por quaisquer erros que tivessem cometido.
Em meio a esse cenário, jamais me atrevi a bater às portas das seitas principais. Faltava-me tudo o que exigiam: nome, linhagem, mérito e honra. Além disso, eu já não era novo o bastante para ser iniciado, nem velho o suficiente para ser levado a sério.
Tentei, então, as seitas menores, as menos prestigiadas – tantas que me faltam dedos para contar. Mas, por razões distintas e raramente justas, eu nunca era admitido. Com o tempo, fui forçado a aceitar que aquilo não era um caminho – apenas mais uma porta estreita demais para que alguém como eu pudesse atravessar.
Ainda assim, observar os treinamentos despertou em mim um interesse genuíno. As técnicas, as posturas, os movimentos fluidos – havia algo de hipnótico em tudo aquilo. E, se eu não podia desfrutar dos mesmos privilégios daqueles jovens bem-nascidos, então encontraria outro meio de alcançá-los. Um que me permitisse ser como eles, ainda que pelas margens.
Inspirado pela rebeldia da adolescência, tingi os cabelos de negro e retornei a alguns dos lugares onde havia sido recusado. Escolhi aqueles onde sabia haver alguma chance – e me dediquei a seduzir os mestres cujas intenções transbordavam no olhar, apesar dos gestos contidos.
Eu ansiava pelo conhecimento que me fora negado, mas foi apenas ao requerê-lo entre sussurros, gemidos e a umidade dos lençóis desfeitos que esse desejo, enfim, me foi concedido. Contudo, ao trilhar atalhos que me afastavam de minha própria natureza, deixei-me envolver por uma sensação de poder tão embriagante que se impôs como um vício. E assim, já desfigurado em minha essência, revi-me preso à mesma vida degradante que tentei deixar para trás.
O tempo passou e, com ele, meu entusiasmo juvenil pelos combates. Tornei-me um adulto habilidoso, com uma espada espiritual à cintura – usada mais como adereço do que por real necessidade. Minha lábia, afinal, era a arma mais eficiente ao meu dispor. Raramente recorria à Mìngyùn, salvo quando maridos traídos, desprovidos da inclinação necessária para aceitar a reparação que lhes propunha, me forçavam a recorrer à lâmina para mantê-los à distância.
Foi numa dessas paradas sem importância, num vilarejo qualquer, que notei um homem alto e bem-apessoado a me observar. Diferente dos demais, seus olhos não percorriam meu corpo – estavam fixos em minha espada. Intrigado, esbocei um sorriso oblíquo e fui ao seu encontro.
— Ou é um caçador de tesouros audacioso, ou não tem o hábito de cortar as próprias mangas – provoquei.
Ele riu, perguntando se aquela espada suntuosa era apenas decorativa. Respondi que não e acrescentei que, caso estivesse disposto a apresentar a dele, eu poderia demonstrar minha perícia em manejar duas lâminas.
O comentário lhe arrancou outra risada. Respondeu que sua espada preferia bainhas e que tinha idade para ser meu pai, mas que, sim, estava curioso – não sobre meu desempenho ambíguo, e sim sobre minha habilidade literal como espadachim.
Eu era hábil, ágil, gracioso. Treinei com diversos mestres, aprendi estilos variados, adaptei técnicas e superei a todos com elegância, leveza e precisão. Confiante, propus-lhe um duelo amistoso – não por real interesse, mas porque era vaidoso demais para desperdiçar a chance de me exibir.
Nos dirigimos a um local mais apropriado, mas bastaram poucos movimentos e toques em pontos que eu jamais imaginara vulneráveis para que a energia espiritual, emanada do meu núcleo dourado, fosse selada antes mesmo que eu pudesse reagir. Sem ela, minhas habilidades tornaram-se risíveis. E como se não bastasse a vergonha de parecer um iniciante, ele ainda suprimiu a própria energia – e me derrotou apenas com a destreza das mãos.
Embainhou a espada, estendeu-me a mão e desfez sua técnica com a naturalidade de quem desata o nó da roupa para se trocar. Sorriu, reverenciou-me como a um velho conhecido e disse que precisava partir. Foi embora assim – educado, sereno – enquanto eu permanecia ali, confuso em meio aos cacos do meu ego estilhaçado.
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O Legado da Carne
FanfictionDois anos após tornar-se independente de Wei Wuxian, seu antigo mestre, o ainda temido e odiado "General Fantasma" tornou-se um andarilho solitário que vagava o mundo eliminando monstros e sobrevivendo humildemente de pequenas recompensas. Enquanto...
