Capítulo 48

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Após um intenso estrondo, Wen Ning retornou à caverna equilibrando nos braços vários pedaços de uma árvore grosseiramente arrebentada e segurando nas mãos dois peixes limpos espetados em firmes gravetos. Ele ajeitou as madeiras próximas da jaula, as acendeu com o resquício da tocha que quase se extinguia, ajeitou os gravetos com os peixes espetados próximos ao fogo e disse ao homem enclausurado:
— Chegue mais perto, Renshu. Deste lado está mais quentinho...

— Obrigado, eu irei daqui a pouco – respondeu uma voz desanimada.

O homem havia vestido o hanfu de Wen Ning e mantinha-se na extremidade mais escura da cela, abraçado às próprias pernas com o rosto lateralmente apoiado no joelho. Encolhido naquela posição, sua aparência parecia frágil e desalentada.
Wen Ning agarrou-se às barras de ferro e apoiou seu rosto entre as mesmas. De uma maneira bastante chateada, ele disse ao cultivador:

— Renshu, me desculpa por ser tão egoísta e tirar o seu livre arbítrio. Eu também não sou perfeito...

Mantendo-se naquela pose, Bai Renshu respondeu no mesmo tom de desânimo:
— Pra mim você é. Ou é quase... porque peca apenas pela sua ingenuidade.

— Por que você acha isso? 

Bai Renshu deu um languido suspiro, ergueu e apoiou sua cabeça nas grades, mirou seus olhos para o nada e disse em sua voz apática:
— Ning, esses ferimentos externos que encharcaram minhas roupas e ataduras de sangue, eles não são os únicos... Eu não vou entrar em detalhes, mas eu já danifiquei muito o meu corpo internamente. Bastaria eu fazer isso mais uma vez que, debilitado como estou, eu dificilmente sobreviveria.

— Você está falando sobre a onda espiritual que você usava para desanuviar a sua mente e conseguir permanecer mais tempo comigo?

O cultivador encarou as chamas e disse em um tom obscuro:
— Então você sabia...

— Naquele momento não, mas eu soube mais tarde. E depois de você ter se preocupado em me deixar um lar, de ter orientado um garoto a me alimentar, me trazer uma tocha e a me tratar com gentileza e de tantos outros pequenos e grandes gestos em que eu comecei a descobrir e a reparar a seu respeito, eu soube também que sua consideração por mim é tão bonita e genuína, que se você puder fazer algo para minimizar o meu sofrimento, você certamente o fará. Desse modo, eu também sei que você se esforçará até o seu limite pra tentar fazer o que deseja bem distante dos meus olhos, porque você sempre pensa em tudo, é adoravelmente atencioso e não quer que eu me desespere ou me traumatize ao te encontrar.

— Certo, eu retiro totalmente o que eu disse... VOCÊ NÃO É NADA INGÊNUO! É somente um grande cretino, por saber de toda a estima que lhe tendo e ainda ter a coragem de usar isso contra mim!

Ainda agarrado à jaula, o General respondeu aflito:
— Você não está errado, eu sei que eu estou sendo um cretino ao agir assim. Mas não é uma questão de coragem, e sim de desespero!
Com seu rosto ainda apoiado entre as barras, Wen Ning desviou os seu olhar para o chão e adicionou com a voz baixa e desolada:
— Renshu, este grande cretino te adora e ele sinceramente pede o seu perdão por não se sentir mais capaz de viver longe de você...

Bai Renshu levantou-se, aproximou-se e acariciou suavemente aquele rosto entristecido com o dorso de sua mão. Com um sorriso triste, ele disse ao General:
— Está perdoado, porque este grande idiota também te adora e ele não tem dúvidas de que faria a mesma coisa se estivesse no seu lugar.

Quando Wen Ning ergueu seus olhos, ele surpreendeu-se ao ver Bai Renshu com o rosto vermelho e seus olhos bastante inchados. Em vista disso, o General perguntou preocupado:
— Renshu, por que seu rosto está desse jeito? Você andou chorando enquanto eu estive fora?

O cultivador recuou alguns passos, virou seu rosto e sua expressão tornou-se sombria.
— Eu não quero falar sobre isso – ele respondeu de forma soturna e incisiva.

Wen Ning deu um triste suspiro e desapoiou-se da jaula. Afastando-se alguns passos, ele lhe disse:
— Está bem, eu irei respeitar. Então, eu... vou buscar a água. O rio que cruzei para chegar até aqui é bastante límpido, mas eu não consegui trazer tudo de uma vez.

Bai Renshu reaproximou-se, pousou os seus pulsos em uma das barras horizontais e um dos cantos de seus lábios ergueu-se, transformando-se num sorrisinho de malícia.

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora