Wen Ning tornou a ler aquele testamento uma, duas, três... quatorze vezes seguidas. E apesar de sua dificuldade em acreditar no que seus olhos viam, todas as leituras lhe trouxeram o mesmo veredicto: Bai Renshu havia partido com a deliberada intenção de tirar a própria vida.
A dor, a culpa, o arrependimento e o sentimento de revolta fizeram com que Wen Ning ficasse extremamente transtornado e sucumbisse em fúria. A ciência de que seu estimado amigo havia se suicidado sem que ele tivesse tomado alguma providência para tentar impedi-lo, causou-lhe um impacto tão violento que toda a ferocidade que havia no abismo mais profundo de seu âmago, foi novamente reacendida.
O General perdeu o domínio sobre si mesmo e tornou-se incontrolável. Suas pupilas desapareceram, tornando seus olhos tão brancos quanto o vazio que ele sentia. Sua expressão, outrora assustada, transfigurou-se em uma máscara de sofrimento e cólera.
O General Fantasma gritou. Ele gritou enraivecido, esmurrando, atirando, estraçalhando tudo o que encontrou pela frente.
Em meio ao caos e destruição que tornou-se aquele quarto de banho, um único móvel ainda restava: a robusta cômoda em que os pergaminhos estavam. Com único golpe, o General Fantasma foi capaz de partir a madeira maciça em pedaços, o que fez com que todas as roupas, joias e objetos pessoais de Bai Renshu se espalhassem pelo chão. Enfurecido, o General Fantasma agarrou uma túnica negra, a ergueu acima da cabeça e, com um brado forte e colérico, rasgou-a ao meio.
O tecido rompido caiu com suavidade sobre o rosto do General Fantasma, fazendo com que o cheiro natural de seu dono, atingisse as suas narinas.
A familiaridade daquele odor sutilmente doce e almiscarado que Wen Ning tanto adorava, atordoou o General Fantasma e o deixou em letargia. A fragrância oriunda da pessoa que ele amava trouxe-lhe sensações de ternura e reconforto, devolvendo àquela mente torturada pequenos flashes de memória.
Aos poucos, a fúria em seu coração deu lugar ao afeto que sentia e tanto o comportamento, quanto os olhos do General, voltaram gradualmente a se normalizar.
Wen Ning, agora pacificado, abraçou ambas as partes da peça de roupa rasgada e caiu em prantos.
Toda aquela conversa sobre ir embora para longe e oferecer a sua casa, a relutância em deixar Wen Ning acompanhá-lo, o fato dele quase chorar quando Wen Ning pediu para ir junto com ele, a palidez, o abatimento, o sangue expelido, os surtos de raiva que depois desapareciam, a febre, a rigidez nas pernas, o remédio faltando na casa de Yan Quon e o frasco parecido nas mãos de Bai Renshu, o relatório dizendo que o fármaco trazia resultados, a afirmação sobre querer passar o máximo de tempo possível com Wen Ning e o desespero em impedir que o General fosse embora, a promessa de segui-lo para sempre em lugar de afirmar que voltaria para a casa... tudo, cada detalhe, passou a fazer sentido. E então, a resposta tornou-se óbvia: Bai Renshu estava doente e fez o que fez porque queria polpar e proteger a pessoa que ele mais estimava.
Com os olhos lacrimejantes e a expressão desolada, o General ajoelhou-se no chão e prestou três reverências, mantendo-se curvado após a última.
— Bai Renshu, por favor, me perdoe! - ele disse, ainda curvado. - Me perdoe por ter sido um imbecil que não foi capaz de perceber o que estava acontecendo com você. E por ter sido um covarde incapaz de lhe dizer o que eu sentia! Renshu, eu... eu me apaixonei por você... Me apaixonei por cada um dos seus sorrisos sinceros, pelo seu cheiro, pela sua personalidade travessa, pelo seu jeito engraçado e dramático, pela forma natural com que você me aceitava e por ter me tratado com carinho, mesmo sem querer demonstrar... Renshu, eu te quis TANTO! Quis tanto, mas eu tive medo... medo que você me rejeitasse ou que fugisse... mas no final, foi exatamente isso que você fez. Talvez, se eu tivesse te contado como eu me sentia, você ficaria com pena de mim e não faria o que fez. Se eu tivesse te feito entender que eu me arriscaria a te ajudar por amor e não por generosidade, talvez você teria me dito o que estava acontecendo e me deixaria ajudá-lo! Mas eu fiquei inseguro e fui um covarde... fiquei tão angustiadamente apaixonado que me tornei idiota, burro e cego! Estava tudo tão claro, mas eu não pude enxergar... Eu não quis enxergar. Era terrível demais pra eu querer enxergar! Eu sofri por causa da moça, mas não percebi que o seu sofrimento era muito maior do que o meu. Eu falhei, meu amor... me perdoe...
Wen Ning ergueu o seu tronco e limpou as lágrimas que se recusavam em cessar. Ele permaneceu um longo período ajoelhado, encarando o vazio, sentindo-se tão devastado que, mesmo com as pernas dormentes, ele não tinha vontade sequer de se mover ou levantar.
Após passar por tamanha revolta e profunda tristeza, Wen Ning parou de chorar e passou ao estágio da negação.
Recusando-se a acreditar que seu amigo estivesse morto, ele revirou desesperadamente todas as roupas, joias e objetos pessoais que estavam espalhados ao chão, procurando por qualquer indício de que aquilo era apenas mais uma das brincadeiras de Bai Renshu.
— A bolsa! A bolsinha de moedas! - ele disse por fim, quase uma hora depois.
Wen Ning fez uma busca pela casa inteira, encontrou e revirou um baú cheio de moedas e mesmo assim não encontrou nenhuma bolsa própria para guardá-las.
Ignorando o fato de que o objeto já devia estar na roupa do cultivador e ele não lembrou-se de retirá-lo, o General agarrou-se a este insignificante detalhe na esperança de que seu amigo ainda estivesse vivo.
— Quem vai se matar, não precisa de moedas, não é? - ele disse esperançoso.
— Isso não foi só uma coincidência, não é? - ele questionou, convicto da resposta.
— Você só foi comprar comida para o almoço e logo voltará, não é??? - ele perguntou suplicante, e logo voltou a chorar.
Passando para o estágio da aceitação, Wen Ning respirou fundo e limpou as suas lágrimas. Ele já havia tomado ciência de que, essa altura, a possibilidade de que seu amigo ainda estivesse vivo era mínima, mas por mais diminuta que fosse essa chance, ele havia afirmado que jamais desistiria de Renshu, e assim ele o faria.
"Mesmo que Bai Renshu já esteja morto, eu preciso encontrar o seu corpo para lhe dar um funeral digno" - ele pensou, em entristecida resignação.
Wen Ning caminhou de um lado para o outro tentando raciocinar sobre qual lugar Bai Renshu escolheria para cometer um ato tão terrível contra si mesmo. Depois de muito esquentar sua cabeça, Wen Ning subitamente encerrou os seus passos e exclamou ao mesmo tempo angustiado e ansioso:
— JÁ SEI! A pergunta não é sobre onde ir e sim a quem recorrer! E a resposta é A-Yuan! A-Yuan sabe tocar Inquérito... e se Bai Renshu estiver realmente morto, ele poderá me dizer.
Ao dizer isso, o General vestiu às pressas o seu capuz, encheu sua própria bolsa de moedas e imediatamente deixou a casa, correndo com o máximo de velocidade que podia.
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O Legado da Carne
FanfictionDois anos após tornar-se independente de Wei Wuxian, seu antigo mestre, o ainda temido e odiado "General Fantasma" tornou-se um andarilho solitário que vagava o mundo eliminando monstros e sobrevivendo humildemente de pequenas recompensas. Enquanto...
