Wen Ning estremeceu, em completa aversão, ao sentir o intenso calor que o corpo de Bai Renshu emanava e tentou, em vão, se livrar de seu aperto. Seu pânico inicial já havia passado, restando, agora, apenas a dor e a angústia em seu coração.
Wen Ning cogitou forçar o cultivador a sair, mas não queria machucá-lo. Tanto a sua temperatura, quanto os seus batimentos cardíacos não lhe pareceram muito saudáveis, portanto ele se conteve.
— Você está bem? - perguntou o Wen, um tanto a contragosto.
— Eu estou tenso – respondeu Renshu, se recusando a soltá-lo. — Porque eu sei que se eu te soltar e você sair por aquela porta, eu nunca mais irei te ver.
— Você tem tanto medo assim que eu possa fazer isso?
— Muito – admitiu o cultivador.
Wen Ning prestou nova atenção aos batimentos acelerados no peito de Bai Renshu e julgou que o cultivador estivesse sofrendo um ataque de pânico.
"Ele não merece a minha consideração, mas também não posso deixá-lo desse jeito" – pensou o amargurado general - " E dos males o menos pior: pelo menos eu sei que ele não está mentindo sobre isso".
Wen Ning respirou profundamente e foi direto ao ponto:
— Bai Renshu, eu estou muito desconfortável com você fazendo isso. Se eu prometer que ficarei por mais uma ou duas horas, você me soltará?
— Me desculpe, na hora do desespero, essa foi a única saída que consegui pensar... E sim, eu soltarei.
— Certo, eu prometo. Então me solte.
Bai Renshu finalmente o soltou e se largou sentado numa cadeira. Ele parecia bastante cansado e sua aparência, sempre impecável, agora parecia um pouco desgrenhada. Ele voltou a limpar o suor de sua testa com aquele lenço quase totalmente sujo de sangue e por isso Wen Ning voltou até o quarto de banho para buscar o dele.
Wen Ning retornou com um lenço* rubro e desgastado e o entregou para Bai Renshu.
— Tome - disse o Wen. — Eu o havia lavado mais cedo e ele ainda está um pouco úmido, mas pelo menos está limpo.
[*NT: Esse lenço tem certa relevância na terceira das quatro fases dessa história. Se possível, tentem memorizar sua descrição.]
Bai Renshu recebeu o lenço com as duas mãos e o segurou com muito cuidado.
— Eu posso ficar com ele? - pediu o Bai, olhando-o de modo esperançoso.
— Tanto faz – respondeu o Wen, sem emoção. — É apenas um lenço velho, faça o que quiser com ele.
— Obrigado.
Bai Renshu observou o velho pedaço de tecido em suas mãos como se ele fosse algo muito precioso. Ele estendeu com cuidado o lenço na palma de uma das mãos e delineou suavemente o seu bordado com a outra.
— Eu acho que compreendo o vermelho, pois deve ter a ver com a sua seita...
Wen Ning assentiu com um gesto de cabeça e Bai Renshu continuou:
— Mas... por que um nabo? É uma escolha bastante peculiar para um bordado. Não me lembro de ter visto nada parecido com isto.
— Por que é muito significativo pra mim. Um símbolo de uma época bastante amarga, mas com um toque de doçura. Encomendei esse bordado para me lembrar que, por mais terrível e trágico seja o destino que a vida possa nos reservar, sempre haverão pessoas e momentos que valerão a pena recordar. É como um lembrete para seguir em frente e manter no coração somente as coisas boas. E a título de curiosidade: ironicamente, essa é uma lembrança de Yling também.
"Muito conveniente" - pensou o Bai Renshu - "É a exata descrição do que estou vivenciando..."
— Se representa tudo isso, eu posso mesmo eu ficar com ele? - perguntou o Bai.
— Pode... - respondeu o Wen. — É só um velho pedaço de tecido. O lenço, em si, não tem valor sentimental. Quanto ao símbolo, depois eu mando fazer outro.
— Obrigado.
— Não por isso.
Bai Renshu limpou, com suaves batidinhas, o suor remanescente de sua testa e depois guardou o lenço dentro de sua roupa.
Wen Ning sentou-se na cadeira mais distante de Bai Renshu e tamborilou seus dedos na mesa. Ele ainda estava se sentindo muito incomodado com a cena infeliz que havia presenciado, mas já que o outro fizera tanta questão que ele permanecesse mais um pouco, então faria o possível para aguardar o término do período prometido.
Percebendo que um silêncio constrangedor havia se instaurado, o cultivador dirigiu a Wen Ning um sorriso falsamente alegre e tentou puxar assunto:
— Hum... respondendo aquela pergunta que você havia me feito antes de sermos interrompidos, eu só queria dizer que me casar nunca esteve e nem nunca estará nos meus planos.
Wen Ning tentou disfarçar o desconforto que sentiu ao se lembrar da moça que os interrompera, mas suas sobrancelhas franzidas o traíram. Tentando fazer o máximo para não transparecer a raiva contida que ele sentia, Wen Ning perguntou:
— Ah, sim... Então quem era aquela moça?
— A única herdeira de uma rica família de mercadores de tecidos e neta de um famoso alfaiate. É uma garota mimada, escandalosa e bastante ciumenta.
— Foi só por isso que você não deixou ela entrar? Para que ela não fizesse escândalo ao me ver?
"Claro que é!" - adiantou-se, Wen Ning, em pensamento.
Bai Renshu riu de maneira casual e depois disse:
— É claro que não! Foi por isso que eu pedi que você se escondesse. Aquela garota é imprevisível e já tentou invadir a minha casa várias vezes. Normalmente estou alerta, mas com você aqui dentro, a minha atenção seria dividida. E se ela conseguisse entrar por um descuido meu e te visse vestido nesses trajes, ela faria um verdadeiro inferno!
"Não seria mais infernal do que a cena que eu presenciei" – pensou Wen Ning, com grande amargura.
Sentindo-se como se mais nada pudesse abalá-lo, O General resolveu perguntar:
— Eu ouvi você chama-la de "querida". Sinal de que você gosta dela, certo? Então por qual motivo ela precisa invadir a sua casa ao invés de entrar, assim como eu entrei?
— Gosto dela, admito. Porque além de linda e atraente, ela é uma daquelas delícias que realmente sabem como satisfazer um homem na cama... - disse abrindo um sorriso devasso enquanto se deleitava com alguma lembrança erótica, mas assim que viu a cara feia que Wen Ning estava fazendo, o cultivador engoliu em seco e imediatamente se forçou a fazer uma expressão séria.
O General Fantasma ficou em silêncio, mas encarava o cultivador como se estivesse prestes a trucidá-lo. Bai Renshu fingiu uma tosse para atenuar o clima de tensão que se formara, limpou o suor frio que escorrera de seu rosto e depois arriscou algumas palavras:
— Err... mas não gosto o suficiente para deixá-la entrar aqui, é claro! Como eu lhe disse, eu quase nunca permito que alguém entre aqui. Apenas mais uma pessoa, além de você, já conseguiu entrar nessa casa. E ainda assim, você foi o único que entrou aqui sendo deliberadamente convidado.
O semblante do General se atenuou um pouco, mas ele continuou frio e calado.
Bai Renshu sorriu, tentando parecer simpático e disse para quebrar o gelo:
— Meu General Fortinho é realmente privilegiado!
Wen Ning ficou vermelho, tanto de vergonha quanto de raiva.
— SEU General? - disse ele apontando o dedo na cara de Bai Renshu. — Seu General uma ova!
— Calma, Ning, eu só estava brinc...
O cultivador desistiu do que estava dizendo e prestou atenção no dedo sujo de sangue e de terra que fora apontado em sua cara. Com seu semblante preocupado, ele disse:
— Por que suas mãos estão desse jeito?
Wen Ning imediatamente as escondeu atrás das costas da cadeira.
— Não é nada.
— Como não é nada? Suas mãos parecem estar num estado lástimável!
Bai Renshu se levantou de onde estava e foi até Wen Ning para tentar verificá-las. Todavia, o General também se levantou e conseguiu se esquivar.
Bai Renshu expeliu o ar de seus pulmões de forma impaciente e disse uma voz autoritária:
— Wen Ning, me mostra isso agora!
Wen Ning sentou-se em cima das mãos e disse:
— Eu sou mais forte. Vc não pode me obrigar.
Renshu cruzou os braços e disse em tom de desdém:
— Azar o seu, então... porque se você não me mostrá-las de boa vontade, eu irei te forçar a fazer isso do pior modo.
— Não vai. Eu sou bem mais forte do que você e posso te quebrar em dois, se eu desejar. - respondeu o General, tentando parecer o mais intimidador que podia.
Renshu deu um sorriso desafiador e respondeu:
— Para que usar a força, quando se tem a inteligência?
Bai Renshu aproximou-se, apoiou as mãos sobre os ombros do General e despudoradamente sentou-se em seu colo, ficando de frente para o mesmo.
Com seus rostos próximos o bastante para que ambos conseguissem sentir a respiração um do outro, o cultivador fitou os lábios de Wen Ning e sussurrou em uma voz sedutora:
— Eu vou fazer uma mágica. Eu contarei até três, e quando eu beijar os seus lábios, você precisará expor as suas mãos, para poder me empurrar... Quer apostar?
Wen Ning ficou muito vermelho e desviou seu olhar para o lado.
Bai Renshu sorriu de forma enigmática.
— Um... - disse o cultivador, mas o General não indicou resistência.
— Dois... - disse o Bai, mas o Wen fechou os seus olhos.
— TRÊS! - bradou Renshu, e no segundo seguinte, Wen Ning sentiu a textura macia e úmida tocar em seus lábios.
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O Legado da Carne
FanfictionDois anos após tornar-se independente de Wei Wuxian, seu antigo mestre, o ainda temido e odiado "General Fantasma" tornou-se um andarilho solitário que vagava o mundo eliminando monstros e sobrevivendo humildemente de pequenas recompensas. Enquanto...
