Capítulo 59

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— Ora, ora, ora – disse Wen Ning, na proposital intenção de imitar o seu amado. — Então o impressionante homem que nunca se emociona se debulhou em lágrimas apenas porque um marmanjo resolveu amarrar os cabelos? Tem coisa errada nessa história! Acho que acabei comprando gato por lebre.
— Ah, cala a boca! - reclamou o cultivador enquanto sorria.
Bai Renshu recolheu aquele hanfu e o atirou em seu dono como protesto, mas quando tentou lançá-lo, seu movimento foi tão fraco e desajeitado, que ele só conseguiu atingir as pernas do General.
O cultivador deixou escapar um breve olhar apreensivo e depois tentou disfarçar a sua falha cobrindo as pernas de Wen Ning como se essa fosse a sua intenção desde o princípio, entretanto, Wen Ning sabia que Bai Renshu tentara acertar o seu rosto porque ele já havia tido aquela reação outras vezes, então ele segurou gentilmente os pulsos dele para impedi-lo de continuar com aquela farsa e disse calmamente, olhando em seus olhos:
— Meu amor, se há alguma coisa acontecendo com você, eu gostaria muito que você me dissesse.
Percebendo que não adiantaria tentar disfarçar, Bai Renshu deu um suspiro resignado e admitiu:
— Certo... é que já faz um tempo que eu não tomo nenhum remédio e a rigidez muscular está retornando.
Wen Ning se mostrou apreensivo, levantou-se prontamente e falou:
— Então eu vou atrás do médico pra buscar mais remédios, está bem? Eu já volto!
Mas Bai Renshu o segurou pelo antebraço e suplicou:
— Não, por favor, fica aqui! Sempre que você sai dessa caverna, eu fico com receio que seja a última vez que eu esteja te vendo. Quando a noite cair, nós vamos juntos, sim? Por favor...
— Mas não é perigoso aguardar até a noite? E se até lá você não conseguir mais andar?
— Acredito que ainda levará várias horas até que fique completamente ruim, mas caso isso ocorra, aí você me carrega, oras! Cê acha o que? Que eu fui arranjar um fortão desses só pra ficar de enfeite?
— Eu te carregaria com prazer, meu amor, mas só de eu te carregar até aqui, você já relutou bastante...
— Isso foi antes de eu me tornar oficialmente um bebezão! Agora eu já perdi a pouca dignidade que me restava, então tanto faz.
— Tem certeza? Acho que se eu trocasse as suas fraldas, seria bem pior.
— Certo, NEM TODA a dignidade ainda! Apesar que... se o meu venerado quiser me despir e me passar um paninho, assim... só pra treinar...
— Xiu, seu tarado!
— Hahahaha! Bem, não custava nada tentar, né? Vai que funcionava!
Wen Ning revirou os olhos.
— Que tal você me falar tudo o que sabe sobre o Legado da Carne, em vez de ficar falando bobagens?
— Certo, acho que eu lhe devo algumas explicações... Mas só se você sentar encostadinho aqui em mim e me deixar te agarrar, senão eu não conto nada!

Wen Ning aproximou-se de joelhos, deu um selinho em seu amado e disse sorrindo:
— Até parece que eu iria resistir!
O General virou-se de costas e ajeitou-se confortavelmente recostado no torso do homem que ele amava. Bai Renshu, por sua vez, envolveu seu general com seus braços, deu nele um estalado beijo na nuca – que o deixou com a pele toda arrepiada – e então começou:
— Aquelas coisas que você viu berrando por aí, se chamam jiangshis. Eles são descritos nos livros antigos como criaturas horrendas, cegas e verdes com cabelos e unhas que não param de crescer e que movimentam-se lentamente com seus feios braços estendidos, mas na prática, eles são menos caricatos e um tanto mais complexos. Falando de uma maneira mais objetiva, jiangshis são mais ou menos uma mistura de zumbis com vampiros - zumbis, porque seus corpos são como néscios cadáveres que agem somente por instinto, e vampiros porque entram em combustão quando expostos à luz solar e porque necessitam sugar o qi de pessoas vivas para impedir que seus corpos se degenerem por completo e assim, continuarem se locomovendo. Não se sabe ao certo a maneira como essas criaturas se originam – uns dizem que são os corpos de pessoas não enterradas que foram atingidos e reanimados por um raio e outros falam que são os corpos das vítimas que sofreram mortes muito violentas e que por terem absorvido demasiada energia ressentida na ocasião de suas mortes, não conseguiram repousar em paz e reergueram-se de seus túmulos em busca de vingança ou justiça, mas independente de como eles surgem, o fato é que todos os relatos são unânimes em afirmar que a maneira pela qual eles se proliferam, acontece através das mordidas.

O Legado da CarneHistórias para pegar e não largar. Descubra agora