Vida de rainha

147 15 1
                                        

Carla


O sol batia na varanda da mansão e me incomodava. Mesmo com os óculos escuros de marca e a sombra da ombreira branca esticada sobre a espreguiçadeira, eu ainda sentia calor. Quase meio-dia. E eu? Deitada, com os pés inchados apoiados numa almofada ortopédica caríssima que a enfermeira pessoal sugeriu comprar.

Segurei o copo de suco de frutas vermelhas que a cozinheira me trouxe, com gelo de água mineral e hortelã orgânica. Deixei na mesinha, nem tinha vontade de beber.

— Senhora Carla, quer que eu ligue o ventilador de chão? — perguntou Diana, a empregada.

Revirei os olhos por trás dos óculos.

— Diana... eu já falei: me chama de Carla. Eu tenho vinte e oito anos, não setenta. E não, deixa assim mesmo. O ventilador só atrapalha meu cabelo.

— Claro. — Ela se afastou, como sempre fazia. Tinha medo de mim. Todo mundo naquela casa tinha.

Inclinei o tronco com dificuldade e acariciei a barriga. O bebê chutava. De novo. E eu não sabia se era raiva, desespero ou impaciência.

— Para, moleque... — murmurei, entredentes. — Você não tem nada pra comemorar.

Ele chutou de novo.

Quase arremessei o copo contra a parede, mas me segurei. Era de cristal. O Don odiava que eu quebrasse as coisas "sem motivo".

Ele.

Taehyung.

O Don da porra toda.

O homem que uma vez me pegou pelos cabelos e me fodeu contra o espelho do banheiro da boate, me olhando como se eu fosse a última coisa viva no planeta. O mesmo que agora... me perguntava se eu dormi bem. Se a enfermeira tinha aplicado a vitamina. Se eu queria ver opções de cortina pro quarto do bebê.

Hipócrita. Doce. Frio. Bondoso. Um caos ambulante.

Mas tudo isso só por causa dele. Do bebê.

Soltei um suspiro irritado e mexi no celular. Instagram aberto. Stories passando sozinhos. Futilidade atrás de futilidade. Influencers que eu não conhecia mostrando café da manhã saudável, rotina de skincare, cachorros com bandana, maternidades felizes.

"Meu bebê é a luz da minha vida" — dizia uma.

"Ser mãe é renascer em outro corpo" — dizia outra.

Tive vontade de vomitar.

A única coisa que renasceu em mim foi o medo de perder o meu lugar na vida do Don.

Porque eu sabia... sabia muito bem... que se esse bebê não fosse do Taehyung, eu já teria voltado pra calçada há muito tempo. Ele me manteria num canto qualquer, sem nome, sem teto, sem porra nenhuma.

Mas esse bebê? Esse moleque era minha moeda. Meu acesso ao luxo.

Me ajeitei na espreguiçadeira e passei a mão no cabelo. Fiz luzes recentemente, mesmo grávida. A cabeleireira veio até a mansão. "Pode fazer, mas sem química forte, tá bom, amor?", ela disse. Como se eu me importasse.

Usei um roupão da Chanel que ganhei do Don. Estava vestindo só isso, uma calcinha de algodão cara e o peso da minha própria barriga. A pele da barriga ardia de tanto que esticou. Passei creme, óleo, tudo que mandaram passar. Ainda assim, estava cheia de linhas finas.

— Diana! — gritei.

Ela apareceu rápido, claro.

— Pede pra enfermeira trazer o remédio da azia. E manda preparar meu almoço. Quero frango grelhado com arroz, sem tempero. Ah, e brócolis no vapor.

OBSESSÃO Histórias para pegar e não largar. Descubra agora