Ainda era saudade

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Louise

A luz baixa do abajur aceso no canto do quarto deixava tudo meio alaranjado. O quarto cheirava a suor, sabonete e lençóis amassados. Eu estava deitada de lado, com as pernas semi encolhidas, puxando a coberta até a barriga, mesmo com calor. Jimin estava ao meu lado, deitado de costas, com um braço por trás da cabeça, respirando fundo como se estivesse relaxado.

Mas eu não tava. Eu só queria ficar em silêncio mais uns bons minutos. Só ficar ali, olhando pra parede. Fingindo que não tava pensando demais. Fingindo que tava tudo bem.

— Você tá bem? — ele perguntou, virando um pouco o rosto na minha direção.

— Uhum — respondi rápido, tentando não soar seca.

Ele me olhou por alguns segundos. Eu sabia que ele desconfiava quando eu respondia assim. Sempre que eu mentia, minha voz ficava mais leve do que devia. Não era raiva, era culpa. Só que o silêncio dele depois disse tudo. Ele acreditou.

Ou escolheu acreditar.

— Eu... fui muito rápido? — ele perguntou, com um meio sorriso inseguro.

— Não, amor. Foi ótimo — sorri pequeno, sem mostrar os dentes. Virei o rosto e dei um beijo no ombro dele.

E pronto. Mentira contada. Mais uma vez.

Eu não sentia absolutamente nada. Nenhum prazer. Nenhum arrepio. Só peso. Frustração. Cansaço. Culpa.

Jimin sempre foi cuidadoso. Carinhoso. Atencioso. Mas... não adiantava. Meu corpo não respondia. E não era a gravidez. Nem era cansaço. Era... a falta de algo. De conexão. De verdade.

Eu sentia mais vontade de chorar do que de gozar.

— Quer água? — ele perguntou, se sentando na cama.

— Quero.

Ele levantou nu, pegou a garrafa na mesinha, serviu num copo e me entregou. Eu bebi devagar, sentindo a garganta seca. A água gelada desceu rasgando. Eu agradeci com um aceno e deixei o copo de lado.

— Tô pensando em algo — ele disse, sentando de novo na beirada da cama, de costas pra mim. — E quero te contar, mas você precisa prometer que não vai inventar desculpa.

— Que tipo de desculpa?

— Tipo... "ai, tô cansada", "ai, e se o médico não liberar?", "ai, é perigoso viajar grávida"... — ele virou, me olhando com cara de cúmplice.

— Jimin... — soltei o nome com um meio sorriso, curiosa. — Fala logo.

— Quero te levar pra Coreia. Daqui três dias. Só eu e você. Uns dias fora, ver sua família, comer comida decente, respirar um ar diferente, sei lá. Te tirar dessa rotina pesada. A gente precisa disso, Louise.

Meu coração deu uma apertada. Coreia. Meus pais. Minha casa. Minha antiga vida. Tudo que eu deixei pra trás.

— Não sei se é uma boa ideia... — falei baixo, encarando o lençol.

— Eu sabia — ele suspirou. — Eu sabia que você ia dizer isso.

— Não é isso. É que... é longe. É arriscado. E se acontecer alguma coisa?

— Você tá com seis meses. Já fez todos os exames. O médico liberou viagens até a 32ª semana. Vai ser um voo de classe executiva, com tudo certo. A gente fica num bom hotel, e qualquer emergência, você tem os melhores médicos na cidade.

— Mesmo assim...

— Louise — ele se virou de vez pra mim, sentando de frente, segurando minha perna com as duas mãos. — Escuta. Você tá apagada. Eu vejo isso nos seus olhos. Você não sorri mais. Não canta mais. Não faz piada com a decoração feia do quarto. Tá sempre cansada, sempre quieta, sempre distante. Eu não sou burro.

OBSESSÃO Histórias para pegar e não largar. Descubra agora