semanas depois

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Kim Taehyung

O vapor tomava conta do banheiro como uma névoa pesada. A água quente escorria das minhas costas, mas não levava com ela o peso que eu vinha carregando há meses.

Fechei os olhos.

O silêncio do banheiro era perigoso. Ele me obrigava a ouvir meus próprios pensamentos, e eu vinha tentando fugir deles.

Louise.

Eu me perguntei, como em todos os dias anteriores, se ela ainda me odiava. Se estava bem. Se ria de mim por ter perdido o controle de tudo. Amor, orgulho, paz. Tudo evaporado como o vapor ao meu redor.

Passei a mão no rosto, respirei fundo.

Saí do boxe enrolando a toalha na cintura, os cabelos ainda pingando. Entrei no closet, vesti a primeira camisa escura que vi, a calça alinhada de sempre. Quando fui pegar o relógio no criado-mudo, lembrei da pasta.

Aquela maldita pasta.

Balancei a cabeça, suspirei e a peguei.
Hoje eu vou ver isso. Antes que eu me esqueça de novo.

(...)

Desci as escadas já com a pasta embaixo do braço. Sentei-me na cabeceira da mesa de mármore enquanto Diana colocava o café no meu copo.

— Bom dia, senhor Taehyung. Deseja frutas ou direto os ovos com torradas?

— Os dois. E deixa o açúcar separado, tô sem saber se quero doce ou amargo hoje.

Ela sorriu, quase sem graça.

— Como preferir.

Enquanto ela arrumava a mesa, abri a pasta e puxei os papéis dobrados. O primeiro era um relatório geral, exames de sangue. Nome da paciente: Carla Fernandes.

Meu estômago virou.

Revirei a folha. Achei outro papel, carimbado, com data e assinatura.

Ultrassonografia obstétrica. 15 semanas de gestação.

Soltei um riso seco, completamente sem humor.

— Tá brincando comigo...

— Perdão, senhor? — Diana me olhou da cozinha.

— Nada não.

Puxei mais papéis, outros exames de rotina. Todas as informações batiam. Os meses, as datas. O médico. Tudo detalhado.

Me afundei na cadeira.

Carla. Grávida.

Pensei nela. Nos olhares insistentes, nas tentativas dela de se aproximar de novo. Nos dias em que ela sumia da boate, nas roupas largas que usava.

Eu ignorei tudo.

Pela idade gestacional pode ser meu.

— Maldita. — sussurrei, passando a mão pelo rosto.

— Senhor Taehyung?

Levantei os olhos. Diana colocou meu prato na minha frente com delicadeza. Ela hesitou por um segundo, olhando a pasta aberta sobre a mesa.

— Tudo bem? Posso trazer outra coisa?

— Não, pode deixar. Fecha a porta quando sair, por favor.

— Claro

(...)

O café já estava morno. Eu nem encostei nos ovos.

Fiquei olhando fixamente pro prato, como se aquela comida soubesse o que fazer com essa bagunça na minha cabeça.

OBSESSÃO Histórias para pegar e não largar. Descubra agora