Herdeiros do sangue

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Kim Taehyung

O caminho de volta pra casa foi o mais silencioso da minha vida.
Louise estava ao meu lado, o rosto voltado pra janela, as lágrimas secas marcando a pele delicada. Eu via o reflexo dela no vidro, olhos vermelhos, expressão perdida, como se cada palavra dita por Jimin ainda ecoasse dentro da cabeça dela.

O envelope com o divórcio descansava sobre o colo dela. Suas mãos o seguravam com tanta força que o papel já começava a amassar.

Eu queria dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas o nó na minha garganta era tão grande que o silêncio pareceu o único som possível.

Quando o carro parou em frente à casa, Louise respirou fundo e desceu devagar. Eu a segui, observando o quanto ela estava frágil. Aquela mulher, que já enfrentou o inferno ao meu lado, que desafiou o medo tantas vezes, agora parecia um fio prestes a se partir.

Abri a porta e a deixei entrar primeiro. Ela foi direto pro quarto, andando como se carregasse o peso de todas as verdades do mundo.

Fechei a porta atrás de nós e me aproximei devagar.
Ela ainda segurava o envelope. Olhei para aquilo como quem encara um fantasma.

— Deixa isso pra depois, — murmurei, pegando o papel das mãos dela e colocando sobre o criado. — Agora você precisa descansar.

Ela levantou o olhar, os olhos marejados encontrando os meus.

— Eu não sei o que fazer, Taehyung... — sussurrou. — Tanta coisa aconteceu...

Me aproximei, toquei o rosto dela com cuidado.

— Não precisa saber de nada agora. Só descansa.

Ela assentiu devagar.

Peguei uma toalha e a levei até o banheiro. A água quente já caía quando comecei a ajudá-la com calma, tirando a blusa, o casaco, a calça.
Ela ficou ali, em silêncio, deixando que eu cuidasse dela. Lavei seus cabelos, acariciei os ombros tensos, e a cada toque eu sentia o quanto ela tremia.

— Vamos ficar bem agora, Louise, — sussurrei, enxaguando o sabão de seus cabelos. — Eu prometo que nunca mais ninguém vai te ferir.

Ela fechou os olhos, e por um instante, respirou em paz.

Depois do banho, vesti nela uma camisola leve e a deitei com cuidado na cama. Cobri-a com o lençol e passei os dedos pelos fios molhados do cabelo dela.

— Dorme um pouco. Eu já volto.

Ela segurou minha mão, sem força.

— Não demora... por favor.

— Não vou. — prometi, beijando a testa dela antes de sair do quarto.

Fui até a cozinha, procurando algo que ela pudesse comer.
Abri armários, geladeira, gavetas. Nada que servisse.

Peguei as chaves e atravessei o jardim até a mansão. O vento frio da noite batia no rosto, e o som das cigarras ecoava ao longe. Ao entrar, encontrei a cozinheira perto do fogão.

— Prepare um jantar leve, — pedi, a voz baixa, firme. — Sopa, pão, chá quente. E leve pra Louise, na casa do jardim. Ela tá descansando.

Ela assentiu sem questionar.

— Sim, senhor Kim. Vai estar pronto em quinze minutos.

Agradeci com um leve aceno e sai em direção a pequena casa.

Entrei no quartinho em que a pequena ocupava, e o cheiro suave de talco me envolveu.
Ela dormia, encolhida no meio do berço, os cabelos bagunçados e os lábios entreabertos. Por um instante, tudo o que eu senti foi um aperto no peito.

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