Ódio

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Carla

Dois dias.
Dois dias inteiros sem ver Taehyung.
Dois dias de silêncio.
Dois dias que pareciam uma tortura planejada só pra me enlouquecer.

Eu andava de um lado pro outro no quarto, as mãos passando pela barriga pesada que já denunciava o fim da gravidez.
Ele não atendeu minhas ligações.
Não respondeu minhas mensagens.
E os seguranças, idiotas, só sabiam repetir que ele estava “resolvendo assuntos importantes”.

Assuntos importantes.
Eu sabia o que isso queria dizer.
Louise.

— Claro que é ela… — murmurei pra mim mesma, sentindo o peito ferver. — Ele não consegue esquecer aquela mulher.

Joguei o celular com força na cama.
A tela acendeu por alguns segundos, mostrando a última mensagem que mandei:

“Você vai se arrepender de me deixar sozinha, Taehyung.”

Nenhum visto. Nenhuma resposta.

Meu corpo inteiro tremia, não sei se de raiva ou de ciúme.
Ou dos dois.

Fui até o espelho.
O rosto estava pálido, olheiras fundas, o cabelo uma bagunça.
Eu parecia um fantasma dentro da mansão dele, uma mulher que ele tolerava, não amava.
Uma incubadora de um bebê que ele dizia proteger, mas que eu só conseguia odiar.

— Filho da mãe — falei entre dentes. — Some por dois dias e acha que eu vou ficar aqui quieta?

Peguei o telefone fixo e disquei o ramal da portaria.

— Onde o Taehyung está? — perguntei, firme.

Do outro lado, silêncio.

— Senhora, o chefe pediu pra não ser incomodado.

— Eu não perguntei o que ele pediu, eu perguntei onde ele está! — gritei, sentindo o coração bater no pescoço.

O segurança hesitou.

— Ele saiu há dois dias, senhora. Disse que voltaria assim que terminasse o que precisava.

Fechei o punho com força.
Dois dias. Era óbvio.
Ele estava com ela.
Com aquela mulherzinha que sempre fingiu ser santa.

Comecei a rir. Um riso nervoso, alto, que ecoou pelo quarto.
— Ela conseguiu, né? — murmurei, olhando o reflexo no espelho. — Conseguiu trazer ele de volta pro inferno dela.

Andei até o berço montado no canto, onde já estavam as roupinhas do bebê.
Tudo branquinho, impecável.
Toquei as pequenas peças com desdém.

— Olha só o que você fez, garotinho… — falei, acariciando a barriga. — Por sua culpa eu tô presa aqui, sozinha.

Senti o bebê se mexer dentro de mim e o enjoo veio forte.
Apertei o ventre, tentando respirar.
Mas a raiva era maior que qualquer dor.

— Eu te odeio — sussurrei, a voz trêmula. — Odeio você, odeio o seu pai, odeio essa casa.

A vontade de destruir tudo tomou conta.
Comecei a puxar as roupas do bebê da cômoda e jogá-las no chão.
As roupinhas voavam, uma após a outra, como se fossem lembranças que eu precisava apagar.

— Ele vai voltar pra ela — gritava. — Vai voltar pra Louise e deixar a gente aqui!

O som do choro preso na garganta saiu como um grito.
Eu me abaixei até a cama, as mãos pressionando o colchão.
As lágrimas escorriam quentes.

— Eu fiz tudo o que ele quis… eu aceitei essa gravidez, eu aguentei sozinha… — murmurei, arfando. — E pra quê? Pra ser esquecida?

A dor no ventre ficou mais forte.
Uma pontada aguda.
Tentei me levantar, mas minhas pernas fraquejaram.

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