Vazios

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Park Jimin


Empurrei a porta devagar.

— Louise? — chamei, mas não teve resposta.

O quarto estava meio bagunçado, mas o que me chamou atenção foram as coisas da bebê espalhadas. O berço encostado na parede, a manta no canto. E nem sinal dela.

Entrei, passando a mão pelo rosto. Fui até o berço e olhei pra dentro. Ela estava lá, dormindo. Pequena, enrolada, quentinha. Respirava devagar, o rosto sereno.

Suspirei fundo.

— Você não tem culpa, né? — falei baixo, mais pra mim mesmo.

Fiquei alguns segundos parado ali, olhando. Eu queria sentir alguma coisa… carinho, amor… qualquer merda que fosse. Mas não vinha. Era um vazio.

E junto desse vazio, vinha outra coisa. Um peso, uma raiva que eu tentava empurrar pra longe, mas sempre voltava. Quanto mais ela crescia, mais aquele rostinho ia ficando igual ao dele. As bochechas, o formato dos olhos… até o jeito de franzir a testa quando se mexia.

Mordi o lábio, apertando a mão na beirada do berço.

— Por que você é tão parecida com ele? — sussurrei, quase como se ela pudesse responder.

Balancei a cabeça e dei um passo pra trás. Não fazia sentido Louise não ver. Ela passava horas olhando pra essa criança. Alimentando, trocando, ninando… como é que não percebia?

Me sentei na beira da cama, encarando o chão. Desde que essa criança nasceu, esses pensamentos vinham me corroendo.

Olhei pro berço de novo.

— Não é sua culpa… mas eu não consigo. — minha voz falhou um pouco.

Fiquei ali por mais alguns minutos, ouvindo só a respiração dela. O quarto tinha aquele cheiro suave de leite. A luz entrava fraca pela cortina. Tudo calmo…

Me levantei, peguei a manta que estava na cômoda e ajeitei sobre ela.

— Dorme aí, Haneul… — falei, quase num sussurro.

Saí do quarto fechando a porta devagar. Não queria acordá-la. E também não queria continuar ali, encarando um pedaço vivo do homem que eu mais odiava.

 E também não queria continuar ali, encarando um pedaço vivo do homem que eu mais odiava

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Carla

Tava jogada no sofá enorme do terceiro andar, com as pernas esticadas e o celular na mão. A TV ligada, mas o som baixo. A mansão tava silenciosa. Só dava pra ouvir, de vez em quando, algum barulho vindo lá de baixo. Taehyung devia estar no escritório, como sempre.

A Camila, minha amiga, tava sentada numa das poltronas, bebendo água com gás.

— Você tá muito tranquila pra quem tá quase parindo — ela falou, rindo de canto.

Revirei os olhos.

— Tranquila nada. É só porque não aguento mais ouvir falar desse bebê. Dois meses já eram suficientes pra mim, imagina nove.

Ela soltou uma risada abafada.

— Você fala como se não fosse seu filho.

— Não é questão de ser ou não meu filho, Camila… — falei, mexendo no celular. — É que eu não quero. Nunca quis. E se eu tô aqui, aguentando essa barriga, é só por causa disso aqui. — apontei em volta. — Olha essa casa. Olha o jeito que eu vivo. Você acha que eu ia abrir mão disso?

Camila olhou pra escada e depois voltou pra mim.

— E ele? Como tá com você?

Soltei uma risada seca.

— Frio. Mais do que nunca. Só fala comigo quando é sobre o médico, sobre o bebê… e olha lá. Eu sei que ele me odeia, mas me aguenta por causa dessa criança.

— E você? — ela perguntou, meio curiosa. — Não sente nada por ele?

— Sinto nojo — falei sem pensar duas vezes. — Ele só pensa naquela mulher. E pra mim tá ótimo, porque eu penso só em mim.

Camila apoiou o copo na mesa.
— Mas… quando o bebê nascer…?

Interrompi.
— Quando esse bebê nascer, Camila, minha vida vai ficar muito mais fácil. Vou ter o que eu quero sem ter que carregar ele dentro de mim.

Ela franziu a testa.
— Você fala como se não fosse gostar dele.

Dei uma risada irônica.
— Gostar? Eu mal olho pra barriga. Fico pensando que daqui a duas semanas vai ter um moleque chorando por aí… e eu vou ter que fingir que me importo.

Camila mordeu o lábio, meio desconfortável.

— Você é fria, hein.

— Realista — corrigi. — Eu sei o que quero. E não é ser a mãe do ano.

Peguei o controle remoto e aumentei um pouco o volume da TV. Lá embaixo, ouvi uma porta bater. Devia ser ele. Camila olhou pra mim, esperando alguma reação. Eu só dei de ombros.

— Ele pode subir? — ela perguntou.

— Duvido. Ele mal olha na minha cara se não for por obrigação. — encostei mais no sofá, relaxando. — E quer saber? Prefiro assim.

Camila ficou quieta por um tempo, e eu continuei mexendo no celular. Meu feed cheio de fotos de viagens, bolsas, joias… coisas que, agora, eu podia comprar sem pensar duas vezes.

— Então, você aguenta a gravidez só por causa do luxo? — ela insistiu.

— Exatamente. — olhei bem pra ela. — E não tenho vergonha nenhuma de dizer. Esse moleque não significa nada pra mim. O que significa é a vida que eu vou continuar tendo quando ele nascer.

Camila assentiu devagar, mas eu vi no olhar dela que tava meio chocada. Eu só dei um sorriso de canto.

Lá embaixo, silêncio de novo. E eu sabia que era melhor assim. Quanto menos ele me olhasse, mais fácil ficava fingir que essa história toda não tinha nada a ver comigo.

 Quanto menos ele me olhasse, mais fácil ficava fingir que essa história toda não tinha nada a ver comigo

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