Guerras

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Kim Taehyung

O som do gelo tilintando no fundo do copo era a única coisa que me mantinha minimamente presente naquela sala abafada. Whisky. Forte, amargo, direto. Igual a mim.

- Ele está atrasado. - A voz de Ji-hoon quebrou o silêncio. Ele estava de pé ao meu lado, tenso, como sempre ficava quando eu estava assim... em silêncio demais.

- Cinco minutos não é atraso. É descuido. - Dei um gole longo na bebida. - E descuido tem preço.

A porta se abriu com um estalo.

Um homem alto, terno mal passado, suando em bicas, entrou apressado.

- S-senhor Kim... me desculpe... o trânsito...

- Já começou errado. Não gosto de desculpas. Gosto de resultados. - Cruzei as pernas, apoiando o copo no braço da poltrona. - Cadê os documentos?

Ele tremia ao tirar a pasta da mochila. Passou para Ji-hoon, que a abriu e folheou página por página.

- Tudo aqui. Mas tem um problema com o carregamento no porto. Três contêners foram retidos pela alfândega. Alguém falou demais. - Ji-hoon olhou pra mim com olhos firmes.

- E você quer que eu adivinhe quem foi? - Me levantei devagar. O homem recuou um passo. - Você quer que eu simplesmente... confie que isso vai se resolver?

- N-não, senhor... eu... estou já investigando, só preciso de mais tempo...

- Tempo é dinheiro. E você está me fazendo perder os dois. - Me aproximei. O cheiro do suor dele era enjoativo. - Sabe o que eu faço com gente que me faz perder dinheiro?

Ele não respondeu. A respiração dele acelerou.

- Não sabe?

- P-por favor...

Ji-hoon já sabia o que fazer. Se posicionou atrás do homem, puxou sua mão para trás com firmeza, o bastante para deixá-lo de joelhos.

- Não vai acontecer de novo! Eu juro, senhor Kim! Eu faço o que precisar! Até matar, se for preciso!

Me abaixei, encostando a boca no ouvido dele.

- Não preciso de palavras. Preciso de lealdade. Úctionos, não promessas.

Levantei e voltei para meu copo.

- Libera ele. - Falei a Ji-hoon. - Quero os nomes dos envolvidos até amanhã. Ou você entra na lista.

O homem saiu tropeçando, mal conseguindo respirar.

Ji-hoon fechou a porta com calma.

- Tem certeza que quer manter esse cara na operação?

- Até ele servir pra alguma coisa, sim. Depois... - Dei de ombros. - Substituível.

Ele me olhou por alguns segundos, depois soltou:

- Você não comeu nada hoje. Nem ontem. Isso está começando a preocupar.

- Me deixa em paz, Ji-hoon. - Enchi o copo de novo. - Não preciso de babá.

- Precisa de foco. Louise já se foi. E você está...

O som do copo estilhaçando contra a parede o fez calar.

- Não fala o nome dela.

Silêncio.

Me afundei na poltrona, peguei outro copo. Outro whisky.

Ela me traiu. Ela mentiu. Ela se deitou com outro homem.

E eu ainda não consegui mandar os papéis do divórcio.

OBSESSÃO Histórias para pegar e não largar. Descubra agora