Música recomendada: Gohst Riders In The Sky, Johnny Cash
Por um momento, só por um momento, ela imagina como seria voar. Ter asas grandiosas e brancas, como as pinturas de anjos.
Voar por aí. Sentir o vento no rosto, o cheiro do céu, as nuvens nas pontas dos dedos. Talvez se sentisse leve e livre.
Mas como seria voar em cima de um Pégasus? Talvez, melhor. É como caminhar. É bem mais divertido cavalgar.
Voar em cima de um cavalo brilhante alado.
Mas naquelas nuvens escuras, o cavalo seria mais sombrio, não? Ela seria uma espécie de cavaleira fantasma.
― An old cowboy went ridin' out one dark and windy day
Upon a ridge he rested as he went along his way
When all at once a mighty herd of red eyed cows he saw
A-plowin' through the ragged skies, and up a cloudy draw ‒ ela canta os versos.
Sua mente é uma verdadeira bagunça. Ela pode pensar em tantas coisas ao mesmo tempo; muitas vozes falam simultaneamente; ela pode ter um pensamento alegre e logo após, um pensamento depressivo derivado.
Ela é uma bagunça.
E enquanto sua voz tenta lutar contra seus pensamentos cada vez mais confusos, lá está Per a observá-la. Foi um grande sacrifício para ele, pois não queria levantar-se de jeito nenhum. Alguma coisa o prendia ali. Como correntes. Correntes não, cordas.
Cordas espinhentas e sangrentas.
O dia está especialmente frio e soturno. As nuvens quase negras cobrem o céu e escondem o sol. O bosque se torna sombrio, mesmo com as flores plantadas por Lúthien. Está vendo como algo vibrante e alegre torna-se sombrio e lúgubre por causa de detalhes?
Mas a voz daquela menina... seu canto tão doce e manso torna tudo mais leve. O bosque, o ambiente ainda está escuro e álgido, porém, ele torna-se vibrante com aquela voz.
É isso que pensa Per ao vê-la no quintal da casa apanhando roupas do varal. Suas vestimentas coloridas destoam do tempo. Calças xadrez amarelas, uma camisa de moletom listrada com as cores do arco-íris e, para completar, seu cabelo está preso em elásticos azuis num Maria Chiquinha mal feito.
O que seria agora? Ele não fala com ela há dias e sabe muito bem que ela viajará daqui a algumas semanas, já que o mês de julho chega.
― Lúthien ‒ chama-a, por fim.
É estranho dizer aquela palavra em voz alta. O nome dela é tão forte e ás vezes intimidador.
Repentinamente, a garoto cessa o canto e deixa as roupas caírem no gramado. A mão vai ao seu peito e foi perceptível, mesmo de longe, que ela prendeu a respiração por um momento.
― Você tem sempre que chegar assim? ‒ diz ela ainda paralisada com o susto. Lá está novamente o garoto quieto e vestido de preto observando-a atentamente num dia escuro.
― Desculpe ‒ ele chuta a grama e a observa.
O som de suspiro ecoa naquele espaço verde.
― Pelle... o que você quer? ‒ mesmo não observando-a, ele pôde imaginar ela passando as mãos pelo rosto sardento.
Por um breve momento, ele não responde. Não tem como replicar aquilo. O pobre diabo talvez nunca saberá o que quer.
― Yngve, estou falando com você ‒ ele se surpreende ao notar a voz da menina cada vez mais perto. E também ao fato dela tê-lo chamado de Yngve.
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O Violinista no Jardim
Romance"É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante." Nietzsche. Per Yngve Ohlin tem alguns fascínios. Desde que foi considerado morto por 5 minutos e voltou à vida, ele é obcecado pela morte e todo aquele cenário gótico. Imerso na...
