43. A Volta do Que Não Deveria Ter Ido

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Dessa vez Per não perdeu tanto sangue a ponto de ficar pálido e fraco. Mas foi quase. 

Os rapazes não conseguiram contratar ninguém para simular uma crucificação e nem conseguiram convencer os donos do espaço em que foi feito o concerto a pôr carne podre no ar condicionado. 

Uma pena.

A banda acordou cedo para ensaiar para o próximo concerto que fariam esta noite. Dessa vez, Per conseguiu dormir durante toda a noite e acordou disposto e elétrico. Além disso, a banda toda está numa perfeita harmonia. Só houve três discussões! Um recorde. 

Ainda está longe do equinócio de outono, mas todos ali já experimentam os dias mais frios e as cores de ferrugem, ainda tímidas, no topo das árvores. 

Jørn de fato comprou comida decente para comerem. Naquele café da manhã, comeram panquecas com mel e um bom café preto. E agora estão num restaurante, prontos para almoçarem. E, como mágica, Per lembrou que tinha família em outro país. 

Ele se esforça um pouco para lembrar-se do número de telefone de sua antiga casa, mas logo os dedos agem automaticamente sobre os botões, seguindo a pequena melodia que a combinação dos números faziam em sua cabeça. 

― Mãe? ― diz assim que ouve a voz feminina e fina. 

A mulher demora um pouco para responder, sendo audível apenas um respiração forte. 

― Aqui é a Anna! ― ela grita ― Garoto, você desapareceu completamente. Estamos há dias tentando entrar em contato! 

Per franze o cenho e logo se recorda de como a voz de sua madrasta é irritante. Confundível com a voz de sua mãe. 

― Ah, eu estou viajando no momento. 

― Desde quando? ― o rapaz abre a boca para responder, mas logo é interrompido ― Ora, esqueça! Você precisa saber que Anders sofreu um acidente. Está internado desde antes de ontem. 

A voz chorosa da madrasta o contagia e provoca lágrimas e uma tremedeira nas mãos. O telefone cai de seus dedos como água e sua pele fica mais pálida do que o normal. 

― Merda. 

O que se segue é apenas um borrão em sua mente: Per pedindo o dinheiro que Lúthien dera para Jørn, uma vaga explicação, algumas discussões e o rápido percurso até a estação de trem. 

Tudo passou muito rápido e ele quase não lembra do que ocorreu exatamente. 

Infelizmente, a viagem de Sarpsborg para Estocolmo fora torturantemente lenta. As imagens passavam rapidamente através da janela. O sol da tarde penetrava no espaço, iluminando seus pálidos olhos azuis, zombando de sua melancolia, sendo o oposto de seu estado de espírito. 

Como ele odeia a luz! 

Algumas crianças que estavam sentadas à sua frente o observavam com curiosidade enquanto ele se controlava ao máximo para não surtar. 

Pobre criança. 

Ele não avisou que estava indo para a Suécia. Apenas soltou o telefone e se preparou para a viagem. Sequer sabia o que havia acontecido ao irmão. Sequer sabia se era grave ou não. 

E isso só o matava aos poucos. 

Ah, a ansiedade… a maldita sensação de impotência diante da ilusão que é o futuro. A maldita raiva, frustração e repugnância diante de algo que não existe. 

O Violinista no JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora