22. A Pessoa Errada

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Música recomendada: O Segundo Sol, Cássia Eller

― Regime Quisling ‒ ela sussurra.

― Quê?

Melina está na frente deles a caminho do interior da casa, mas mesmo assim Lúthien sussurra.

― Foi um regime fascista que se implantou aqui na Noruega durante a Segunda Guerra Mundial. O líder tinha o mesmo sobrenome que o meu e colaborava com os nazistas invasores ‒ continua ― Está vendo por que sempre caçoam do meu nome?

Per franze a testa e arregala os olhos em seguida.

― Você é parente dele?

― Talvez ele seja um primo distante, mas meu pai diz que nunca ouviu falar de algum parente com o nome Vidkun Quisling.

Os dois chegam ao interior da casa.

Burgueses.

O interior da casa de Lúthien é tão glamuroso quanto por fora. A decoração mistura o sofisticado ao rústico. Com paredes beges e detalhes dourados, a madeira brilhante faz sua parte nos detalhes das portas, janelas, móveis e a lareira. Há várias colunas com tijolinhos avermelhados e vasos de plantas pendurados.

O cheiro dali o faz sentir-se numa fazenda tradicional. Parecia que o café havia acabado de ser passado.

― Temos visitas! ‒ exclama Lúthien ao ver os irmãos mais novos e o pai conversando à mesa, que é de madeira e pode confortar umas dez pessoas.

Håvard vira o rosto e observa a Per, que abaixa a cabeça na hora. Ele estava enganado:

A única coisa mais intimidadora que o olhar de Lúthien é o olhar de seu pai.

― Sente-se, meu rapaz ‒ Håvard o convida gentilmente, e ele o faz imediatamente ao notar que era o único de pé ali.

― Agora você vai provar um prato grego ‒ Lúthien sorri e bate palmas rapidamente.

O rapaz pega seu prato e, constrangido, começa a cortar uma pequena fatia de moussaka, uma espécie de lasanha com carne de cordeiro, pimentão, beringelas, tomate, cebola e um molho branco. Ah, não poderia faltar, azeite.

Um dos gêmeos a sua frente diz algo em grego. Ele sorri sapeca e o outro irmão o imita.

― Alexandros!, fale em norueguês ‒ ordena Melina com a voz alta.

Enquanto comia, em um dos raros momentos que levantava a cabeça, Per reparou na semelhança entre mãe e filha.

Melina, num rápido momento, parecia tão diferente de Lúthien. Seu cabelo negro e brilhoso, sua boca carnuda, sua pele bronzeada e os olhos negros chamam muito mais a atenção. Ele precisou analisá-la para ver a semelhança.

Lúthien parecia o completo oposto da mãe, mas ainda assim carrega a mandíbula em formato de V, o mesmo formato da boca (mesmo que os lábios não sejam carnudos), as bochechas magras e até mesmo o jeito de andar, apesar de Lúthien ser mais desengonçada.

Mas realmente a menina herdou muito mais características do pai: a altura, o formato e tamanho das mãos e o mais marcante, os olhos.

Håvard tem olhos mais fechados e o azul da íris é mais claro, mas ainda há a mesma intensidade.

As análises de Per são interrompidas pelo som da campainha.

Andreas levanta-se e anda em direção a porta e desaparece da sala de jantar. Ou seria Alexandros?

― Desculpem o atraso ‒ entra pela porta da sala de jantar um rapaz nipônico que Per nunca vira. Seu cabelo tão liso e desarrumado, as roupas conservadoras e o jeito contido denunciavam certa babaquice, mas Per não é o tipo mais julgador, então apenas abaixa a cabeça e volta a comer.

O Violinista no JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora