Música recomendada: Herr Mannelig (sério)
1989
Perséfone é uma linda deusa, filha de Deméter, a deusa da agricultura. Sua beleza sempre fora cultuada e admirada, seus longos cabelos castanhos, sua pele brilhante e bronzeada.
Claro, uma deusa assim pode chamar a atenção de muitos. Mortais e imortais, todos caíam aos seus pés. Inclusive, um dos deuses mais temidos se atraía por sua beleza. O engraçado é que, esse deus é o total oposto de Perséfone.
A deusa representa as flores, a boa colheita, a grama saudável, o céu limpo de nuvens e todo o carnaval de cores que a primavera pode proporcionar.
Já o deus, ele representa as trevas em sua mais pura expressão, a velhice, a feiura, a morte. Sim, este deus é Hades.
Quem imaginaria!, Hades sentindo-se atraído por seu perfeito oposto.
O deus do submundo, percebendo que nunca teria a sua amada em seus braços por vontade própria, trama um plano perfeito: ele a sequestra e toma-a para si como esposa. Ai da deusa!
Deméter, desesperada para encontrar a filha querida, a procurou por todos os cantos do mundo, mas sempre voltava ao Olimpo deprimida e inconsolável. Como deusa da agricultura, ela não cuidava mais de sua função, deixando o planeta inteiro sob os perigos de pragas, tempestades ou seca, e, consequentemente, da falta de comida. Zeus, percebendo o estrago que estava ocorrendo, reuniu todos os deuses para resolver a danação dos mortais, onde Hades fora descoberto.
Todos o ameaçavam na tentativa dele soltar a deusa da primavera, mas sempre negava. Porém, com toda sua inteligência, Zeus propôs um acordo: Perséfone ficaria com sua mãe por seis meses e os outros seis meses, ficaria com seu sequestrador.
No momento, Per e outros mortais contemplam o amor entre mãe e filha. A grama brilhante cobre a terra enquanto que, sob a camada fina de neve, desabrocham flores de diferentes cores, alegrando o ambiente e felicitando todos os moradores do mundo ― pelo menos no hemisfério norte do globo. Além, claro, de inspirar os hippies.
― Legal, não? – diz Aarseth, observando o bosque ao lado da casa que eles compraram. Per está ao seu lado, distraído, com pensamentos além daquele monte de bétulas e pinheiros.
O vento bate constantemente, bagunçando as cabeleiras dos dois.
― Vão ficar aí namorando, ou vão nos ajudar aqui? – grita Jan.
A casa já estava mobiliada quando os jovens músicos a compraram, mas ainda precisam arrumar o espaço de ensaio da banda.
Dali, seguiram-se longas horas. Os quatro rapazes se puseram a abrir as caixas, tirar todos os móveis e arrumá-los em seus devidos lugares. Per quase passa mal, pois não é muito recomendável uma pessoa de 51 quilos pegar tanto peso.
A sala de ensaio é um cômodo a parte da casa. Eles primeiramente pregaram todas as cartelas de ovos sobre as paredes para fazer uma proteção acústica improvisada, e puseram o sofá e os instrumentos, com o devido cuidado, é claro.
Per pegou seus enfeites para a decoração da sala. Um monte de teias de aranha falsas pelo teto e lençóis sujos de vermelho e roxo servindo de cortina para a janela.
Eles não limpam a casa, que precisaria de uma boa faxina para tirar toda a poeira, o que faz Jan não parar de espirrar constantemente por conta da alergia.
Quando terminam de arrumar a sala de ensaio já é quase sete horas da noite, o que não é tão ruim, pois a primavera norueguesa é conhecida por dias e noites claras.
Jørn se despede, deixando Per, Øystein e Jan a sós na casa de campo.
Os três se arrumam para comer e descansam por um tempo, mas Per tem outros planos.
***
Alguns calos se formam nas mãos lisas e finas do sueco. A pá é mais pesada do que ele imaginara.
Havia chovido no dia anterior, então a terra que ele cava está fofa e um pouco lamacenta, deixando seus tênis adidas mais sujos. Ele provavelmente não irá lavar. Mas quem se importa? Ele não tem mais a mãe para lhe exigir coisas.
Ele se sente um coveiro ali.
Oh, não! Ele não está enterrando alguém!
Ele está enterrando roupas de alguém, não o corpo propriamente dito.
Após fazer um buraco na terra, ele põe suas roupas ali. Uma jaqueta e uma calça jeans e uma camisa preta, além de alguns acessórios como uma correntinha e uma cruz.
Sua intenção é bem simples: deixar as roupas com aspecto podre, como as de um defunto; adoraria que elas ficassem com o odor também.
O garoto, desengonçado, se pôs a fechar o buraco. Seus braços doem e os dedos começam a ter cãibras.
Um trovão baixo soa pelo lugar, como a vinheta antes do espetáculo. Per não admitiu para si mesmo, mas ele quase mijou nas calças com o susto.
Bittida en morgon innan solen upprann...
Às vezes algumas situações ocorrem. Situações estas que não parecem ser obra do acaso, do evitável, e sim por obra de algo poderoso. Estas situações, porém, são feitas por quem? Simplesmente nunca se saberá se foram por Deus ou pelo próprio diabo.
Oh, se ele soubesse!
Deus tem planos, muitas vezes, estranhos aos olhos e corações mortais que os fazem pensar que foram obra do mal.
Bergatrollet friade till fager ungersven
Hon hade en falskeliger tunga
Per escuta os versos cantados por uma voz feminina e doce. Esta voz oscilava entre o grave e o agudo, quase como uma cantora de ópera, mas ao mesmo tempo, quase como a voz de uma criança.
Ele se sente tão familiarizado com aqueles versos. Sim, ele os conhece. Todo sueco conhece.
O garoto respira fundo e o coração começa a acelerar, uma breve reação àquela voz. Ele vira de costas para ver a cantora.
Herr Mannelig herr Mannelig trolofven i mig
Desta vez, ele admite para si o sentimento parecido com o medo. Medo. Ele não sabe o porquê, mas sente.
Segundos depois, tentando ver a dona da voz, se frustra. Separados pela clareira do bosque, as árvores atrapalham a visualização, fazendo com que ele veja apenas um vulto movendo-se calmamente.
Seus olhos se arregalam e sua boca abre. O coração acelerando cada vez mais. Per agacha-se com a intenção de não ser visto, enquanto tenta vê-la.
Enquanto seu coração dizia para aproximar-se e vê-la totalmente, sua mente dizia dê o fora daí. Com anos de experiência, não fiquei surpreso ao vê-lo sair quase se rastejando de seu esconderijo e aproximar-se mais da clareira.
Tremendo, ele aperta um tronco de uma das bétulas. Os nós dos dedos ficam mais pálidos do que já são com o aperto, e finalmente ele pôde vê-la.
Como um presente da primavera, lá está ela. O sol brilha sobre seu corpo, fazendo com que ela seja o ser mais iluminado daquele bosque. O cabelo louro e cacheado voa com liberdade de acordo com o vento, assim com sua saia comprida; seu suéter é coberto por uma estampa florida, que se confunde com manchas de terra.
Ainda apertando o tronco, Per não percebe o pequeno ferimento que se forma. A boca entreaberta quase criando vida própria para chamar a garota, mas ainda resta sanidade e força na cabeça do garoto para não o fazê-lo.
― Deus. – ele sussurra.
Sim, uma das poucas vezes que ele profere esse nome.
Engraçado ele ter dito isso, pois naquele momento ninguém nunca poderia saber o que Ele tinha em mente. Ninguém sabe o que se passa na consciência de Deus. Ser tão puro e inteligente.
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O Violinista no Jardim
Romance"É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante." Nietzsche. Per Yngve Ohlin tem alguns fascínios. Desde que foi considerado morto por 5 minutos e voltou à vida, ele é obcecado pela morte e todo aquele cenário gótico. Imerso na...
