Música recomendada: Black N. 1, Type O Negative
Passos pesados sobre o chão enlameado ressoam pela vizinhança. Num sentido figurativo, claro.
Lúthien sente seus pés e panturrilha doerem e queimarem. Ela correu por boa parte do trajeto da sua escola até Kråkstad, que é de pouco mais de 5 km.
Se a garota não tivesse um ótimo condicionamento físico, poderia passar mal.
Mas agora isso não importa nem um pouco para a sua mente focada nos mais aterrorizantes pensamentos de raiva e angústia. As imagens de Per em cima de um palco sujo e pequeno, cantando e pulando com uma faca na mão. A imaginação insiste em levá-la a pensar como é um show inteiro, como é vê-lo fazer tal pecado com a própria pele.
Ela sabe muito bem os perigos de imaginar aquilo. O embrulho no estômago, a tremedeira, o suor que desce vagarosamente pela sua testa e a forte dor de cabeça que a domina agora. Efeitos do foco na pele de Per.
Onde será que ele se corta?
Usa uma faca? Estilete? Vidro?
Por que ele faz isso?
Como eu nunca soube?
Os questionamentos obsessivos misturam-se à imaginação fértil de ver Per em suas performances.
Pelo visto, Ohlin não é único com mania de autodestruição.
Lúthien se encontra na frente da porta da sala de ensaio dos vizinhos. O carro de Jørn se encontra estacionado na rua, pegando a neve que cai.
A casa vermelha se torna amaldiçoada aos poucos. Jørn, uma pessoa que teve overdose de cocaína; Per, que se corta nos concertos da banda; Jan e Øystein mentiram para ela.
Enquanto está atônita diante da porta branca e velha, a neve suja o seu blazer cinza e sua touca. Mesmo depois da corrida, ela está ficando com mais frio parada ali. Ela sobe o cachecol a altura de seu nariz quando percebe que está sangrando e ardendo muito.
A mão hesita em bater à porta. Lúthien está disposta a envergonhar Per na frente de todos, está disposta a brigar, gritar e jogar as coisas no chão se for preciso. Mas uma voz lá no fundo lhe diz o que já a machucou bastante:
Não é da sua conta.
A frase que Jørn repetiu até que estivesse impregnado nos pensamentos de Lúthien. Uma frase que ela interpreta como:
Não somos os seus amigos.
Do que adiantaria gritar, brigar, exigir, se eles sequer se importam com a opinião dela? Per se importaria?
Seus punhos se apertam em reflexo a sua raiva, mas logo ela lembra dos beijos ternos e dos sorrisos de Per Yngve Ohlin.
Sorrisos leves, serenos e tranquilizadores. O mundo poderia está acabando em pragas e catástrofes, mas Lúthien sente que apenas observar aquele sorriso sincero já era o suficiente para ver tudo de positivo.
Oh, sim. Como Lúthien gostaria de beijá-lo e abraçá-lo enquanto toma um café e assiste algo na TV naquele frio negativo. Se seus pais não estivessem em casa, ela chamaria Per para assistirem Rambo com seus irmãos. Depois ela daria um jeito de abraçá-lo forte para que ambos se esquentassem. Já poderia imaginar a sensação de aconchego.
Ela sabe que Per gosta dela, que os beijos, as conversas e os abraços são sinceros. Aquilo demonstra que ele não está alheio, que se importa com ela.
Então por que ele não foi conversar com o papai naquele dia? Por que está se autoflagelando? Se gosta tanto de mim, por que está fazendo de tudo pra me magoar?
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O Violinista no Jardim
Romance"É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante." Nietzsche. Per Yngve Ohlin tem alguns fascínios. Desde que foi considerado morto por 5 minutos e voltou à vida, ele é obcecado pela morte e todo aquele cenário gótico. Imerso na...
