Música Recomendada: Chão de Giz, Zé Ramalho
Dedos habituados a segurarem cigarros agora ficam inquietos em contato com o couro gasto do volante.
O polegar bate incessantemente, fazendo um som repetitivo e irritante. Som esse que se mistura às fungadas cheias de catarro. A tosse nada saudável resultante de uma longa e forte gripe denuncia o uso desenfreado de drogas lícitas e ilícitas e da exposição prolongada ao frio do inverno que já passou.
Aquele bigode está uma porcaria devido a tantos fluídos corporais nojentos que os humanos produzem quando estão doentes.
Jørn adoraria ir direto ao assunto que tanto lhe agonia.
Prédios enormes, pessoas caminhando pelas longas calçadas, carros e mais carros por aí... Esta é Oslo em pleno domingo de primavera. Todos estão felizes com o sol alto e quente no céu.
Bem o oposto do rapaz ao seu lado, no banco do carona, que faz questão de mostrar sua carranca.
Eu lembro de uma história.
Dédalo e seu filho, Ícarus, aprisionados num labirinto pelo cruel Rei Minos, em Creta, na Grécia.
Dédalo era um gênio. Arquiteto e inventor, há muitos anos projetou o labirinto que está preso no momento. Era amigo e confidente do mesmo Rei que o aprisionava ali.
Tudo porque Dédalo ajudou um herói ateniense a fugir do Labirinto do Minotauro, por causa de sua compaixão e a pedido da jovem princesa apaixonada, filha do Rei Minos.
Pai e filho juntos e perdidos naquela desgraça.
Ícarus nada tinha a ver com aquilo, mas lá estava. Amando e confiando em seu pai acima de qualquer coisa.
Mas Dédalo teve a ideia que poderia tirá-los de lá. Juntou penas de todas as aves que por lá voavam pelo mar que rodeia o labirinto. O homem, aos poucos, foi construindo longas asas com galhos, cera e penas.
Em muito tempo de muito trabalho, dois pares de asas gigantes estavam prontas.
Dédalo instruiu o seu amado filho ao voo, observando como as aves conseguiam a liberdade pelo ar.
Ambos pularam do muro do labirinto, as asas bem coladas às suas costas.
Lá estava Ícarus, sentindo o vento no rosto. O cabelo longo dançava.
"Esta é a sensação das aves?"
A pura liberdade.
Apesar da beleza do que há sob seus corpos, o mar infinito e vastas florestas mediterrâneas, Ícarus sentia que o chão não o pertencia mais. Ele permaneceu preso ao solo por tempo demais!
Agora, ele é um pássaro, aproveitando cada segundo entre as nuvens e a imensidão dos céus.
Poderia encontrar Zeus daquele jeito. Mais próximo do lugar que nenhum homem sob o sol chegara.
Ele se sentia um deus. Não por arrogância, mas porque ele sentia a felicidade plena, o amor, a liberdade. Sentimentos tão positivos que apenas deuses poderiam desfrutar.
O sol chegava tão perto dele. O calor acolhendo a sua pele, as nuvens o cumprimentando.
Lágrimas saem de seus olhos, mas evaporam em suas bochechas por causa do extremo calor que vem do sol. Ele está tão perto de Hélio.
Os braços se movem cada vez mais rápido e com mais força. O sol se afasta de Ícarus.
Aquela luz tão acolhedora, que o fazia explodir de felicidade, o iludiu. Quanto mais perto o pobre rapaz ficava, mais a sua cera derretia e as penas caíam.
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O Violinista no Jardim
Romansa"É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante." Nietzsche. Per Yngve Ohlin tem alguns fascínios. Desde que foi considerado morto por 5 minutos e voltou à vida, ele é obcecado pela morte e todo aquele cenário gótico. Imerso na...
